Entre no Mundo de Spaced!

Ora bem, mais um artigo que escrevi originalmente para a Red Carpet, infelizmente não chegou a ser publicado em nenhum número e ficou-se apenas pelo site, que já não existe. Fica então aqui para quem o quiser consultar.

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Fez em 2009, dez anos que estreou no Channel 4 britânico uma pequena sitcom feita com um orçamento minúsculo que se transformou num objecto de culto e uma fonte de inspiração para muitos. A série chamava-se Spaced e desde então tornou-se sinónima de cultura popular, comédia inteligente e universo geek.

Gosh, this is so exciting!

Quem tem a oportunidade de ver Spaced muito dificilmente a esquece. É bizarro como uma série aparentemente tão simples e vulgar, feita de forma quase amadora e com alguns tostões, se torna num fenómeno tão grande. Isso aconteceu não só na Grã-Bretanha, mas também nos Estados Unidos onde quase uma década depois e sem nunca ter sido transmitida de forma integral e não censurada na televisão local, conseguiu reunir uma vasta legião de admiradores no passado Julho durante o lançamento do DVD americano. A premissa é muito simples, Tim Bisley, um cartoonista sem trabalho que para ganhar uns tostões trabalha como vendedor numa loja de BD e Daisy Steiner, uma escritora sem motivação que se acha intelectual e criativa, andam à procura de casa. Para conseguirem um apartamento ao preço da chuva têm que se fazer passar por um casal e enganar a senhoria. Na verdade, esta é apenas a sinopse do primeiro episódio, uma vez que o resto da série não tem uma linha narrativa muito denunciada, acabando por ser uma compilação de aventuras em que os protagonistas se vêem envolvidos.

We’re… a couple!

Spaced foi criada e pensada por Simon Pegg e Jessica Hynes, duas figuras de destaque na nova geração de comediantes britânicos. Simon decidiu que queria seguir o mundo da representação quando, com apenas sete anos, viu Star Wars, um filme que o marcou profundamente (tornou-se desde essa altura, um apaixonado e estudioso de todo o universo Star Wars) e que o levou a estudar representação ao longo de todo o seu percurso académico. Jessica, com apenas 14 anos, entrou no National Youth Theatre e desde logo começou a fazer teatro e televisão afigurando-se como uma das mais prometedoras actrizes britânicas da sua geração.

Em 1995, durante os castings de uma minúscula série chamada Six Pairs of Pants, Simon e Jessica conheceram-se e acabaram por trabalhar juntos, criando desde logo uma forte empatia. No ano seguinte, a Paramount Comedy Channel produziu uma pequena série de nome Asylum que voltou a reunir Simon e Jessica, mas desta vez acompanhados pelo realizador Edgar Wright … estava assim reunido pela primeira vez o trio responsável por Spaced. Asylum vivia muito do improviso dos actores e o aspecto pouco comercial levou a fracas audiências, durando apenas seis episódios. Apesar do fracasso, os executivos da Paramount Comedy Channel e da Channel 4 gostaram tanto da química entre Simon Pegg e Jessica Hynes, que encomendaram uma nova série onde eles seriam os criadores, argumentistas e protagonistas.

I’m creative, not a … mopper.

O processo de escrita de Spaced iniciou-se em 1998 e ao contrário das séries tradicionais que são feitas episódio a episódio, eles decidiram escrever todos os capítulos de uma só assentada. Desde cedo ficou claro que era necessário existir alguém no leme que conseguisse transpor para o ecrã as ideias imaginadas por Simon e Jessica. Após terem trabalhado juntos em Asylum, Edgar Wright foi a única escolha possível, uma vez que o seu estilo cinemático, arrojado e dinâmico era perfeito para o que a dupla pretendia. Edgar ficou de tal maneira envolvido no projecto, que acabou por se tornar na terceira mente criativa em Spaced. Na sua opinião “existem muitas séries de televisão onde o realizador é escolhido no fim, especialmente em sitcoms onde os escritores e os produtores são como uma unidade. Neste caso tive muita sorte por ter sido escolhido cedo ao ponto de eles me terem convidado 18 meses antes”.

