Retrospectiva: The Longest Journey [1999]

Através do Espelho

Antes de mais, as apresentações, para quem não conhece The Longest Journey. O jogo é uma aventura gráfica point & click, criada em 1999 pela (então relativamente desconhecida) Funcom para o PC, saído da mente do norueguês Ragnar Tørnquist (algumas entrevistas interessantes dele aqui).

Pode-se dizer que The Longest Journey é a ultima grande aventura da década de ouro do género. Depois dos flops comerciais de Gabriel Knight 3, Escape from Monkey Island e Grim Fandango que levou ao colapso da Sierra e do departamento de aventuras da Lucas Arts, o género ficou sem um porta estandarte. Nasceu assim uma oportunidade para alguns outsiders liderarem o caminho. No entanto The Longest Journey não personifica esse novo caminho (é uma aventura extremamente tradicional) bem pelo contrário, este jogo quase se pode considerar o canto do cisne, a ultima carga dum gigante moribundo.

Bom, a verdade é que às vezes até fico relutante em o rotular de jogo, The Longest Journey mais parece um livro. Há muito para ler e o resultado é uma história admirável, uma das mais bem conseguidas desta (imatura) industria. É uma história complexa, densa, adulta, mas ao mesmo tempo bastante acessível, se no início as enormes proporções da narrativa podem assustar os mais desprevenidos, aos poucos todas as pontas como que por magia e sem dar por isso vão-se unindo, tornando tudo muito mais claro. Sem me aprofundar muito (é muito mais interessante ir descobrindo e montando as peças aos poucos) a história é composta por treze capítulos, mais um prólogo e epílogo. Seguimos April Ryan, uma jovem de 18 anos criada no campo que fugiu de casa rumo à grande cidade, após uma infância complicada. Ela é constantemente invadida por sonhos e visões que lhe parecem extremamente reais, sem que as consiga compreender. Mais tarde apercebe-se que são de facto bem reais, são na verdade imagens dum fantástico e mágico mundo paralelo chamado Arcadia. A partir daí, April parte numa difícil aventura para salvar o destino do mundo, mas felizmente nunca cai numa história cliché como à primeira vista pode parecer, bem pelo contrário.

O caminho percorrido é (tal como o nome do jogo indica) muito longo, digno de uma qualquer epopeia. No entanto mais importante que a jornada física, é a viagem interior de April que realmente interessa. É a história da sua luta em superar o difícil e traumático passado às mãos do pai violento, e crescer como pessoa, enfrentando os seus próprios medos e inseguranças, é quase uma ode à adolescência e à difícil batalha que é crescer e tornar-se adulto. April é uma personagem muito bem estruturada, com uma surpreendente profundidade psicológica e que consegue fugir brilhantemente dos estereótipos que encontramos na maioria das personagens femininas nos videojogos (curiosamente tornou-se uma pioneira num estilo de protagonista que  curiosamente mais tarde acabou por se tornar um pouco cliché, principalmente em aventuras gráficas). É muito bonito ver a sua evolução do início ao fim do jogo, enquanto se vai moldando e encontrando respostas para as suas incertezas. Ao longo da sua jornada, muitas vezes ela se questiona “Who am I?”, a sua auto-descoberta será o seu principal triunfo. No entanto o seu crescimento não estará isento de desilusões e o desfecho da sua viagem é um claro exemplo de que nem sempre tudo é o que parece ser, e nem sempre se distingue o bem do mal, as obrigações e os desejos, o querer do dever.

April perderia muito sem o voice acting de Sarah Hamilton (ela passou por uma fase complicada, afectada por um cancro, as melhoras para ela) que é muito, muito bom, é o seu trabalho que nos faz apaixonar pela personagem. Aliás, o voice acting em todo o jogo é FENOMENAL, a entrega que cada actor emprega nas suas personagens, torna-as muito realistas. Aqui as vozes nunca são automatizadas e artificiais como em muitos videojogos que requerem muito dialogo, é tudo muito natural, e alguns actores realmente estão lá de corpo e alma. É interessante que os actores tenham gravado as suas linhas no estúdio em grupo e não isoladamente como é norma, provavelmente um factor que levou à alta qualidade do voice acting.

