Retrospectiva: Gabriel Knight: Sins of the Fathers [1993]

O Curioso Caso de Gabriel Knight

Durante a década de 90, duas empresas lutavam pelo controlo da industria de videojogos no PC, a Sierra e a Lucas Arts. A empresa de George Lucas granjeava sucessos com os seus jogos humorísticos e sarcásticos centrados no motor de jogo SCUMM como Maniac Mansion, Monkey Island e Indiana Jones, em contraste a Sierra de Roberta Williams que estava à mais tempo na corrida centrava-se em jogos como as séries Kings Quest, Police Quest, Space Quest e Leisure Suit Larry. As aventuras da Lucas Arts reflectiam bem o espírito mais jovem e irreverente da empresa em contraste com a imagem mais estabelecida do seu rival.

No inicio da década ambas as empresas personificavam o que melhor se fazia na industria e como tal eram aliciantes para novos talentos que queriam deixar um impacto com os seus jogos. Na Lucas Arts aos conceituados Ron Gillbert, e Hal Barwood juntaram-se talentos como Tim Schaffer, David Grossman, Sean Clark e Michael Stemmle, na Sierra Christy Marx, Lori Ann Cole e Jane Jensen juntaram-se a Roberta Williams, Al Lowe, Mark Crowe e Scott Murphy.

Obviamente é na Jane Jensen que nos interessa falar, ela chegou á Sierra no inicio da década e após ter trabalhado como escritora em Police Quest III: The Kindred e EcoQuest: The Search for Cetus, e mais tarde como co-criadora de Kings Quest VI: Heir Today, Gone Tomorrow (provavelmente o melhor jogo da série) ao lado de Roberta Williams, Jane viu a  qualidade do seu trabalho ser recompensado com a possibilidade de criar o seu próprio jogo. Nasceu assim Gabriel Knight: Sins of the Fathers.

Não me vou alongar muito no processo de criação de Gabriel Knight, está tudo muito bem retratado num pequeno documentário que veio com o jogo e que podem assistir no final do parágrafo. Para além de nos apresentar os bastidores do jogo e da Sierra, o vídeo é uma óptima janela documental para ver como funcionava a industria no inicio da década. Era uma altura em que as grandes produtoras já trabalhavam com projectos milionários (a série Gabriel Knight sempre teve orçamentos muito elevados para a época) e cada vez menos eram produtos centrados em meia dúzia de pessoas. Gabriel Knight: Sins of the Fathers teve a colaboração de dezenas e dezenas de pessoas e em termos técnicos foi pioneiro em muitas novidades como animações 3D, CD-ROM, utilização de vozes profissionais, motion capture… enfim uma série de novas tecnologias que espelham bem a forma como as aventuras gráficas eram o pináculo da industria.

Mas se tecnicamente é um jogo que na sua época estava na vanguarda, o seu ponto forte está em algo intemporal, a sua narrativa. A história, as suas personagens, o setting, a qualidade da escrita e dos diálogos eleva-o do resto das aventuras da altura. Basta compara-lo com os outros grandes sucessos de 1993, Sam & Max Hit the Road e Maniac Mansion: Day of the Tentacle da rival Lucas Arts para entender a razão pela qual Gabriel Knight conseguiu ganhar o seu espaço. Era um jogo adulto, negro e refrescante no meio de jogos que apostavam na qualidade humorística para se evidenciar. A dimensão da narrativa era incomparável com muito do que se fazia na altura, ganhando proporções mais próximas de um livro do que dum videojogo, de tal forma que Jane Jenson lançou mais tarde uma adaptação do jogo em livro, onde grande parte do texto foi retirados do guião do jogo.

Tal como nos veio a habituar no resto da série, o setting é de extrema importância para a narrativa, e a Jane consegue melhor que ninguém transformar, neste caso a cidade de Nova Orleães, numa autentica personagem, tal como ela iria fazer com a Baviera e Rennes-le-Chateux nos jogos seguintes. A sua escrita capta na perfeição o ambiente e particularidades de Nova Orleães, desde o ambiente do bairro francês, o Mardi Gras, as influências coloniais, o Voodooo e a cultura sulista do Mississipi.

