Dragon Age: Origins [2009]

Com a saída da 1ª expansão para o Dragon Age: Origins, o Awakening, decidi voltar a Ferelden e derrotar mais uma vez o Archdemon e terminar a Blight. Desta vez experimentei uma nova personagem com uma nova origem, para descobrir novas ramificações na história. Recordo que o Dragon Age: Origins foi o meu GOTY de 2009.

Dragon Age é um jogo que à partida não seria suposto eu gostar muito. É um RPG mais virado para o hardcore (obviamente para os puristas é dumbed down e mainstream, mas como não sou purista…), é (demasiado) longo e passa-se num universo bastante genérico e cliché, muito inspirado por Tolkien. No entanto contra todas as expectativas tornou-se num dos meus jogos favoritos dos últimos anos.

Vou começar a dissecar os pontos mais fracos do jogo. Logo à primeira vista é bastante óbvio que visualmente Dragon Age é bastante limitado, principalmente em comparação com a outra aposta da Bioware, Mass Effect 2. Também o número de animações deixam um pouco a desejar, são pouco variadas, repetitivas e há muitas texturas a baixa resolução que não deveriam estar num jogo de 2009. No entanto, mesmo não sendo um colosso técnico,  não deixa de ser um jogo bonito. A direcção artística embora por vezes bastante desinspirada, de forma geral é bastante boa.

Dragon Age é longo, e não longo tipo Fallout 3, Oblivion e outros que tais onde passamos horas a viajar. Grande parte do jogo é linear, e mesmo fazendo apenas as main quests é coisa para durar cerca de 40 horas, para as pessoas que querem fazer e ler tudo (e vão ler muito), bem podem esperar mais de 60 horas, e isto, como disse numa aventura linear. Eu não gosto de jogos demasiado longos, principalmente porque se tornam invariavelmente repetitivos para fazer render o peixe, e isso também acontece em Dragon Age. Há sequências onde o combate nunca mais acaba e uma pessoa cansa-se, felizmente o sistema de combate (falarei mais à frente) é porreiro. Há algumas partes que são um verdadeiro martírio, mesmo para fãs do jogo, principalmente Orzammar, em particular as Deep Roads. Outra forma de estender ad nauseum a duração dum jogo é enche-lo com side quests, conselho de amigo: não as façam. São terríveis e não valem a perda de tempo que acarretam, sem falar que muitas delas são bastante ridículas dentro da história do jogo, mas isso é um problema típico da Bioware. Outra coisa que não consigo suportar são os encontros aleatórios durante as viagens, são demasiado frequentes, cortam o ritmo do jogo e pouco interesse têm, uma tremenda seca!

A história é bastante cliché, uma invasão de forças demoníacas (os Darkspawn) ameaça Ferelden e cabe aos últimos sobreviventes dum grupo milenar de guerreiros (os Grey Warden, também se poderiam chamar Jedi ou Spectres) ao qual pertence o jogador, destruir a invasão, invasão essa liderada por um Archdemon, ou seja um Deus incarnado no corpo de um dragão. Para além da premissa cliché, também o setting é bastante genérico, pouco mais que uma variação do universo de Tolkien. a narrativa em si cai também nas mesmas armadilhas que a própria Bioware criou. Quase todos os jogos da Bioware reciclam sempre as mesmas ideias e personagens tornando as coisas às vezes demasiado previsíveis.

É perfeitamente normal encontrar bugs e problemas num jogo desta dimensão, mas surpreendentemente Dragon Age é extremamente polido, encontrei no entanto certas situações chatas, principalmente quando, pontualmente, o jogo não leva em conta as minhas decisões, mas nada de muito chocante. A parte mais evidente foi num dialogo com o Alistair quando ele se auto-intitulava futuro rei de Ferelden, quando a Anora já tinha sido escolhida como rainha.

Ultrapassada a parte negativa resta-me tentar explicar porque raio gosto tanto do jogo.

Acho que se há algo que todos podemos tirar o chapéu à Bioware (mesmo os detractores) é a qualidade da escrita e principalmente as personagens e a forma como elas se tornam tão importantes para o jogador. É verdade que quase todas elas, em todos os jogos da Bioware, caem nos mesmos estereótipos que a própria Bioware criou, mas a verdade é que resultam, e mexem com o jogador, quer despertem amor ou ódio. E que brilhantes personagens tem Dragon Age.

Tenho que admitir que a meu ver há demasiados companheiros, 9 se calhar são demais e das duas vezes que acabei o jogo houve algumas personagens que não consegui criar grandes laços, falo de Ohgren e Zevran. Mas em contrapartida, algumas delas tornaram-se verdadeiros “amigos” videojogáveis com os quais me preocupava. Morrigan, Alistair, Lelliana, Wynne, Sten, até o rafeiro são extremamente bem caracterizados de forma a despertar emoções no jogador. Eu pelo menos fiquei completamente rendido.

