Mafia 2 [2010]

Finalmente chegou a sequela dum dos meus jogos favoritos, foram oito longos anos de espera. Será que está à altura das astronómicas expectativas?

Não há muitos jogos pelo qual tenha esperado tanto tempo e pelo qual as minhas expectativas fossem tão altas. Como tal, devem entender que tenho muito a escrever. Se não quiserem perder tempo a ler, apenas resumirei nisto: é inferior ao jogo original, mas se forem fãs vão gostar e podem ficar descansados porque a péssima recepção que teve foi injusta.

Eu falei muito resumidamente sobre o primeiro Mafia, tentei mostrar a sua abordagem original, e de como na prática mesclou diferentes estilos de jogos, open world e lineares para criar um estilo original e praticamente único. O Mafia na altura foi bem compreendido por quase todos e a sua abordagem alternativa à formula GTA foi vista como uma lufada de ar fresco.

Uma década mais tarde, é lançada a sequela e, curiosamente, pouca gente parece compreender a mesmíssima fórmula. A meu ver a barragem de criticas destrutivas que a sequela recebeu é um reflexo não (só) de mau jornalismo, mas principalmente da rigidez, dogmatismo, intolerância e interesses da actual industria e de todos os que vivem à custa dela. Não me vou alongar mais neste tema, direi apenas que a forma como o jogo foi recebido pela imprensa especializada reflecte na perfeição essas mesmas amarras. Como é que não conseguem entender um produto quando dez anos antes todos o fizeram sem grandes dificuldades?

Digo isto porque Mafia 2 é Mafia 1. As mecânicas base, estrutura e filosofia são exactamente as mesmas. Sobre o Mafia eu mencionei que se apoiava em três pilares: a história, a linearidade e o realismo. O mesmo acontece com Mafia 2. Ponham na cabeça que à semelhança do seu predecessor, Mafia 2 não é um sandbox, não tem missões secundárias, não quer ser explorado, não quer dar liberdade ao jogador. Tal como o seu antecessor é um jogo linear, singleplayer, focado somente na história, controlador e rígido. É algo que faz parte do seu ADN, não peçam mais do que ele quer ser, não o penalizem por não ser o que querem que seja.

Bom, menos choro e vamos falar do que realmente interessa, o jogo.

Como disse antes Mafia 2 partilha inúmeros aspectos com o original. Tem um feeling muito semelhante e que mais nenhum jogo consegue emular.

A narrativa é a meu ver o grande ponto de diferença entre ambos os jogos. Mafia apresentou-nos uma visão romântica duma história de gangsters (pensem num The Godfather) com uma organização baseada na família e liderada por uma figura patriarca. O protagonista, Tommy, era um homem com o qual facilmente criamos uma ligação afectiva. Ele tem carácter, cresceu de forma honrada mas vê-se involuntariamente engolido pela Cosa Nostra. O seu percurso dentro da organização é uma constante batalha contra os seus ideais e a sua natureza. Ele tem um claro arco narrativo que acaba na sua redenção.

Mafia 2 apresenta-nos uma visão fria e crua duma história de gangsters (pensem talvez num Goodfellas). Ao contrário do primeiro jogo, a história não se centra na organização familiar, mas sim, e apenas no par de protagonistas. Eles são despreziveis, seguem as leis das ruas, pouco mais são que rufias que procuram subir na vida. Eles não são fieis a ninguém em particular e seguem um caminho quase mercenário. Tal como no Tommy, os seus percursos resultam da forma como cresceram, Vito e Joe (os protagonistas de Mafia 2) foram criados na pobreza e em jovens já eram delinquentes e tinham ódio  do seu passado modesto, logo o grande e único objectivo é enriquecer e ter um bom nível de vida. Obviamente esta falta de carácter significa que o seu arco narrativo termina no ponto de partida, Vito é apenas um peão porque ele não consegue libertar-se desse ciclo vicioso.

Esta visão quase radicalmente oposta ao primeiro Mafia não permitiu que eu estabelecesse uma ligação emocional com a história e com os personagens. De inicio torci o nariz, mas parece-me evidente que é algo propositado. Os protagonistas filhos da mãe e a história fria e violenta é uma metáfora ao funcionamento destas organizações. Há um momento no final do jogo que espelha bem a frieza e crueldade de Mafia 2, quando o jogador é obrigado a exterminar a imagem romântica do primeiro jogo, é quase uma meta-referência à forma como a lealdade à organização impera sobre laços familiares e emocionais e de como a história de Mafia 2 é radicalmente oposta à do Mafia.

