Retrospectiva: The Last Express [1997]

A Oeste Tudo de Novo

1997 foi um bom ano para as aventuras gráficas, tivemos jogos como The Curse of Monkey Island, Blade Runner, Riven, Nightlong, Broken Sword II, Zork Grand Inquisitor e claro The Last Express. De todos estes clássicos, é provavelmente este ultimo que menos impacto teve, e que mais passou despercebido, o que é estranho porque The Last Express tinha quase tudo para ser bem sucedido. É uma criação de Jordan Mechner, o pai de Prince of Persia, é uma aventura point and click que na altura embora já estivesse em relativo declínio ainda era popular, e tinha um enorme orçamento que permitiu a Mechner não descurar nenhum aspecto do jogo. No entanto aconteceu precisamente o contrário. Embora tenha sido um sucesso crítico, o investimento feito não teve qualquer retorno, problemas com distribuidoras significou que o jogo praticamente não foi publicitado, e a falência dessas mesmas distribuidoras e da própria produtora de Mechner, Smoking Car Productions, obrigou ao cancelamento do port para a Playstation que estava praticamente terminado. Embora The Last Express não tenha vingado, o jogo transformou-se rapidamente numa obra de culto e desde então mantêm ainda uma leal comunidade de fãs.

The Last Express é uma aventura point and click na primeira pessoa, onde nos movemos frame a frame. Se na movimentação é bastante tradicional, no resto nem por isso. Desde logo o jogo praticamente não tem puzzles, contam-se pelos dedos duma mão durante todo o jogo e apenas um par deles são minimamente desafiantes, claramente os puzzles não são o foco de interesse de The Last Express (nem era esse o objectivo). Também o aspecto visual foge muito do habitual. Jordan Mechner para conseguir um resultado que fizesse lembrar as ilustrações da época decidiu utilizar uma técnica chamada rotoscópio, que basicamente permite transpor imagens reais de actores e transforma-las em imagens animadas. Isto permitiu um maior realismo visual (mas estilizado, muito inspirado pelo visual Art déco da altura) e uma redução de custo e tempo, já que animar todas as sequências à mão seria incomportável. No entanto seria igualmente incomportável animar todas as sequências mesmo com a técnica do rotoscópio, já que cada frame tinha que passar por um longo processo de pós-produção, assim, foi decidido utilizar apenas alguns frames (o resultado final ficou a cerca de 1 por segundo) resultando quase numa foto novela (à excepção de algumas sequências mais importantes que foram totalmente animadas). Isto pode não ser muito apelativo para alguns, e para outros pode mesmo quebrar a imersão que o jogo tanto tenta criar.

A acção de The Last Express decorre dias antes do inicio da 1ª Guerra Mundial, num período de enorme convulsão politica e social. O arquiduque Fernando do Império Austro-húngaro tinha sido baleado em Sarajevo apenas há um mês e as várias potências europeias preparavam-se para a iminente e desejada guerra. No plano social, os governos autocráticos da Europa conservadora viam-se constantemente confrontados com movimentos sociais que colocavam em risco a sua própria existência. Movimentos anárquicos, republicanos e liberais alastravam-se por todo o continente de forma cada vez mais intensa.

Peço desculpa por esta curta lição histórica, mas é algo necessário para quem quiser desfrutar deste jogo na sua plenitude. Eu como entusiasta por história, em especial história moderna senti-me como peixe na água. Esta aventura é quase uma lição histórica interactiva, não fazia mal nenhum aconselhar aos estudantes de história este jogo, é uma forma divertida e didáctica de ganhar interesse por este fascinante período histórico.

Este background histórico acaba por se reflectir no próprio plot do jogo, não só por se inserir nos acontecimentos vividos na altura, mas porque todos esses jogos políticos e movimentos sociais são presenciados no próprio Expresso Oriente. Dentro da derradeira viagem do comboio encontramos uma espia Austríaca, independentistas Sérvios, um anárquico Russo, aristocracia czarista, um policia britânico, um milionário persa, um harém turco, enfim uma série de personagens que se movimentam de forma similar às próprias nações e convicções que representam, sendo que o teatro de operações deixa de ser o continente europeu para se transformar num comboio luxuoso.

Isto leva-me às personagens. Como disse cada uma delas tem uma convicção e rege-se de acordo com os interesses (e manipulações) dos seus países e empregadores. O mais interessante é que não os conhecemos no inicio do jogo e teremos que descobrir as intenções de cada um ao longo da trama, através de conversas e investigação. Enquanto fazemos esta descoberta acabamos também por ficar a conhecer a personalidade e a história de vida de cada um, e embora alguns dos passageiros possam fazer algo de reprovável, nenhum deles é um vilão ou herói, são todos apenas humanos, só as suas convicções é que os fazem tomar algumas decisões potencialmente reprováveis. A atenção dada a todas as personagens é a meu ver um dos aspectos mais fortes do jogo, Jordan Mechner conseguiu criar personagens tremendamente realistas e credíveis que se movimentam entre o branco e o preto, nunca caindo em clichés estereotipados e extremados.

A cereja no topo do bolo é o brilhante, repito, brilhante voice acting que ajuda a cimentar a forma como todas as personagens foram escritas. Todas as personagens falam a sua língua materna e só aparecem legendas nos idiomas que o herói, Robert, percebe. Assim temos inúmeras linhas de diálogo em Inglês, Francês, Alemão, Sérvio, Russo e Turco, mais uma vez esta decisão ajuda ao realismo destas personagens e é um enorme auxilio na imersão do jogo.

