Retrospectiva: The Beast Within: A Gabriel Knight Mystery [1995]

A Hora do Lobo

A série Gabriel Knight sempre se destacou por possuir uma grande qualidade narrativa e excelentes histórias caracterizadas pela junção de elementos históricos e sobrenaturais. Depois do estrondoso sucesso de The Sins of the Fathers, Jane Jensen partiu de imediato para um novo capitulo na aventura de Gabriel Knight. O jogo original, lançado em 1993 foi pioneiro em algumas novas tecnologias da época como a utilização de voice-overs de qualidade, utilização do 3D em algumas sequências de vídeo, captura de movimentos e a adopção do CD-ROM. Para o segundo jogo, The Beast Within, foi decidido usar uma nova tecnologia como base, o Full Motion Video (FMV), aproveitando a produção interna de Phantasmagoria na Sierra de Roberta Williams. Phantasmagoria era uma aventura rodada inteiramente em FMV, ou seja a acção decorria com a presença de actores reais em vez de modelos animados.

Esta era a época onde o termo “filme interactivo” estava nas bocas do mundo e era visto como o futuro para a industria dos videojogos. Era assim natural que o próximo passo na série Gabriel Knight passasse pela imagem real, ao qual o jogador decidiria o desenrolar da história, tal e qual um filme interactivo. No entanto isso acarretava um grande custo e uma produção gigantesca semelhante a um filme. O custo total rondou os 4 milhões de dólares, o que em 1995 era extremamente elevado para um videojogo. Felizmente The Beast Within foi um sucesso, granjeando vários prémios e é unanimemente considerado o apogeu nos jogos FMV.

Jane Jensen é uma escritora muito metódica com uma enorme atenção ao detalhe e emprega uma vasta investigação e pesquisa histórica para trazer uma faceta realista às suas histórias. Em Sins of the Fathers, Jane Jensen explorou ao detalhe a cidade de Nova Orleães com a sua peculiar cultura, costumes e ambiente. A parte sobrenatural, encabeçada pelo voodooismo e os seus espíritos era a alavanca que fazia mover a história em frente. Essa história era povoada por fantásticas personagens, encabeçadas pelo herói, Gabriel Knight, a sua amiga e assistente, Grace Nakimura e o amigo Moseley.

The Beast Within não fugiu ao que se esperava da Jane Jensen e voltou a pegar em elementos sobrenaturais e mitológicos juntando-os com factos históricos. A história começa no seguimento dos acontecimentos do capitulo anterior, onde Gabriel descobriu ser um Schattenjager (literalmente caçador de sombras). Schattenjager é um termo usado para uma pessoa (é um titulo familiar, passado de geração em geração) que combate as forças do oculto. Depois das aventuras com espíritos malignos em Nova Orleães, Gabriel encontra-se no castelo herdado pelo seu tio Wolfgang na Baviera, em busca (outra vez) de inspiração para mais um livro. Ele está num pais estranho, com uma língua que não domina, sem a companhia de amigos e com uma responsabilidade enorme que é ser Schattenjager. Certo dia, a sua vida vai dar (novamente) uma volta de 180º quando os aldeões lhe pedem ajuda após o ataque do que pensam ser um lobisomem.