Tenho que admitir que prefiro a imagem romântica e o protagonista do primeiro jogo, mas aplaudo a coragem da 2K Czech em mudar quase 180º neste aspecto.

Outro aspecto que diverge um pouco em relação ao primeiro jogo é o combate. Digo desde já que é muito divertido, tem uma das adopções do sistema de cover mais eficazes na industria, mas inexplicavelmente não nos permite que disparemos às cegas. As armas são bastante gratificantes mas os reloads tiraram o desafio do jogo original (recordo que se perdiam os carregadores ainda com munições depois de recarregarmos as armas). Depois pequenos aspectos como a mira de enormes proporções, o sistema de regeneração e a IA previsível retiram algum do prazer. Por falar na IA, felizmente a dos nossos companheiros sofreu uma abismal evolução, eles raramente morrem o que óptimo! O combate corpo a corpo é bem melhor que o que vimos no Mafia, mas normalmente as sequencias nas quais se inserem são pouco interessantes.

Felizmente, o resto mantêm-se praticamente inalterado em relação ao jogo original.

A atenção ao detalhe, a atmosfera e o ambiente é simplesmente perfeito, tal como o primeiro jogo é uma pequena máquina no tempo que imerge o jogador nas décadas de 40 e 50. Quem me conhece sabe bem que valorizo muito o lado atmosférico dum jogo fazendo-me muitas vezes ignorar as suas falhas. Jogos como STALKER ou o Metro 2033 têm pontos negativos, mas a atmosfera é inigualável, ou mesmo jogos fracos como o Velvet Assassin acabaram por me conquistar porque conseguem apresentar um ambiente imersivo acima da média.

Empire Bay (a cidade de Mafia 2) é o grande responsável por este ambiente, os pequenos detalhes que à primeira vista nos passam despercebidos são assombrosos e a junção dos elementos visuais e sonoros trazem sentimentos ao de cima que só se manifestam com um mundo de jogo como o de Mafia 2. O papel de Empire bay é única e exclusivamente o de imergir o jogador e faz isso na perfeição. Muitos críticos condenam-na por ser muito vazia e não dar azo à exploração. É normal que assim seja porque não é esse o seu papel. A cidade não deve desviar, nunca, a atenção do jogador à narrativa. Dito isto, tenho de condenar a falta dum modo onde o jogador possa percorrer a cidade fora da história como o óptimo modo Free Ride do primeiro jogo.

Um dos grande focos continuam a ser os automóveis, eles são minuciosamente detalhados e mais uma vez é pedido ao jogador que crie uma ligação com os seus carros e que os vejam como algo mais que uma simples forma de locomoção. O comportamento dos carros é brilhante, quase saído dum jogo de corridas e não dum de acção, o modo realista (há igualmente disponível um modo arcade) é um verdadeiro prazer. É possível alterar o aspecto visual do carro e o seu comportamento na várias garagens, e se criarem uma ligação com o vosso carro, garanto-vos que irão passar muito tempo nessas garagens a arranjá-los, modifica-los ou a fugir à policia mudando a matricula. Como aspecto negativo tenho que destacar a impossibilidade de disparar de dentro do carro, é uma decisão retardada e inexplicável.

Uma das grandes críticas que Mafia 2recebeu são os save points. Vou-vos ser sincero, não me pareceu nada de muito anormal, o jogo grava nos momentos certos antes de cada tiroteio, depois de cada cutscene… está longe da atrocidade do GTA IV. É certo que deveria ter quick saves, mas o primeiro não tinha e parece-me seguir o que se faz hoje em dia na industria.

Por falar em cutscenes, elas são brilhantes. Embora a sincronização labial deixe um pouco a desejar, a forma como os actores virtuais se movem e falam é sublime e extremamente realista. Achei particularmente impressionante a forma como eles conseguem actuar com o olhar, é algo tão minucioso e extremamente difícil de transpor num jogo. Neste aspecto é a meu ver um dos melhores jogos da actualidade. Recordo que no Mafia este era também um dos aspectos mais impressionantes, dou os parabéns à 2K Czech por apostar forte neste ramo. Infelizmente temos o reverso da medalha, é óbvio que eles estão orgulhosos dos seus actores virtuais e como consequência temos horas de cutscenes que a meu ver são demasiado intrusivas, especialmente quando surgem a meio de missões. Mas para alguns isso pode não ser um defeito, há quem goste dessa parte cinemática num videojogo.

Em termos técnicos é muito bom. O motor de jogo foi claramente feito à volta do PC o que explica a forma suave como corre no meu computador desactualizado, o mesmo que se engasga no GTA IV. Para além disso raramente perde a sua elevada qualidade visual, mesmo com definições mais baixas e nunca cai para níveis preocupantes mesmo em situações extremas de noite, com chuva e muitos modelos em jogo. Espero ansiosamente por mais jogos feitos à volta deste motor de jogo.

