Life on Mars

Este artigo foi escrito há um ano e publicado na Red Carpet, portanto está desactualizado em alguns pontos. A versão americana que na altura estava para estrear já terminou após uma única temporada, Foi um flop e teve um final anedótico. Ashes to Ashes já terminou e lançou novos factos que tornam alguns pontos do meu artigo incorrectos e irrelevantes, mas fica como uma imagem do que se sabia na altura em que escrevi. No entanto acho que ainda faz sentido publicar aqui o artigo, mais não seja para dar a conhecer a série e para mostrar a minha visão. Quando Ashes to Ashes terminar, farei um segundo artigo sobre a série que irá complementar este.

Atenção este artigo é Spoiler Terribilis!

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Todos os anos, as estações televisivas norte-americanas apresentam um grupo de novas séries na esperança de que alguma caia nas boas graças do público, e assim explorá-la até à exaustão. Na mais recente fornada da ABC, entre várias ainda desconhecidas, uma delas salta à vista, Life on Mars. Os mais atentos sabem que Life on Mars foi uma das séries britânicas de maior sucesso e qualidade dos últimos anos. Se a versão americana terá ou não sucesso ainda é muito cedo para saber, mas o que proponho é descobrirmos o que tornou o original tão bem sucedido e recordar o emocionante desfecho. Se o leitor não conhece o original e está agora a descobrir a versão americana, vai encontrar alguns spoilers, no entanto, o remake, segundo palavras dos produtores, terá um final diferente. Se está a pensar em ver a versão britânica, vá vê-la primeiro e passe cá mais tarde para ler o artigo … cá o espero.

A criação de Marte

Life on Mars nasceu na cabeça de Matthew Graham, Tony Jordan e Ashley Pharoah em 1998. Depois da recusa do Channel 4, a BBC deu luz verde à série. A série estreou em 2006, estendeu-se por duas temporadas de 8 episódios cada e rapidamente se transformou num sucesso com uma média de 7 milhões de espectadores por episódio. Desde logo, saltou à vista o perfeccionismo adoptado em todos os aspectos da produção. Argumentos inteligentes, uma realização dinâmica e muito cinematográfica, uma perfeita e pormenorizada representação dos anos 70, banda sonora de luxo e personagens carismáticas. Para dar vida a essas personagens foram escolhidos John Simm (24 Hour Party People) no papel de Sam Tyler, Philip Glenister (que se transformou num fenómeno de popularidade) como Gene Hunt, Liz White como Annie Cartwright, Dean Andrews e Marshall Lancaster como Ray Carling e Chris Skelton, respectivamente. Todos eles contribuíram de forma decisiva para os elevados níveis de qualidade da série, já que as interpretações são brilhantes. A acção de Life on Mars inicia-se em 2006 onde Sam, um polícia investigador, tem dificuldades em resolver um assassinato. Quando nada o fazia prever, Sam é atropelado e acorda, nada mais, nada menos, que em 1973…

O mundo de Oz

Desde logo Sam vê-se obrigado a sobreviver num mundo desconhecido, tecnologicamente atrasado, politicamente incorrecto e machista, personificado por Gene Hunt, chefe da polícia de Manchester. Os métodos de trabalho de Sam e Gene não podiam ser mais opostos: Sam é idealista e metódico, Gene é impulsivo e autoritário, mas contra todas as expectativas eles formam uma dupla brilhante (são a força motriz da série). A acompanhá-los estão os detectives Ray, Chris e a polícia Annie.

Cada episódio segue uma linha padrão idêntica, com um caso que terá que ser resolvido no final. Cada caso é um meio para mostrar e comparar as diferentes linhas de investigação de Sam e Gene, o choque entre ambos e no final, chegar à conclusão que o trabalho em equipa dá bons resultados. No entanto, essa é apenas a camada superficial de Life on Mars, o que na realidade move a série é a evolução das personagens. Sam vê-se confrontado com os métodos pouco éticos da polícia, que vão desde prisão sem acusação, plantação de provas, tortura, suborno, tudo aspectos que vão contra os seus ideais. Assim, Sam entra em conflito directo com os seus colegas, tentando mudá-los, mas a verdade é que com o passar do tempo por vezes ele próprio começa a cair nos mesmos vícios. Quando se vê confrontado com o seu pai, Sam acaba por ir contra a sua forma de pensar e actuar. No sentido oposto, Gene começa a ouvir e a seguir as metodologias de Sam, embora nem sempre o admita e Chris vê Sam como um exemplo. A relação com Annie é diferente, ela é a sua única confidente e torna-se no interesse amoroso de Sam. No final da série, Annie terá um papel fundamental para a derrradeira decisão do protagonista.

