Amnesia: The Dark Descent [2010]

A minha opinião ao DLC Justine encontra-se no final da análise ao jogo original.

Está então terminado o novo jogo dos suecos da Frictional Games. Amnesia: The Dark Descent tem muitas virtudes, mas o facto mais admirável é ter conseguido transformar Penumbra num jogo inofensivo.

Lembram-se do tempo em que a Capcom e a Konami degladiavam-se para conquistar o titulo de mestres do terror? A Capcom usava a série Resident Evil e a Konami o Silent Hill. Cada um focava-se num estilo de terror completamente distinto mas bastante eficaz. Com o passar dos anos a série Resident Evil transformou-se num jogo de acção e Silent Hill (depois do desmembramento da Team Silent) ainda anda à procura duma nova identidade.

Nesse período outros tentaram ocupar o poleiro deixado vazio pelos gigantes japoneses. A Monolith com a série Condemned e F.E.A.R., a Tecmo com a série Project Zero, mais recentemente a Visceral com Dead Space, entre outros, foram alternando de forma mais ou menos eficaz. Do campo independente, vindo do frio Sueco chegou Penumbra, um jogo queseguia um estilo mais próximo das aventuras gráficas e que apostava num sistema semelhante ao Silent Hill, ou seja terror psicológico mais fomentado pela audição do que pela visão e mostrou um novo caminho para o género do terror.

Penumbra mostrou que era possível revitalizar o género, mas se ele era um bom jogo que dominava a arte do “meter medo”, Amnesia consegue elevar a fórmula para o nível seguinte. Penumbra era assustador, Amnesia é insuportável. Penumbra afectava as emoções do jogador, Amnesia brinca com elas de forma magistral. Amnesia é agonizante, chocante, perturbador, angustiante, física e psicologicamente desgastante. Amnesia é o jogo mais aterrorizante que alguma vez joguei, é o pináculo e a nova referência do género. É o jogo que a partir de agora todos os jogos de terror terão de se comparar.

Perdoem-me a hipérbole, como já devem ter percebido Amnesia teve um enorme impacto em mim. Eu senti verdadeiro terror às mãos do jogo ao ponto de estar constantemente invadido por sentimentos opostos, queria muito jogar porque é um óptimo jogo, mas ao mesmo tempo sentia receio em clicar no ícone do jogo para entrar. Pode parecer ridículo e infantil, certamente estarão a pensar que sou uma pessoa facilmente impressionável. O “problema” é que não. É raríssima a forma de entretenimento que me consegue afectar desta forma,  sou bastante “conhecedor” e impermeável ao género de terror, seja em que tipo de média for.

Bem, mas parece que comecei pelo fim, ainda nem falei do jogo. A história de Amnesia pode parecer extremamente cliché de inicio. Somos Daniel um inglês do seculo XIX que acorda (preparem-se para a barragem de clichés) num castelo abandonado e aparentemente assombrado no meio da noite, com amnésia… Mas desde logo as coisas mudam de figura, Daniel apanha uma carta dele próprio (antes de ter perdido a memória) a pedir-lhe que desça às profundesas do castelo prussiano para matar um tal de Alexander. Ao longo do jogo, Daniel vai recuperando a memória através de pequenas entradas do seu diário (que explica como e porquê chegou ao castelo de Brennenburg) e de breves flashbacks (que explicam o que aconteceu durante a sua estadia). É muito perturbador o desvendar da narrativa, nem tanto pelo que se vê, mas pelo que imaginamos que possa ter acontecido. Gostei do protagonista, à medida que vamos desvendando o seu passado começamos a aperceber que ele na realidade não é bem o que aparenta ser, e algumas das suas acções são… pouco… virtuosas. É uma pena que o actor que lhe dá voz não esteja à altura, é demasiado teatral e nem sempre acerta no tom necessário.

O level design é bom, minuciosamente montado para controlar as acções do jogador. A forma como é usada a luz, sombras, particulas e especialmente o som (sublime sound design) é impecável, e algumas sequências irão certamente ficar marcadas em quem as presenciou: a sequência da água, a arrecadação, a adega, as masmorras e especialmente as salas de tortura (chocantes… as descrições são arrepiantes) são simplesmente memoráveis.

