Os Videojogos no Cinema

Mais um artigo que escrevi para a defunta Red Carpet no ano passado. Actualizei alguns pontos que entretanto tinham ficado desactualizados. Se quiserem conhecer mais sobre estes filmes vejam as excelentes reviews do Giant Bomb na secção TANG (This ain’t no Game)

Desde sempre as várias formas de entretenimento procuraram inspiração entre si. A literatura e o cinema deverão formar a parceria mais produtiva de todas, muitos são os filmes baseados ou adaptados de livros e banda desenhada. Mas recentemente com a explosão da indústria dos videojogos, ela tornou-se na nova mina de ouro de Hollywood. Os videojogos e os seus ícones tornaram-se reconhecidos mundialmente e tudo o que movimenta massas é sinónimo de lucros para as grandes produtoras. Porém não tem sido nada fácil a adaptação de videojogos ao cinema, grande parte das tentativas saíram goradas e o nível qualitativo destes filmes roça o medíocre.

Embora os videojogos já tenham mais de 30 anos, a industria apenas explodiu a níveis planetários fazendo parte da cultura popular a cerca de duas décadas. Os grandes responsáveis foram duas mascotes de empresas rivais, Mário da Nintendo e Sonic da Sega. As duas personagens tornaram-se figuras de proa não só das suas empresas mas de toda a indústria. Embora a Nintendo tivesse apostado em auto-promoções como o The Wizard em 1989, a primeira grande produção centrou-se no canalizador Mário. Super Mario Bros. de 1993, contava com um elenco de luxo com nomes como Bob Hoskins, Dennis Hopper e John Leguizamo, porém o filme foi completamente arrasado pela critica e pelos jogadores, alias este resultado tornou-se a regra destas adaptações, raramente os jogadores são ouvidos acabando por criar uma enorme insatisfação.

Mesmo com o fracasso de Super Mario Bros. Hollywood não desistiu em procurar outros jogos para novos filmes. Outra rivalidade nos videojogos do início da década de 90 era entre os populares Street Fighter e Mortal Kombat, dois beat ‘em ups, basicamente jogos de luta. A Universal avançou com Street Fighter em 1994 encabeçado pela estrela dos filmes de acção dos anos 80 Jean Claude Van Damme e por Kylie Minogue. Embora tenha sido um relativo sucesso de bilheteira o filme é destruído pela crítica e pelos fãs do jogo. O estilo do filme pouco ou nada tinha haver com o original. Por sua vez no ano seguinte a New Line pegou em Mortal Kombat, coube a Christopher Lambert dar alguma credibilidade a este projecto. Ao contrário de Street Fighter, Mortal Kombat manteve-se bastante fiel ao jogo, principalmente no ambiente, lutas e personagens apimentado por uma banda sonora interessante. Embora em termos de critica não tenha sido nada de outro mundo, conseguiu conquistar os jogadores que finalmente conseguiam identificar um filme ao jogo. O relativo sucesso do filme originou uma péssima sequela dois anos mais tarde que parece ter arrefecido a febre de adaptações. Só em 1999 veríamos nova adaptação.

Wing Commander desde cedo se tornou sinónimo de videojogo cinemático. O jogo é um revolucionário simulador de combate espacial, mas um dos pontos fortes da saga era história envolvente que a partir da sua 3ª incursão era contada através de vídeos com nomes como Mark Hamill, Malcom Mcdowell e John Rhyis-Davies. O filme esteve totalmente a cargo de Chris Roberts, criador dos jogos. Eram excelentes noticias, quem melhor que o próprio criador para adaptar o jogo ao grande ecrã? No entanto o filme… fracassou, a base de fãs não gostou da mudança do estilo visual e de algumas incoerências com o universo Wing Commander.