Para além de April e salvo raríssimas excepções, o resto das personagens são igualmente ricas e interessantes, e quase todas têm algo de curioso para nos contar, muitas têm longas histórias que quase nunca são aborrecidas, e que são um prazer ouvir. O guião é enorme, tem milhares e milhares de diálogos. Aliás a escrita é de grande qualidade, por vezes ficamos longos minutos a conversar com personagens, e algumas delas são bastante engraçadas, há inúmeros momentos cómicos, muitos deles bastante subtis que só os mais atentos vão captar. Há também momentos mais tensos e mesmo assustadores (especial destaque para Gordon Halloway). The Longest Journey é isto mesmo, uma vasta mistura de sentimentos, que nos diverte tão rapidamente como nos entristece, a meu ver esse é um dos maiores elogios que se pode fazer a um jogo.

O universo é muito rico e variado (uma vantagem de usar duas realidades paralelas), desde as torres intimidatórias muito “Blade Runneresque” da decadente e cyberpunk Newport, passando pela magia “à lá Tolkien” de Arcadia, tudo é retratado com o mínimo detalhe e grande pormenor. O background que cada personagem com que nos cruzamos nos dá, ajuda a dar vida a este universo. O jogo está carregado de inúmeras referências a obras como Alice no Pais das Maravilhas e O Feiticeiro de Oz, e são várias as homenagens aos contos populares dos irmãos Grimm e ao folclore europeu. Temos uma torre guardada por um mágico louco, castelos voadores, dragões, a bruxa má que cozinha pessoas no seu caldeirão, pássaros falantes, passagens para mundos paralelos (a primeira vez é no capitulo “Through the Mirror”, clara referência a Through the Looking-Glass de Lewis Carroll) mas ao mesmo tempo encontramos também referências e homenagens a obras tão díspares como Blade Runner (filme e jogo), Metropolis e até 2001: Odisseia no Espaço.

Não posso deixar de mencionar a belíssima banda sonora (podem ouvi-la aqui). Inteligentemente não cai no erro de inúmeros jogos (e filmes) actuais em recorrer em demasia a grandes orquestrais de tom épico que sinceramente é do mais cliché que podemos ouvir. Em vez disso, encontramos música atmosférica, em alguns casos quase intimista que consegue captar na perfeição os mundos opostos de Stark e Arcadia. E é composta por diversos registos bem diferentes, que vão desde músicas mais melancólicas, passando por música folclórica, sacra e futurista.

The Longest Journey é um jogo de 1999, portanto tem 10 anos, e como tal, algumas limitações tecnológicas. Muitas partes requerem bastante imaginação do jogador para visualizar algo que a tecnologia da altura não conseguia mostrar, um pouco como fazemos quando estamos a ler um livro. O aspecto visual é sem duvida o seu calcanhar de Aquiles, principalmente o aspecto dos personagens e as suas animações, que são muito presas, repetitivas e pouco naturais. Outras aventuras mais antigas, como Grim Fandango e Broken Sword são bem melhores neste aspecto, podemos dizer que graficamente não envelheceu muito bem. De igual modo as sequências em FMV podiam estar bem melhores. No entanto para compensar, os belíssimos cenários (infelizmente limitados à resolução de 640×480) e a direcção artística são 5 estrelas.

Outro aspecto menos conseguido são os puzzles. Principalmente no início, onde é tudo mais vago e aberto, e um ou outro puzzle (como o infame rubber ducky) torna-se bastante ridículo, ilógico e com pouco sentido prático. Principalmente os que requerem um monte de backtracking para encontrar um pequeno objecto para resolver algo mais à frente, tudo da forma mais obscura que conseguirem imaginar. Não é necessário fazerem puzzles destes para tornar um jogo difícil, por vezes os mais lógicos são os mais desafiantes. Mas felizmente a partir dum certo ponto (bastante cedo) o jogo torna-se bem mais linear, e os puzzles mais lógicos, sendo que alguns deles são bem marcantes, pela positiva.

Embora The Longest Journey tenha as suas falhas, como um todo, e principalmente devido à sua história e qualidade da escrita, o resultado é fantastico, um dos meus jogos favoritos. Aconselho-o a todos os que dão importancia à narrativa nos videojogos, no entanto é mais indicado para quem gosta e está habituado a lidar com aventuras gráficas. Quem estiver à espera de porrada e não tiver paciência é melhor não experimentar. Foi dos poucos jogos que me prendeu de forma intensa de início ao fim, e nunca tive vontade de parar de jogar.

Comments
One Response to “Retrospectiva: The Longest Journey [1999]”
  1. Beatriz Oliver diz:

    adorei esses postes e adoro mais ainda esse jogo
    parabens pelo saite encrivel

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