Amnesia tem um sistema de sanidade semelhante ao do Eternal Darkness, ou seja quanto mais Daniel estiver na escuridão, e quantas mais situações perturbadoras ele vir mais a sua sanidade desce. Para contrariar essa descida, Daniel precisa de luz, de resolver puzzles e avançar no jogo. Este sistema é interessante porque obriga o jogador a fazer escolhas. Por um lado precisa de se esconder na escuridão para escapar aos seres que vagueiam o castelo, mas quanto mais tempo ficar no escuro mais Daniel enlouquece. Acrescentem ainda a extrema escassez de fontes de luz e na reduzida capacidade de a criar (através de fósforos que iluminam velas e tochas e uma misera candeia que precisa de óleo para dar luz) e podem ter a certeza que irão dar graças por cada migalha de luz que tiverem à vossa disposição.

O único ponto ao qual torço o nariz neste sistema de sanidade são as suas consequências. Para além da visão distorcida (e Daniel irá ver algumas ilusões, reparem nos quadros) e movimentos mais lentos não me parece que hajam consequências muito graves para a extrema insanidade, já que Daniel nunca morre como consequencia disso. Apenas sofre um apagão e reggressa à sanidade segundos mais tarde. Não morrerão de insanidade, mas podem ter a certeza que morrerão com as criaturas que habitam o castelo. E podem estar descançados (ou não…) que elas não são lentas como os infectados de Penumbra. Os sacanas são extremamente rápidos e é aterrador senti-los a correr atrás de nós.

A primeira informação que surge após iniciarmos o jogo é: “Apaguem as luzes, coloquem uns headphones, deixem-se imergir, este não é jogo de vitória ou derrota”. Embora tenha cumprido as “regras” apresentadas, devo dizer que fiz “batota” em alguns pontos críticos do jogo na questão da luz. Mas não deixa de ser um dilema, deixo a luz ligada para conseguir avançar no jogo? Mas com luz apagada mete mais medo e é por isso que comprei o jogo… mas a verdade é que fiz grande parte do jogo durante altas horas da madrugada, acreditem que irão desfrutar de todo o terror de forma muito mais gratificante.

Ao bom estilo do Penumbra, o final do jogo não é completamente claro, longe disso. Existem três finais diferentes, qualquer um deles bastante vagos, mas calculo que seja propositado para deixar aberto a diferentes interpretações. Devo dizer que não gostei muito da mudança para o sobrenatural. Acho que quanto mais sobrenatural uma história é, menos assustadora fica, mas verdade seja dita, muitos dos assustos chocantes e perturbadores de Amnesia são bem reais: morte, tortura, desprezo pela condição humana, humilhação, etc.

Amnesia tem alguns presentes. Depois de concluido os três finais, recebemos três passwords que servem para desbloquear uma pasta que contém diverso artwork. Para além disso a Frictional incluiu comentários em jogo que relatam todo o processo de criação e dão a conhecer algumas das suas influências e mostram as enormes limitações que tiveram devido ao curtíssimo orçamento e as formas criativas que usaram para dar a volta a essas limitações.

Para mim um jogo memorável tem que conseguir despertar emoções. Sejam de alegria, tristeza ou medo. Amnesia conseguiu desmascarar emoções de medo e puro terror, emoções que felizmente raramente presencio na vida real e que infelizmente raramente presencio em formas de entretenimento. Amnesia é um jogo que consegue passar para além do monitor do meu computador e que me consegue afectar física e psicologicamente. Na minha opinião é o novo pináculo dentro do género do terror e quando um jogo consegue atingir um estatuto desses é merecedor de todos os louvores possíveis.

Positivo:
+ Aterrador
+ Brilhante sound design
+ Ambiente e atmosfera
+ Puzzles criativos e acessíveis

Negativo:
– Os finais podiam ser menos ambíguos
– Mau voice acting do protagonista
– Obriga-me a mudar constantemente de boxers

Sai do templ… do Pixelhunt com:


Justine – Outubro é o mês do terror e é a altura perfeita para regressar ao horrível mundo de Amnesia e descobrir o seu DLC. Se bem se recordam Justine foi lançado durante aquele ARG do Portal 2 em Abril do ano passado, quando vários jogos indies receberam updates com temáticas centradas em… batatas, dias antes do lançamento do jogo da Valve.

A melhor forma de descrever Justine é “mais do mesmo”. Podem esperar a mesma experiência que tiveram com o jogo completo encapsulado numa pequena aventura de 1 hora, e que aterrorizante que é! Voltei a sentir os mesmos sintomas como pulsação forte, tremores e ansiedade naquelas sequências onde temos que fugir e efectuar tarefas enquanto somos perseguidos por um monstro ao som de músicas aflitivas. É simplesmente horrível a experiência de Justine, mas horrível no bom sentido porque, tal como o jogo principal, desperta sensações que raramente sinto.