Gabriel Knight é um escritor desinspirado, os seus livros centram-se em temas sobrenaturais e policiais. Ele é dono duma pequena livraria no bairro francês em Nova Orleães onde trabalha a sua amiga Grace Nakimura. O jogo começa com um pesadelo que tem vindo a afligir Gabriel nos últimos tempos, o pesadelo é críptico mas as imagens não auguram nada de bom. Ao mesmo tempo uma série de assassinatos aparentemente relacionados com rituais voodoo afligem a cidade. Gabriel vê-os como uma excelente oportunidade para ganhar inspiração para o seu novo livro, ao longo da sua investigação Gabriel descobre que nem tudo é o que parece e acaba por tropeçar numa seita obscura que utiliza o voodooi como culto ao espirito de Tetelo. Ao investigar Tetelo, Gabriel descobre a revelação mais importante da sua vida, o seu passado e a história sua família. O seu tio Wolfgang coloca-o a par da herança espiritual da sua família, portadores do titulo de Schattenjager. Schattenjager é um titulo que passa a cada geração de familiares e que tem como função lutar contra as forças sobrenaturais. Gabriel vê-se obrigado a passar pelo ritual de ordenação e desde logo descobre que só um Schattenjager pode parar Tetelo.

Mais importante que a história, é a progressão de Gabriel desde escritor em busca de inspiração a Schattenjager e a sua consequente auto-descoberta que brilha na narrativa. É também importante reparar nas características psicológicas de Gabriel para entender a forma como esta aventura quebrou com o que se fazia na altura. Guybrush Threepwood, Roger Wilco, Sir Graham, Larry são todos eles protagonistas simpáticos, valentes, heróicos e por vezes desajeitados, mas conseguem sempre arrancar um sorriso de simpatia ao jogador. Gabriel é chauvinista, machista, escritor falhado, arrogante, vulnerável e tem as fraquezas como qualquer humano, uma clara mudança em relação aos estereótipos dos protagonistas de videojogos.

Na minha retrospectiva a The Beast Within falei na forma como a Jane consegue misturar ficção com factos de forma perfeita. O mesmo acontece em Sins of the Fathers. O nível de detalhe com que entramos na história da cidade e do voodoo (há uma longa palestra apenas sobre as origens e características do voodoo para assistir) é assustador, o que aliado à parte sobrenatural centrada no espírito de Tetelo torna a experiência muito gratificante porque dá ao lado sobrenatural da história uma vertente credível e realista.

O jogo em si está dividido em 10 capítulos sendo que cada capítulo corresponde a um dia. Todos os dias começam da mesma forma, Grace chega à livraria de Gabe e ele acorda, mas o mais curioso é a forma como cada capitulo acaba, muito reminiscente das actuais séries de TV (quem sabe inspirado pelo Twin Peaks que era um enorme sucesso na altura) através de cliffhangers. Cada capitulo é um crescendo, começa calmo com um acordar e tal como Gabriel vai despertando até ao clímax com que cada capitulo termina.

Todos os Gabriel Knight são aventuras extremamente exigentes em termos intelectuais e os níveis de dificuldade podem atingir níveis extremos, principalmente na forma rígida em como a narrativa progride e por causa da sua não-linearidade, muitas vezes perdemos o rumo por não saber bem o que falta fazer para acabar o dia. À excepção de meia dúzia de situações (que temos que entrar na forma de pensar da Jane Jensen) os “puzzles” têm sentido e lógica e durante cada dia podemos abordar os “puzzles” da forma como bem entendemos. Eu coloquei puzzles entre aspas porque aqui não há bem puzzles, ou melhor eles não são tradicionais como combinar objectos ou slider puzzles. Os “puzzles” estão directamente ligados à narrativa e alguns deles têm que ser feitos durante vários dias.

O inicio da década com o advento do CD-ROM tornou o voice-over quase obrigatório nas aventuras gráficas, muitos jogos relançaram novas versões com áudio, outros publicavam versões distintas com e sem voz, mas uma coisa quase todos tinham em comum, a baixa qualidade das vozes. Gabriel Knight foi pioneiro ao dar extrema importância ao voice-over, de tal forma que a Sierra contratou actores profissionais como Tim Curry, Mark Hamill, Efrem Zimbalist Jr. e Michael Dorn. Tim Curry recebeu algumas criticas resultantes do seu sotaque sulista, mas é inegável o impacto que ele teve, e tornou-se indissociável do Gabriel Knight, Gabriel é o Tim, mesmo depois da mudança do actor no 2º jogo.

Gabriel Knight: Sins of the Fathers foi o inicio duma maravilhosa trilogia, um farol de excelência narrativa na escuridão que é a industria dos videojogos e uma prova de que esta forma de entretenimento consegue ser algo mais quando quer.

Comments
2 Responses to “Retrospectiva: Gabriel Knight: Sins of the Fathers [1993]”
  1. Excelente artigo🙂 Por acaso sempre tive curiosidade em experimentar isto, mas também já ouvi muitas histórias de puzzles sem sentido que me assutaram:/ Qualquer dia ainda arranjo coragem para o jogar.

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