A interacção entre elas é muito boa e dá a sensação de que todos eles têm ideias, pensamentos e vidas para além da esfera de influência do jogador. São particularmente bem conseguidas as conversas aleatórias que alguns deles têm entre si, é igualmente uma forma de progressão narrativa que permite descobrir o que cada um pensa de certas situações e assuntos. Apetece passar todo o tempo apenas a conversar com todos eles. Este podia ser apenas um jogo de conversa que eu compraria! A sério, alguns dos melhores momentos são passados no acampamento apenas a conversar e a descobrir as personalidades de cada um deles.

Sim, alguns deles seguem os estereótipos e defeitos típicos da Bioware, o vilão continua a não convencer (começa bem, acaba mal), o par mais chegado ao herói (Morrigan/Alistair) espelha alguns de outros jogos da Bioware (Carth/Bastilla, Ashley/Kaidan, Miranda/Jacob), Shale tem parecenças com HK-47, Ohgren com Wrex e Grunt, enfim há uma série de semelhanças, embora nem todos mantenham os mesmos níveis de qualidade, personalidade e motivações. Uma forma de ligar o jogador às personagens é através do voice acting que é realmente muito bom, a meu ver superior aos anteriores jogos da Bioware, o que por si só é impressionante.

Embora como disse antes a história seja genérica, ela tem algo que é difícil de explicar. Há um sentimento de companheirismo e fraternidade, no final da longa jornada os heróis passaram por tanto e cresceram de tal forma que é difícil de deixar escapar uma certa nostalgia por uma viagem que está prestes a acabar. Este sentimento atinge o auge na recta final aquando o assalto a Denerim quando todos os nossos companheiros se despedem individualmente do jogador. Em todos eles é visível o mesmo sentimento, uns escondem-se atrás de mascaras, outros preferem recordar momentos passados, alguns sentem-se receosos do embate com o Archdemon, para Alistair e a Grey Warden feminina basta uma simples demonstração de amor, através dum “I Love You”. Pode parecer ridículo, mas depois de 60 horas de jogo realmente sentimo-nos fragilizados por um momento que pode ser de despedida definitiva, e o fim da linha para uma aventura tão grande.

A história em si está bem construída com uma mão cheias de main quests que duram horas. Elas são muito distintas entre si, por vezes até parecem jogos diferentes, o que é óptimo para desenjoar e dá a sensação de estarmos numa série de TV onde cada main quest é um episódio distinto. As ultimas 5/10 horas são a melhor parte do jogo, tremendamente épicas e emotivas e fecham com chave de ouro dezenas de jogo nem sempre ao mais alto nível.

Um aspecto extremamente positivo é o sistema de orientação moral do protagonista. A Bioware sempre nos habituou a cenários onde as nossas decisões se baseavam num sistema de extremos, de branco e preto. Aqui esse sistema foi descartado por algo menos evidente, tudo é muito menos óbvio e muito mais subtil. Nem sempre se sabe qual a melhor decisão a tomar e tudo caminha em terrenos mais cinzentos. Isso é óptimo porque muitas das decisões são extremamente complicadas de se tomar, porque nem sempre é óbvio qual terá (se tiver) melhores consequências.

O herói protagonista pode ser criado como o jogador bem entender, ou seja: homem/mulher, humano/elfo/anão, nobre/rogue/feiticeiro, sendo que cada uma das diferentes combinações tem uma história de origem completamente distinta uma da outra. Das que vi são quase todas interessantes e moldam um pouquinho o desenrolar da história do nosso Warden, principalmente nas personagens secundárias que de uma forma ou de outra marcam a sua história, mas que numa outra origem não têm o mesmo impacto. O protagonista não tem voice-over tal como um Knights of the Old Republic por exemplo, o que pode desiludir algumas pessoas, é no entanto uma forma de o jogador não se ver obrigado a suportar traços e características que não escolheu para o seu herói. Pode no entanto cortar um pouco o sentimento de imersão, porque visualmente ele quase nunca mostra sentimentos nem tem expressões faciais o que pode levar a situações estranhas.

O combate é (felizmente) bastante divertido, variado e minimamente profundo para não enjoar, acho que acaba por ser um dos grandes trunfos do jogo, porque se assim não fosse acho que seria impossível suportar os imensos fillers que aparecem ao longo do jogo. É possível, e obrigatório em níveis de dificuldade mais elevados, jogar e brincar com diferentes habilidades de cada um dos companheiros para uma maior eficácia de combate. Para além das habilidades e poderes temos também poções, armadilhas, venenos, enfim uma vasta panóplia de armas (defensivas e ofensivas) para nos desenrascarmos. Talvez o aspecto menos positivo do combate esteja na pouca variedade de inimigos, é perfeitamente possível usar as mesmas estratégias em quase todos eles, seria melhor haver inimigos que necessitassem diferentes abordagens por parte do jogador.