Durante toda a série, Sam tem visões e alucinações que o fazem acreditar que o atropelamento de que foi alvo, o colocou em coma e que está ali para resolver algo que o fará regressar a casa. Sam convence-se de que a porta que o levará de volta a 2006 anda à volta do seu pai, mais propriamente o momento em que ele abandonou a sua família. O dia em que Sam viu o pai pela última vez, foi um momento traumático na sua infância e possivelmente a razão para Sam ter acordado em 1973, teoria que parece ser correcta se tivermos em conta a sequela de Life on Mars, Ashes to Ashes. No entanto, por várias vezes Sam questiona a sua própria saúde mental, o mundo é demasiado real para ser uma criação na sua cabeça, e porque razão iria ele criar personagens que nunca conheceu? Não estaria ele a imaginar e a fantasiar tudo, alimentado pelas suas alucinações?

Desde logo, os criadores poupam trabalho ao espectador reduzindo para apenas três, as possibilidades da causa da “viagem” de Sam: viagem no tempo, coma ou loucura. E é a partir daí que nós e Sam tentamos resolver o puzzle que é Life on Mars. No entanto, os autores sempre mostraram a possibilidade do coma como a mais forte e nunca se mostraram muito interessados em deliberadamente complicar as coisas. O objectivo não era confundir o espectador entre as três possibilidades, mas sim, colocar questões, incutindo no espectador o mesmo sentimento de dúvida vivido por Sam. Para reforçar a teoria do coma, basta reparar nas inúmeras referências ao Feiticeiro de Oz, que serviu de inspiração série. 2006 é cinzenta como Kansas, 1973 é colorida e vibrante como Oz, Gene por diversas vezes chama Sam de Dorothy, várias vezes fazem referência à “Yellow brick road” e Sam, tal como Dorothy, pretende voltar a casa.

Todas as dúvidas prometiam uma clara resolução no capítulo final da série. O início do episódio seguia o padrão tradicional de Life on Mars. No entanto, a pressão exercida por Frank Morgan (nova referência ao Feiticeiro de Oz) para denunciar Gene Hunt, depressa levou Sam a construir uma nova porta de saída para o mundo real. Frank seria na realidade o cirurgião que no futuro lhe estaria a retirar o tumor encontrado e Gene, nem mais nem menos, que o próprio tumor, cuja remoção daria a Sam a possibilidade de voltar a casa. No entanto, nada faria esperar o turbilhão de emoções que viriam após Sam entrar no carro de Frank e entregar todas as provas necessárias para afastar Gene. As revelações de Frank fizeram desabar as convicções de Sam e do próprio espectador, instalando ainda mais dúvidas sobre o que é ou não real na sua vida.

Há vida em Marte?

A cena do cemitério tornou-se numa das mais marcantes de Life on Mars, uma vez que Frank revela que Sam sofreu um acidente em 1973 que lhe causou amnésia acrescentando que estava infiltrado na polícia de Manchester sobre uma identidade falsa, identidade essa adoptada por Sam aquando da sua amnésia. Assim, toda a sua experiência durante a série era fruto da sua própria imaginação e todas as visões e alucinações, uma forma que o seu subconsciente arranjou para seguir os planos originais. A reacção de incredibilidade de Sam é um dos momentos interpretativos mais brilhantes da série, fruto do excelente desempenho de John Simm. Estas revelações foram um autêntico murro no estômago e uma volta de 180º na forma de pensar de Sam e também na nossa. Até àquele momento, a certeza de que Sam se encontrava realmente em coma era cada vez maior e saber que na realidade tudo não passava dum delírio causado por uma amnésia do herói foi chocante. Assim, e aos olhos dos seus colegas e amigos, Sam era apenas um traidor que os tinha enganado durante todo o tempo. A reacção de Ray, Chris e principalmente a de Annie quando ficam a par da verdade é de partir o coração. Entretanto e como forma de apanhar o assassino, Gene infiltra-se num gang que planeia assaltar um comboio. O assalto corre mal e vendo os amigos cercados e em risco de vida, Sam pede a ajuda de Frank Morgan. No entanto, quando menos esperávamos… Sam acorda… novo murro no estômago, nova volta de 180º. Quando começávamos a assimilar que afinal tudo aquilo era real, tivemos que voltar de novo ao ponto de partida.