Para nos situarmos, temos que ter uma perspectiva geral da televisão britânica da altura. As séries britânicas para jovens adultos não representavam a realidade e Simon mostrou-se “muito desiludido com o estado das sitcoms para a geração dos vinte e tal, uma vez que elas não passavam de aventuras amorosas entre pessoas atractivas onde todos queriam dormir com todos. As pessoas que escreviam estas séries estavam muito longe da realidade, elas tinham 40, 50 anos”, levando a um afastamento e a uma incapacidade do público se identificar com aquelas histórias. Ao mesmo tempo, havia uma invasão americana, encabeçada pela sitcom Friends que foi um fenómeno na Inglaterra, mas que mostrava uma realidade muito diferente da britânica. Segundo Edgar Wright “na altura em que fizemos a série, alguns críticos britânicos, acharam que estávamos a satirizar as sitcoms tradicionais, mas não foi essa a nossa intenção, algumas sitcoms tradicionais são fantásticas. Na altura, Friends era enorme e na TV britânica havia várias sitcoms que a tentaram imitar, era contra isso que queríamos lutar.”

A principal motivação em Spaced era fazer algo de novo e muito diferente do que se via na altura mas, acima de tudo, atingir um alto nível de realismo. “Nós queríamos fazer uma série realista” diz Simon e “ter as personagens a sentir e a viver emoções reais, mas num ambiente fora do vulgar. Nós queríamos fazer uma sitcom que não fosse convencional, nós queríamos que tivesse poucas câmeras, sem audiência ao vivo e sem um fio narrativo tradicional”. As experiências pessoais dos autores foram a sua maior fonte de inspiração. “Eu tinha saído de casa há 6 anos, aos 18, por isso passei aquele tempo a viver em diversos locais precários em Londres e estive em muitos empregos temporários, por isso quis escrever algo que reflectisse a minha experiência de vida” lembra Jessica. São estes pormenores que acabaram por criar uma forte empatia entre Spaced e o público-alvo que se revia nas personagens. Finalmente existia uma série para a geração dos “vinte e tal” que era feita por pessoas dessa faixa etária … Edgar tinha 24, Jessica 25 e Simon 27, exactamente as mesmas idades das suas personagens.

We’re chums!

Mas Spaced nunca seria o que foi sem o resto do elenco, elenco esse composto quase exclusivamente por amigos de Simon e Jessica. Nick Frost melhor amigo de Simon, interpreta Mike Watt um fanático pela vida militar. Na altura, Nick não era actor e não tinha nenhuma formação nem experiência em representação, era na verdade um empregado de mesa, o que suscitou algumas dúvidas iniciais sobre a sua capacidade para levar a cabo tal tarefa. Edgar refere que “quando o Simon sugeriu o seu melhor amigo, que nunca tinha representado, para o papel de Mike, eu fiquei preocupado, mas tenho que dar o braço a torcerele é brilhante e continua a surpreender-me”. Á semelhança de Nick Frost, Katy Carmichael era amiga de Jessica e foi a escolhida para o papel de Twist Morgan, uma jovem seduzida pelo mundo da moda mas que não consegue mais do que trabalhar numa lavandaria. Embora passe grande parte do tempo a rebaixar Daisy, ela é a sua melhor amiga.

Meteor Street, 23 é a morada do apartamento de Tim e Daisy, que se situa num pequeno prédio de dois andares no norte de Londres. Marsha Klein é a moradora do 2º andar e a senhoria do casal. Ela vive com a filha Amber, é alcoólica e uma fumadora compulsiva. Julia Deakin foi a actriz escolhida para interpretá-la. Na cave do prédio vive Brian Topp, um pintor angustiado e constantemente envolto em dúvidas existenciais que tenta a todo o custo evitar Marsha. Mark Heap que já tinha trabalhado com Simon Pegg em Big Train foi o escolhido para o papel de Brian. Finalmente, mas não menos importante, temos Colin o amoroso cão de Tim e Daisy. É na interacção entre estes seis amigos que está a força motriz de Spaced, alimentada pela forte amizade que os unia fora dos ecrãs, tornando as coisas muito mais credíveis. “Se Spaced tivesse sido feito com actores que nunca tivessem trabalhado juntos antes, teria sido completamente diferente, independentemente da qualidade dos argumentos” diz Edgar Wright.