Em 1996 uma pequena editora britânica de nome Core Design inspirada pelas aventuras de Indiana Jones cria um jogo de aventura que irá abalar a indústria. Tomb Raider é um enorme sucesso crítico e popular e um dos primeiros exemplos de sucesso em jogos de plataformas em 3D mas acima de tudo é criada uma das personagens mais adoradas e queridas de todos os jogadores, Lara Croft. Lara é a primeira grande sucessora de Mário e Sonic como símbolo dos videojogos na cultura popular, tornando-se reconhecida mesmo por não jogadores e um dos maiores sex symbols dos anos 90. Este enorme sucesso não poderia passar sem o filme da praxe. O filme foi pensado durante bastante tempo e muitas foram as actrizes pensadas para o papel de Lara, eventualmente a responsabilidade caiu sobre a estrela da moda Angelina Jolie. Lara Croft: Tomb Raider estreia em 2001 e torna-se num dos maiores sucessos de bilheteira do ano, facturando 300 Milhões de dólares, porém é mal recebido pela crítica. Os jogadores também torcem o nariz, o filme é contraditório com alguns aspectos do jogo e uma montra dos piores aspectos dos jogos, no entanto Angelina Jolie esteve bem, captando na perfeição a sua versão digital. O estrondoso sucesso de bilheteira originou uma sequela em 2003, desta vez com Jan de Bont na realização. Lara Croft Tomb Raider : O Cálice da Vida sofreu das mesmas falhas do primeiro, mas obteve apenas metade das receitas, assim novas sequelas foram postas de parte.

Outro sucesso adaptado ao cinema foi Resident Evil. Os jogos basicamente obrgam o jogador a sobreviver em espaços hostis carregados de zombies bem ao estilo dos filmes de Romero. A versão cinematográfica chegou em 2001 realizado por Paul W. S. Anderson (que já tinha realizado Mortal Kombat) e interpretado por Mila Jovovich, o filme desliga-se quase por completo com os jogos o que cria alguma insatisfação entre a comunidade jogadora. O filme e as duas sequelas Resident Evil: Apocayipse e Resident Evil 3: Extinção têm prestações muito modestas na bilheteira e pouca aclamação critica.

Entretanto com o virar do milénio surge Uwe Boll, realizador e produtor alemão que se tornou na principal figura das adaptações de videojogos ao cinema. Considerado por muitos, um dos piores realizadores em actividade, Boll pegou em diversas licenças como House of the Dead, Alone in the Dark e Blood Rayne, Far Cry e Postal que saíram das suas mãos completamente arruinados.

Os últimos anos têm vindo a ser bastante férteis em adaptações, em 2005 o enorme sucesso Doom chegou às salas, The Rock afundou-se com o filme, em 2006 tivemos Dead or Alive, um jogo onde o único ponto de interesse são os apêndices mamário das lutadoras, é fácil adivinhar o resultado do filme. Em 2007 Hitman e Dungeon Siege receberam as suas adaptações com resultados medíocres. Um ano antes surgiu provavelmente uma das melhores adaptações, Silent Hill. O jogo é um dos melhores exemplos de terror psicológico, narrativa adulta e complexa, o filme consegue captar alguns desses elementos mantendo-se bastante fiel aos jogos.

No ano passado tivemos mais uma desilusão, Max Payne. O jogo era uma fantástica mistura entre acção, romance, elementos noir, surrealismo, excelente escrita e personagens densas e psicologicamente bem construídas. O filme resultou numa trapalhada com um péssimo cast onde foi bastante óbvio que o material de origem foi posto de lado, para criar um filme unicamente focado no aspecto visual, sem que o resto fosse sequer equacionado.

O que nos reserva o futuro? Este verão teremos Prince of Persia com Jake Gyllenhaal baseado na saga criada por Jordan Mechner e pela Ubisoft. Parece um blockbuster prometedor, principalmente em termos de divertimento e será a primeira grande adaptação em termos monetários já que tem o apoio e produção de Jerry Bruckheimer.

Como dá para ver este caminho tem sido penoso, os videojogos vivem das experiências que cada jogador tem, o jogador vive e faz parte da experiência em vez de apenas assistir como no cinema ou na literatura. Torna-se assim mais difícil transmitir no grande ecrã o que o jogador vive ao jogar. Outro problema é o simplismo da grande maioria dos videojogos que são maioritariamente feitos para um público adolescente onde violência e mulheres descascadas ainda são o prato do dia. Poucos são os jogos adultos com narrativas sólidas, a industria dos videojogos é jovem e ainda tem dificuldades em largar as amarras que o limita desde os seus primórdios. Até hoje ainda não houve uma adaptação realmente boa mas um dia virá em que alguém consiga descobrir o segredo de como fazer uma boa adaptação que agrade à crítica e ao grande público, jogador e não jogador, resta esperar.

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