Por esta altura parece que temos aqui um fantástico jogo candidato a GOTY. Infelizmente nem tudo é perfeito. Embora a estrutura das missões seja bastante semelhante ao Mafia, elas simplesmente não são tão interessantes. Dos 15 capítulos, se excluirmos meia dúzia de excelentes missões (obviamente a missão do hotel é a melhor, de longe) o resto é simplesmente desinspirado, o problema nem é serem repetitivas (não são) é mesmo o facto de não serem interessantes. E este era o ponto forte do Mafia, o original era um jogo que nos apresentava de forma sucessiva missões memoráveis e originais. Mafia 2 chegou a um ponto (capitulo 6, ou seja o capitulo da prisão) que caiu para níveis preocupantemente baixos e pouco típicos dum Mafia, felizmente esse é mesmo o ponto mais baixo e a partir dai é sempre a subir.

Outro aspecto negativo é a clara sensação de que falta conteúdo. Parece que o jogo foi retalhado (possivelmente para vender em futuro DLC). O final do jogo é extremamente brusco, há saltos narrativos que precisam de blocos de história, não há modo Free Ride, não há o countryside (que eu amava no original) mesmo estando estradas no mapa que dão a entender que estão lá… enfim uma série de situações que dão a entender que é preciso um Director’s Cut para mostrar todo o potencial de Mafia 2. O facto de os fãs estarem a descobrir nos ficheiros de jogo vestígios destes cortes tornam ainda mais clara esta situação.

Mafia 2 não dá grandes razões para voltar depois de acabada a história, demorei cerca de 13 horas para acaba-la (é a duração standard dos jogos singleplayer hoje em dia) mas depois disso pouco há a fazer. Podemos coleccionar capas da Playboy e cartazes pela cidade mas por muito bonitas que as coelhinhas vintage sejam, isso não é o suficiente para estender a duração do jogo já que não tem modo multiplayer.

Resumindo e concluindo, as expectativas foram superadas? Óbvio que não, Mafia é um jogo superior a Mafia 2, mas para ser sincero não ficou muito longe. A forma como foi arrasado pela critica fez-me baixar as expectativas, e visto por esse prisma é um jogo muito superior ao que nos fizeram crer. Mas admito que é feito para os fãs, para esses ponho as mãos no fogo em como o jogo vale a pena (mesmo sendo, repito, inferior ao original) e que vão desfruta-lo com prazer. Para o resto calculo que seja um jogo difícil de entrar, é inevitável que o comparem com o GTA e se entrarem no jogo sem conhecer as suas características é possível que saiam com um sabor azedo.

Positivo:
+ Extrema qualidade das cutscenes
+ Mantém as mesmas bases do original
+ Excelente motor de jogo

Negativo:
– Conteúdo cortado
– Qualidade das missões
– Ausência do modo Free Ride

 

Sai do templ… do PixelHunt com:


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Até agora (2010) saíram dois DLC dignos desse nome, Jimmy’s Vendetta e Joe’s Adventures. Como só o segundo se liga à história original lá o comprei.

Joe’s Adventure – Este DLC relata os acontecimentos durante a prisão do Vito, no entanto ele aproxima-se mais da estrutura do Jimmy’s Vendetta, ou seja, missões arcade ao estilo GTA. Não era bem disso que estava à procura quando comprei o DLC por isso não posso dizer que tenha ficado muito satisfeito. Das dezenas de missões genéricas, há apenas três que fazem jus ao Mafia 2. A fantástica missão inicial, a intermédia que é mediana e a ultima que é fraquinha e um reaproveitamento duma das missões da história original. O resto como disse são missões arcade (com leaderboards e tudo), algumas delas com elevado grau de dificuldade. O único ponto positivo é a tal missão introdutória e algumas novas áreas de Empire Bay que não existiam ou estavam fechadas no jogo. É caro, comprem apenas se forem GRANDES fãs de Mafia 2 e estejam a ressacar por mais, sempre são cerca de 10 horas.

Comments
One Response to “Mafia 2 [2010]”
  1. Bernardo diz:

    Gostei bastante da tua review🙂 , eu como grande fan da série gta achei algo mau depois de tanto tempo de desenvolvimento não terem incluindo sequer um modo free ride ,missões secundárias ou então actividades para ganhar dinheiro ect , ainda só joguei a demo mas daquilo que joguei achei bastante divertido e também achei bastante bem optimizado🙂

    Cumprimentos bernardo

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