Para além das seis personagens centrais, muitas outras marcaram presença na série, e mesmo que em alguns casos tenham tido apenas breves aparições, quase todas foram marcantes. Vulva, descrito por Brian como “um homem heterossexual que é ao mesmo tempo a mulher mais divina do mundo”, só aparece num episódio, mas é uma personagem muito popular entre a comunidade, principalmente devido à magnífica prestação do camaleónico David Walliams (co-criador de Little Britain). Outro actor versátil que brilha em Spaced é Peter Serafinowicz, que interpreta Duane, o arqui-inimigo de Tim. Curiosamente, Serafinowicz é a voz de Darth Maul em Star Wars: A Ameaça Fantasma, restando poucas dúvidas sobre o porquê de ter sido convidado. O patrão de Tim, Bilbo, interpretado por Bill Bailey (um dos protagonistas de Black Books); Tyres, um aficionado por raves; Sophie; Damien Knox; Sarah e Dexter todos eles, de uma forma ou de outra, acabaram por conquistar o público.

Timmy… fetch me my tools

Spaced não teve um episódio piloto, tendo sido decidido que gravariam os sete episódios todos de uma vez: “Foi tudo filmado num único bloco … como não fazíamos um episódio por semana, filmávamos tudo misturado. Isso deu para poupar dinheiro, mas tornou as coisas muito confusas”. Edgar Wright considera ainda que “a primeira temporada foi mais fácil, porque não havia nenhuma expectativa sobre a série, ninguém sabia quando ia dar, por isso trabalhámos como se fosse a primeira e a última”. Esta descontracção e liberdade deu resultados tendo a série sido muito bem recebida entre os críticos e, mesmo com modestas audiências, formou uma leal legião de seguidores.

A Channel 4 ficou tão satisfeita com a 1ª temporada que encomendou uma nova ainda antes da 1ª ter sido transmitida. No entanto, a produção desta 2ª temporada só arrancou em 2001, dois anos após a estreia de Spaced. Aqui a fasquia estava mais alta, resultado do sucesso que a série teve, colocando ainda mais pressão sobre a equipa, como recorda Edgar Wright: “a primeira temporada foi muito ambiciosa para o dinheiro que havia, para a segunda tínhamos um pouco mais de dinheiro mas os guiões também eram muito mais ambiciosos, por isso, embora o nosso orçamento fosse maior, nós andávamos sempre a contar os tostões.” Mesmo com o sucesso crítico e a grande aceitação por parte do público nicho alvo, a série continuou a não ser um sucesso de audiências: “Spaced nunca teve tanto sucesso como por exemplo The Office … nós tínhamos cerca de um terço das audiências do The Office. Spaced tornou-se num culto principalmente através do DVD” explica Edgar.

Uma das particularidades de Spaced, é a avalanche de pequenas referências e homenagens ao cinema, música, televisão, videojogos, ou seja à cultura popular. Embora grande parte delas escape ao espectador menos atento, tornaram-se quase numa imagem de marca. Algumas pessoas foram críticas em relação ao elevado número de referências, algo que não preocupou Edgar: “claro, há homenagens e referências, mas o importante em Spaced, e que lhe dá um certo charme, não são tanto as referências, mas o facto das personagens terem as suas vidas tão governadas pela cultura popular e pelos media que só conseguem pensar dessa forma”. Ainda sobre este tema, Simon recorda-se de “ver o E.T. em criança, e na parte em que eles saem para a rua no Halloween e vêem uma criança vestida de Yoda, lembro-me de ter ficado contente ao ter reconhecido e compreendido a pequena referência. A Jess e eu queríamos que isso acontecesse a quem visse Spaced”.

Welcome… to the 21st century!

Mas contra todas as expectativas, o sucesso de Spaced não se restringiu apenas a solo britânico e um pouco por todo o mundo, a série foi ganhando admiradores, principalmente nos EUA. Isso deveu-se em grande parte à Internet mas também ao êxito de Shaun of the Dead e Hot Fuzz, filmes que Edgar Wright e Simon Pegg fizeram após Spaced. O sucesso é tal que 9 anos após a estreia, a série foi lançada pela 1ª vez em DVD nos EUA numa edição especial com comentários de alguns fãs como Quentin Tarantino, Kevin Smith, Diablo Cody e Matt Stone.

