Dracula de Bram Stoker

Acabei de ler o Dracula. Era um livro que há muito me despertava o interesse, e depois da pequena maratona de filmes sobre o vampiro dos Cárpatos, decidi finalmente ler a obra de Bram Stoker.

Gostei bastante. É uma obra romântica, típica do final do seculo XIX, onde impera o espírito de cavalheirismo, fraternidade e amores e paixões muito clássicas, um pouco como os livros de Alexandre Dumas que muito estimo. Achei curiosa a forma como a história é contada, nunca de forma directa, mas sempre através de entradas de diários, cartas, memorandos e noticias de jornais. É uma forma interessante de progressão narrativa, mas nem sempre muito realista, já que obrigaria todos os intervenientes a escrever tudo em diários, o que nalgumas situações mais complicadas seria pouco provável, e requereria uma memória fabulosa. É interessante comparar o livro com os filmes que vi há umas semanas, ou seja, Dracula de 1931, Horror of Dracula e o Bram Stoker’s Dracula do Coppola.

Desde logo o filme mais fiel ao livro é de longe o do Coppola, há no entanto uma enorme alteração (e a meu ver para pior) que é o romance entre Dracula e Mina. De resto segue bastante fielmente o livro. O Dracula de 1931 é bastante diferente, e altera muita coisa do livro, acabando por ser a menos fiel, no entanto compreende-se, porque foi uma adaptação duma peça de teatro. Mas algumas alterações foram bem empregues e levaram a momentos míticos como o “duelo” entre o Dracula e o Van Helsing que não acontece no livro. O Horror of Dracula também toma muitas liberdades, e incompreensivelmente retira uma das melhores partes do livro (o inicio quando o Jonathan vai ao castelo Dracula) e a história secundária da Lucy (que o de 1931 também não tem). Mas o momento da morte do Dracula é bem melhor.

Estas duas versões não têm toda a equipa maravilha (Quincy, Arthur, Seward, Van Helsing, Jonathan, Mina) o que é pena porque é este grupo os heróis da história. No Dracula de 1931 apenas Van Helsing luta a sério contra a ameaça, e na versão da Hammer o professor holandês tem a companhia de Jonathan, nos dois filmes a Mina puco mais é que a donzela em perigo. A versão do coppola tem toda a equipa presente, mas longe do protagonismo do livro, já que o foco vai quase todo para a dupla Dracula e Mina.

Qual o conde mais fiel? O Gary Oldman é o menos fiel, até fisicamente tem poucas semelhanças, para além disso no filme do Coppola ele é um anti-heroi que é suposto ganhar alguma simpatia do espectador. Bela Lugosi comporta-se de forma bastante semelhante ao livro nos momentos mais calmos mas nunca mostra o verdadeiro lado monstruoso do vampiro. Nesse aspecto Christopher Lee parece-me o que melhor captou a personagem. O lado ameaçador, de puro terror e os impulsos de fúria do monstro que é Dracula é muito bem captado por Christopher Lee. Digamos que mistura perfeita seria o lado social do Bela Lugosi com o animal de Christopher Lee. Gary Oldman está magnifico, mas o Dracula dele é muito diferente, aproximando-se mais dos vampiros de Anne Rice.

O grupo de heróis a meu ver não tem uma versão cinematográfica muito fiel. Se em alguns casos alguns deles estão simplesmente ausentes da história, no caso de Van Helsing, Jonathan e Mina a meu ver nenhum deles foi bem captada em cinema. O Van Helsing de Peter Cushing é muito bom, mas demasiado sério e britânico nunca conseguindo espelhar o espírito excêntrico do holandês. Anthony Hopkins está mais próximo, mas mesmo assim nunca capta o seu lado cavalheiresco. Mina, nos dois primeiros filmes pouco mais é que a donzela em perigo, no filme de Coppola está apaixonada pelo Dracula o que desde logo deita por terra qualquer semelhança. Jonathan acaba sempre por ser pouco mais que um side-kick do Van Helsing, sendo que o Keanu Reeves assassinou qualquer esperança de fidelidade ao personagem original.

Mas uma coisa é certa, nenhum dos filmes que vi consegue captar o espírito do livro. Nem a fantástica união de amizade e companheirismo entre o grupo de heróis, nem o lado terrível do conde Dracula, há sempre a tentação de o por mais protagonista do que realmente é, e mais apelativo aos olhos dos espectadores. Ele no livro é um terrível monstro, um assassino amaldiçoado sem escrúpulos, onde a mera menção do seu nome inspira medo e terror, um perigo que deve de ser combatido e eliminado. Engraçada a forma como o filme do Coppola transforma uma das cenas mais terríveis e chocantes do livro (onde Dracula se alimenta de Mina e lhe dá o seu sangue, uma clara analogia a violação sexual) por uma cena de entrega amorosa de Mina, quase um momento de paixão.

Mas pronto, foi uma excelente leitura, que aconselho a todos os interessados pela temática.

Comments
3 Responses to “Dracula de Bram Stoker”
  1. Duarte diz:

    Nunca viu a versão da BBC de 1977 com Louis Jourdan a fazer de Drácula? Há quem defenda ser a versão mais fiel, mas eu considero ser a segunda mais fiel, logo atrás da versão de Coppola.

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