Isto já vai longo, podia falar de mais aspectos como a banda sonora (que é boa), diferenças entre as várias classes, a politica de DLC da Bioware, etc. Talvez fale sobre alguns destes assuntos na minha review do Awakening que vou começar a jogar de seguida. Em relação ao Dragon Age, resta-me dizer que é um bom jogo, com vários defeitos e que certamente não agradará a todos, bem pelo contrário. Mas é indiscutivelmente uma fantástica experiência e um sinal de que este tipo de jogo ainda pode ter sucesso.

Positivo:
+ Qualidade da escrita
+ Voice acting
+ Personagens

Negativo:
Sidequests desinspiradas
– Por vezes demasiado repetitivo

Sai do templ… do PixelHunt com:



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Tal como fiz com o Mass Effect 2, comprei os DLC do Dragon Age (através da Ultimate Edition) e decidi experimenta-los em antecipação do Dragon Age 2 que está aí a chegar. Irei jogar apenas os quatro principais:

Leliana’s Song – Decidi começar pelo Leliana’s Song, sempre gostei dela por isso… porque não. Basicamente este DLC conta-nos a história da Leliana antes dos acontecimentos do Dragon Age, durante a sua actividade como assassina de Orlais a mando de Marjolaine e na forma como ambas se afastaram uma da outra (tema central da Leliana durante o jogo). São duas horinhas, o combate é muito fácil, a história curta… enfim não sei por quanto venderam isto, mas não é grande coisa. Tem no entanto alguns aspectos interessantes relevantes para o Dragon Age 2. Pela primeira vez temos um protagonista com voz (a própria Leliana) e a dialogue tree é à lá Mass Effect. Ambas características estarão presentes na sequela e dá a sensação de que estavam a fazer experiências neste DLC.

The Darkspawn Chronicles – Este DLC é bem diferente do Leliana’s Song. Praticamente não tem história e acaba por funcionar apenas como uma curiosidade. Como seria se os Warden perdessem a batalha de Denerim? É isso mesmo, nós controlamos um general Darkspawn e vemos a batalha de Denerim pelos olhos do inimigo. Basicamente é 1h 30 apenas de combate, não é nada de muito especial mas admito que é engraçado eliminar um por um os heróis do jogo, a culminar no Allistair no topo da torre. E pronto, é um pequeno bónus para os fãs, mas pouco mais. Fraquinho.

Golems of Amgarrak – Qual a pior parte do Dragon Age? Alguns dirão o Fade (eu gostei muito) eu digo que foram as Deep Roads, quilómetros e quilómetros de corredores subterrâneos que nunca mais acabavam.  Como tal, nada melhor que fazer um DLC… nas Deep Roads! Ok, grande parte deste DLC passa-se sim numa cidade perdida, Amgarrak, mas o tom é tal e qual o das Deep Roads. Ao contrário dos outros dois DLC, Golems of Amgarrak liga-se directamente à história e como tal podemos, à semelhança do Awakening, importar um save do jogo o que é sempre preferível. O DLC em si dura cerca de 2 horas, e embora não seja grande coisa tem uns puzzles interessantes que envolvem diversos planos paralelos que abrem e fecham caminhos. O combate é o mesmo de sempre. É o melhor DLC até agora, mas mesmo assim não vale os 5€, só se forem grandes fãs.

Witch Hunt – O ultimo DLC para o Dragon Age e também o melhor e mais longo. De novo a história liga-se com o jogo original e podemos (e devemos) importar uma personagem do Dragon Age. Devemos porque o grande ponto de interesse é a reunião final com a Morrigan depois da fuga dela com a criança após a batalha de Denerim. Embora ela tenha poucos minutos de antena, acabou por ser um bom desfecho para o meu Grey Warden e para a Morrigan (no meu caso escolhi ir com ela) mesmo que os seus destinos sejam uma incógnita. A história do DLC é interessante e está ao nível das quests do jogo original. É o único DLC que vale o preço e se tiverem de escolher apenas um, é este que devem comprar. Já agora talvez seja melhor fazer este DLC antes do Dragon Age 2 porque (espero) as decisões tomadas aqui podem vir a ter alguma repercussão na sequela.

Comments
5 Responses to “Dragon Age: Origins [2009]”
  1. João Mealha diz:

    Tenho demasiadas coisas em lista de espera.Senão até comprava.Mais para incentivar a bioware a lançar o mass effect por estas bandas mas enfim.

  2. João Mealha diz:

    Ah grande review…fez-me ter vontade de jogar um jogo que à partida não é o meu género!

    PS:Continuo à espera de um top das melhores aventuras gráficas de sempre se for possível;)

  3. João Mealha :

    PS:Continuo à espera de um top das melhores aventuras gráficas de sempre se for possível;)

    Irei fazer um dia destes.

  4. Pedro Gomes diz:

    um RPG daqueles que vale a pena jogar, incluindo as side quests 😀
    um dos meus favoritos,pena terem estragado tudo no segundo….

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