Sam está de volta a casa, mas será que está feliz? 2006 é cinzento, frio, as pessoas são distantes e Sam, ao contrário do que esperaria, sente-se um estranho em sua própria casa. Num dos momentos mais emotivos da série, Sam decide ouvir o seu coração e com um sorriso nos lábios suicida-se atirando-se do topo dum prédio. Prefere ir morrer no mundo onde se sente real. Ao contrário de Dorothy, Sam não se conseguiu separar do seu Oz, era aí que ele se sentia real, onde se sentia vivo. Dorothy no final do Feiticeiro de Oz diz que “não há lugar como a nossa casa”, mas para Sam a sua casa era ao lado de Annie, em 1973.

Os autores durante toda a série, sempre mostraram claramente que Sam estava em coma e que teria que resolver alguma situação em 1973 para regressar a casa. O próprio Matthew Graham admite isso: “sinceramente, inicialmente fiquei surpreendido por as pessoas pensarem que havia um mistério genuíno. Para mim, era óbvio – ele foi atropelado, os médicos e enfermeiras falavam com ele através da rádio e televisão enquanto ele estava em coma”. No entanto, à semelhança de Sam, nós aprendemos a gostar do mundo de 1973, o que levou à criação de teorias para que esse mundo fosse na verdade real: “a verdade é que o Sam começou a suspeitar que haveriam maneiras em que ele poderia mudar o seu destino, e claro quando ele lá ficou por um período tão longo de tempo, ele começou a assimilar muita coisa daquele mundo para ele próprio. Assim ele começa a questionar se realmente havia algo mais” completa Graham. O último episódio, levou a uma mistura de sentimentos para os espectadores. Se por um lado, todos queriam que fosse realmente um coma, de forma a não se sentirem enganados pelos autores, por outro lado, também queriam que 1973 fosse real e assim o desfecho acabou por dividir opiniões.

Renascer das cinzas

Apesar do arrebatador final e de quase tudo ter sido respondido, ainda ficaram algumas dúvidas no ar. Será que alguma das acções de Sam em 1973 poderiam ter tido repercussões em 2006? Embora possam ter sido criações de Sam, as detenções de Colin Raimes e Tony Crane podem querer indicar que sim, isso significaria que o mundo de 1973 poderia ser real. A sequela de Life on Mars, Ashes to Ashes promete responder a algumas questões. Em Ashes to Ashes seguimos Alex Drake, psicóloga policial que acompanhou o caso de Sam. Após ter sido baleada em 2008, vê-se, tal como Sam, transportada para uma época traumatizante da sua vida, neste caso 1981 em Londres, ano da morte dos seus pais (à semelhança de Sam, o acontecimento envolve directamente os pais). Para sua surpresa (e nossa) Alex encontra Gene, Chris e Ray. Serão eles construções que o seu subconsciente criou depois de ela os ter estudado no caso de Sam? Ou poderão eles e aquele mundo ser mesmo real? O emotivo final da 1ª temporada de Ashes o Ashes dá a entender, que de facto, Gene pode ser real, e as acções de Alex podem ter influenciado o seu próprio futuro, à semelhança de, possivelmente, Sam. Se for esse o caso, então poderá vir a abalar por completo o universo de Life on Mars. No entanto, tudo pode ser mais uma vez, apenas uma forma dos autores colocarem questões e dúvidas na nossa cabeça como em Life on Mars. Provavelmente, a experiência de Alex é exactamente igual à de Sam e tudo não passam de construções suas. No entanto, começam a surgir demasiados sinais contrários. Em Fevereiro estreia a 2ª temporada de Ashes to Ashes, e aí, possivelmente, tudo vai ser respondido.

Life on Mars é quase como um Lost em formato policial, há mistério, pistas e referências espalhadas pela série, diferentes teorias, uma pitada de ficção científica e até potenciais viagens no tempo e em princípio tem tudo para conquistar os americanos. Vai ser interessante ver o rumo que o remake vai tomar. Se fugir ao cancelamento e conseguir vingar, e tendo em conta que já disseram que o desfecho será diferente do original (é difícil colocar o herói a suicidar-se na TV pública americana), qual vai ser a explicação da viagem de Sam? As pessoas à frente do projecto americano são competentes e têm provado que sabem fazer série de sucesso, mas fica a dúvida se vão conseguir copiar a alma do verdadeiro e original Life on Mars.

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