É a licantropia, ou seja os lobisomens, o tema central de The Beast Within. Mais uma vez o nível de detalhe e pesquisa empregue pela Jane Jensen é impressionante. O jogador passa grande parte do tempo no jogo a pesquisar as origens da lenda do lobisomem e toda a mitologia e folclore inerente ao tema. Durante o inicio do jogo a responsabilidade dos crimes é colocada em lobos comuns encabeçado por um enorme lobo a que dão o nome de Black Wolf. No entanto, Gabriel acaba por descobrir uma estranha ligação com um clube de caça do centro de Munique liderado pelo charmoso e carismático barão Von Glower. O misterioso barão é praticante duma estranha filosofia de vida que afirma ser o prazer, o bem supremo da vida humana, um pouco como o Hedonismo. Desde cedo Von Glower ganha um especial interesse em Gabriel, vendo-o como um potencial membro do seu clube. Ao mesmo tempo Grace regressa de Nova Orleães contra a vontade de Gabriel e nas suas investigações acaba por tropeçar na vida do icónico e lendário Rei Ludwig II da Baviera e o não menos lendário compositor Wagner. Segundo os diários de ambos, o recluso Rei era nada mais nada menos que um lobisomem torturado pelo seu sentimento de culpa e pelo seu estado… peculiar. Cedo, Grace descobre uma ligação entre Ludwig, uma ópera perdida de Wagner centrada na mitologia dos lobisomens, o Black Wolf e… Von Glower. Von Glower é nada mais nada menos que o próprio Black Wolf e é a vida do próprio Gabriel que está em risco.

O jogo termina num épico confronto entre Von Glower e Gabriel (já mordido e ele próprio um lobisomem) durante e após a reencenação da ópera perdida de Wagner. Von Glower morre e liberta Gabriel da maldição. Ao contrário do que parece e do que se possa pensar, não é Gabriel o herói de The Best Within. Jane Jensen foi inteligente ao ponto de humanizar Gabriel, ele é uma personagem muito longe do típico herói de videojogos. Gabriel erra, tem duvidas e vê o titulo de Schattenjager como um fardo que só ele terá de suportar. Ele tem um especial afecto por Grace, e por isso não a quer ao seu lado, com medo de a magoar e afasta-se dela. No entanto é ela quem lhe irá salvar a vida e estará sempre lá para o apoiar nos momentos difíceis. É Grace Nakimura a heroína de The Beast Within

Pode parecer estranha e até ridícula a ideia de ter o falecido Ludwig II como um lobisomem, no entanto a escrita de Jane Jensen torna as coisas extremamente credíveis. É tudo suportado por tantos factos históricos que conseguimos vê-lo realmente com um perturbado lobisomem. No geral a história de The Beast Within é mais complexa, densa e negra que a do jogo original e todas as ramificações da narrativa juntam-se de forma perfeita no clímax do jogo

A mecânica do jogo é muito mais simples que o antecessor. Só há uma acção e basta um clique para interagir. Pode parecer que torna as coisas muito mais fáceis, mas nem sempre. Muitas vezes não sabemos que acção a personagem vai fazer, o que pode ser problemático. Os puzzles como seria de esperar num Gabriel Knight são totalmente integrados na narrativa, mas alguns deles são bastante obscuros e é bastante fácil ficar perdido sem saber o que falta fazer para acabar o capitulo.

Para dar vida a tão ricas personagens, tiveram que descartar os actores que davam voz no jogo original (Tim Curry, Mark Hamill entre outros) fruto do FMV em que este jogo corre. Foi assim necessário recorrer a novos actores que fossem fisionomicamente semelhantes às personagens. O papel de Gabriel recaiu em Dean Erickson e Grace em Joanne Takahashi. É normal que não os conheça porque são actores praticamente desconhecidos, tal como o resto do elenco. Não posso dizer que sejam grandes actores, no entanto com o passar das horas acabamos por ganhar afecto por eles, e esquecemos rapidamente das suas interpretações.

Mesmo sendo o capitulo que menos gostei da trilogia Gabriel Knight, The Beast Within é um jogo que muito estimo e é uma das minhas aventuras favoritas. Quem gostar duma forte, empolgante e bem escrita narrativa, penso que ira gostar do jogo. Quem sentir repulsa pela sua  idade (visualmente acusa e bem o peso da idade) pouco mais posso fazer do que descrever a minha experiência. Tinha (e tenho) horror a jogos em FMV, no entanto adorei The Best Within, e joguei-o pela primeira vez no ano passado, por isso não tenho qualquer sentimento nostálgico a toldar-me os sentidos.

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