A narrativa na qual estes personagens se inserem é extremamente bem escrita. O ponto central da história anda à volta duma série de acontecimentos que acabam por arrastar de forma mais ou menos involuntária o protagonista, Robert Cath. Ele vê-se obrigado a entrar a bordo do expresso a pedido do seu amigo Tyler Whitney que anda envolvido com independentistas sérvios e traficantes de armas alemães. Para além disto há ainda uma misteriosa peça de ouro que é a cobiça de muitos dos passageiros. No entanto após um acontecimento Robert é obrigado a movimentar-se no meio de todas estas intrigas e jogos de interesses à medida que as coisas lhe vão sendo reveladas, sem nunca saber em quem realmente confiar nem quem usa ou não mascaras. Como podem imaginar não posso desenvolver mais este aspecto, já que a narrativa é o ponto mais importante do jogo, e revelar spoilers estragaria qualquer interesse no jogo. Digo apenas que temos dezenas de finais diferentes, a maior parte deles falsos (resultantes da morte e/ou prisão do protagonista) e alguns verdadeiros (que mudam consoante as nossas acções em jogo), embora apenas um real. E é um óptimo desfecho, mais uma vez evitando cair em clichés, já que embora seja um final relativamente feliz, é bastante agridoce.

Tal como no próximo jogo que Jordan Mechner esteve envolvido, Prince of Persia: Sands of Time, o tempo é um dos aspectos centrais de The Last Express. Aqui não o controlamos como nas aventuras do Príncipe, no entanto somos completamente controlados por ele. A narrativa e a acção desenrola-se quase toda em tempo real ou seja todas as sequências desde diálogos, movimentações das personagens (todas elas têm uma IA que as faz ter uma rotina que não é dependente do jogador, mas sim do tempo) acontecem quando têm que acontecer, nunca estando conectadas ao jogador, logo é importante saber estar à hora certa no momento certo, porque, tal como na vida real, ninguém espera por nós para revelar coisas importantes. Isto é extremamente realista, e permite que a experiência de jogo nunca caia na repetição, já que cada vez que jogamos poderemos sempre ouvir e presenciar coisas novas. Por incrível que pareça este sistema tão arriscado e propenso a problemas resulta muito bem, e é pena que mais jogos não tentem fazer o mesmo. Lembro-me por exemplo do Blade Runner da Westwood, que tentou fazer algo semelhante, mas as coisas não correram tão bem como neste jogo.

Um dos exemplos perfeitos da importância do tempo em The Last Express, é num momento chave da trama durante um concerto a bordo do expresso. Esse concerto demora meia hora real, e durante esse tempo o jogador pode fazer o que bem lhe entender, se quiser pode ouvir o concerto de forma integral, ou pode deambular pelas carruagens, seguindo os movimentos de outras personagens que tal como nós aproveita aquela meia hora para investigar. No entanto uma mecânica destas tão focada no tempo real pode resultar em frustração, porque por vezes podemos perder aspectos importantes da história e não saber o que temos de fazer a seguir.

O tempo também tem um papel importante no sistema de saves do jogo. Na verdade The last Express não tem sistema de saves, é tudo à base do tempo, e se quisermos voltar a trás no tempo podemos manipular um relógio que nos permite voltar a qualquer parte da nossa viagem. Na minha opinião é um excelente sistema e ajuda o jogador a voltar ao ponto pretendido sem frustrações nem complicações.

Um resultado directo do enorme orçamento é a atenção ao detalhe, tudo desde a parte visual à sonora está impecavelmente retratada, e Jordan Mechner teve mesmo o luxo de ter uma réplica do expresso oriente para poder retractar na perfeição o ambiente pretendido. Outro resultado é o polimento dado ao jogo, embora tenha encontrado um bug grave no jogo, tudo o resto correu às mil maravilhas, isso não seria nada de especial, mas com todo o jogo a viver á base da mecânica de tempo real que já falei, seria expectável que os bugs resultantes disso abundassem.

Este é um dos meus jogos favoritos, e aconselho todos a experimentar, provavelmente não agradará a muitos, para alguns pode ser muito lenta, para outros toda a parte histórica pode ser desinteressante. Mesmo para fãs de aventuras gráficas pode ser demasiado fácil e parecer mais um filme interactivo do que propriamente um jogo, mas mesmo assim acho que vale a pena

Comments
2 Responses to “Retrospectiva: The Last Express [1997]”
  1. JC diz:

    Puxa, parabéns pelo texto. Na minha opinião The last express é a obra -prima de Jordan Mechner. Ousado e diferente de tudo feito na época. Dublagem é excelente mesmo. Joguei quando estava no ginásio e mal entendia inglês, mas a imersão ao ver as pessoas “vivendo” no trem era muito legal. Passei alguns dias falando “pardom me” pra todo mundo, de tanto ouvir no game.XD
    O sistema de avanço na história pelo tempo era genial, mas realmente frustava nos momentos em que se estava “perdido”. As inumeras variações de cada situação chave do game apresentava o torna único até hoje.
    Pena que o jogo nunca chegou a ter o destaque da série PoP…

    PS:Tenho o original com a caixa e os 3 CD’s guardado com carinho até hoje mas fiquei feliz em saber que relançaram ele no gog.com.

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