O “dark side” do sucesso americano é a habitual febre de remakes e adaptações que assolam a televisão americana. No início do ano, a Fox anunciou que estava em produção uma versão americana de Spaced sobre a tutela do realizador de Charlie’s Angels, McG, tudo isto sem consultarem Edgar, Simon e Jessica, chegando mesmo ao ponto de excluírem o nome de Jessica Hynes como criadora da série. Isto gerou uma enorme contestação entre os criadores e fãs que apelidaram o remake de McSpaced. Segundo Edgar Wright “foi uma experiência muito desagradável, estávamos numa situação em que não tínhamos os direitos da série. Quando fizemos Spaced tínhamos ‘vinte e tal’ anos e tivemos sorte em a conseguir fazer, mas não tínhamos o poder para controlar os direitos, por isso, ficámos numa situação em que poderiam fazer o que quisessem sem nos consultarem e foi precisamente isso que fizeram… o mais triste é o facto de não nos terem respeitado como artistas ao ponto de nem falarem connosco, mas ao mesmo tempo, decidiram usar os nossos nomes para publicidade … foi isso que nos deixou furiosos.”. Felizmente o remake foi cancelado pela Fox pouco tempo antes da tournée de promoção do lançamento do DVD em Julho passado.

Este sucesso levanta uma questão inevitável. E uma 3ª temporada? Um especial ou mesmo filme de Spaced? Embora no final da segunda temporada estivesse planeada uma terceira, ela acabou por ser adiada e hoje é cada vez mais remota a possibilidade de haver uma continuação: “sempre houve planos para fazermos mais, mas acho que já passou demasiado tempo. Nós estamos mais velhos e a série era muito focada numa idade e num período muito particular. Mas acho que fizemos o correcto, duas temporadas e acabar em alta…e há sempre o medo de fazer mais e acabar por estragar. O medo de se transformar na nossa ‘Ameaça Fantasma’” comenta Edgar. Apesar de reconhecer as dificuldades existentes, Jessica é mais entusiasta sobre um possível regresso: “Eu gostava de fazer mais! O Simon acho que não… mas o problema seria coordenar as nossas agendas”. Para Simon Pegg “o ideal teria sido fazer uma terceira temporada imediatamente a seguir à segunda e concluir a série. Nunca planeámos fazer duas temporadas e parar.”

Skip to the End…

É engraçado como Spaced, mesmo tendo já 9 anos de vida, continua a conquistar tanta gente. É uma prova da qualidade do trabalho de todos os que estiveram envolvidos nesta sitcom, em especial, como é óbvio Jessica Hynes, Simon Pegg, Edgar Wright e a produtora Nira Park que conseguiram o feito de, passada quase uma década, Spaced se manter tão actual, fresca e apelativa. Este é daqueles casos raros em que as pessoas certas se juntaram no momento certo para criar algo único e fantástico. Em Portugal Spaced é relativamente desconhecido e é grande a probabilidade do leitor nunca ter visto, ou mesmo ouvido falar de Spaced, mas se leu o artigo até aqui espero que lhe tenha despertado alguma curiosidade. Se já viu e gostou, espero que tenha gostado de recordar um pouco sobre o mundo desta sitcom tão especial. Se é como eu, de certeza que se sente um felizardo pelo facto de ter descoberto e desfrutado deste pequeno tesouro chamado Spaced, como diria o nosso amigo Tyres “You lucky people!”.

Momentos inesquecíveis de Spaced

Let them have it!

O que acontece quando Tim e Daisy são assaltados por um gang adolescente? Um dos tiroteios mais espectaculares da televisão! O facto de nenhum dos intervenientes ter uma arma, torna a cena hilariante.

Wanna piece of me?

Juntem uma noite em claro sobre o efeito de drogas com Resident Evil 2 e têm uma das cenas mais memoráveis da série. Durante uma alucinação, Tim vê-se atacado por Zombies saídos directamente do videojogo.

Good luck!

O filme mais referenciado em toda a série é Star Wars, desde o amor pela trilogia original ao desprezo pela nova. Mas a homenagem mais bem conseguida ao épico de Lucas é no final do penúltimo episódio, onde o espectador é lançado num cliffhanger em tudo idêntico ao de O Império Contra-Ataca.

You want to dance?

Há melhor maneira de terminar uma temporada? Tim esquece de vez a sua antiga namorada e acaba o episódio a dançar com Daisy ao som de Is You Is Or Is You Ain’t My Baby sobre o olhar atento de Colin… awww

It’s a flat!

Tim e Mike participam numa partida de paintball, o problema é que encontram nem mais nem menos que Duane. A hilariante cena carregada de referências acaba de forma dolorosa para Duane e de forma trágica para Mike que é “fatalmente” atingido.

I don’t go clubbing!

Arrastados por Tyres, o grupo vai a uma rave. Com a ajuda de ecstasy cada um deles liberta-se e pela primeira vez há um clique entre Tim e Daisy. Toda a cena capta na perfeição o ambiente de uma rave e é um dos episódios favoritos dos fãs.

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