Há no entanto uma grande alteração em relação ao jogo original, morte permanente! Justine não tem save points nem dá para guardar a progressão manualmente, terão de jogar de inicio ao fim e caso morram são lançados directamente para o ambiente de trabalho! É uma decisão que funciona bem num capitulo tão curto, mas obviamente num jogo a sério seria um desastre. No entanto não duvido que o pessoal da Frictional tenha usado isto como experiência, a ver vamos se o sistema de saves será modificado em posteriores jogos. Este facto torna a experiência ainda mais insuportável, especialmente no final do capitulo quando o medo da morte esbarra com o desejo de progressão.

A história à semelhança da campanha original é bastante vaga e depende de diversos manuscritos espalhados pelos níveis para ser montada como um puzzle para começar a fazer sentido. Tem algumas semelhanças e até ligações com a aventura do Daniel e é bastante interessante e macabra tendo em conta o quão curto é este DLC.

Quem gostou do Amnesia vai adorar Justine, é óbvio que em comparação é apenas um pequeno aperitivo mas dá para matar a fome enquanto não chega Amnesia: A Machine for Pigs lá para 2013.

Comments
15 Responses to “Amnesia: The Dark Descent [2010]”
  1. JhonatanWilhan diz:

    Muito bom awe viu eu tenho ele aki e show d ebola mesmo
    da muito medo

  2. Diego Malta diz:

    Esse jogo é REALMENTE assustador, sou acostumado com o gênero e digo com toda certeza que é o jogo mais horrendamente que já joguei. Recomendo!

  3. gian diz:

    voces sao uns viadinhos, esse jogo so da uns sustos de vez em quando , porque é muito obvio quando vai aparecer um inimigo, dai estraga todo o clima dele. Mas a historia e bem legal conforme vc vai descobrindo.

  4. Bob Junior diz:

    terminei o jogo faz 20 minutos atras, e vim aqui para ver se esclarecia a historia do jogo, mas o cara tem razão, certos momentos é meio obvio que algum “grunt” ira aparecer, normalmente é sempre depois que você pega algum objeto importante.

  5. Bob Junior diz:

    esqueci de falar, no comentario anterior, apesar de alguns momentos obvios, o jogo te prente de inicio ao fim, realmente muito bom, o jogo tem alguns puzzles faceis, e outros que te deixam um bom tempo pensando, e o jogo realmente deixa a pessoa aterrorizada, nao só pelos grunts horriveis, mas sim pelos sons, gemidos, grungidos, atormentadores e cenários arrepiantes, vale a pena jogar !!! recomendo

  6. Hudson diz:

    Cara quando estava sem jogos pra me inter-ter, pesquisei na net jogos de terror/horror acabei achando amnesia em uma lista de melhores jogos do estilo, fiquei interessado por que gosto deste gênero, então fui ao youtube e vi videos e comentários sobre tal, assim me deu uma grande vontade de jogar e é o que estou fazendo, estou na parte da prisão, morrendo de medo…

  7. Euller diz:

    O jogo é ótimo, me surpreendeu em vários pontos, e a história tem algo que te faz sempre querer continuar e descobrir o que vai acontecer com Daniel. Tomei vários sustos, mas é como ja disseram, vc nao pode jogar um jogo de terror no claro com um bando de caras conversando e passando pelo lado… tem que criar o ambiente, é assim que funciona ^^

  8. Berto, por acaso já ouviste falar do Call of Ctulhu: Dark Corners of the Earth? Parece ter muito em comum com o Amnesia e não me admirava nada se o pessoal da Irrational Games tivesse ido buscar inspiração ao jogo. Comecei à pouco tempo a jogar (pena é que o port para PC não seja grande coisa) e parece-me bem decente.

    • Já ouvi falar! Até tenho na minha wishlist do Steam, mas nunca fica a grandes preços =( Aparentemente a primeira parte é muito boa e tem para lá uma perseguição num hotel que é uma coisa fenomenal. No entanto, segundo reza a lenda e segunda parte é bastante fraquinha e muito focada no combate =(

      Mas está na minha lista de futuros jogos a experimentar =) Vai dando noticias sobre o jogo!

  9. Henrique diz:

    Cara, a melhor análise de jogo que já li! Tudo pautado…, Início do gênero, evolução, inclusão do game no gênero, história do game, pontos alto e baixos, etc… Parabéns.. tinha que fazer isso no Youtube…….

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  1. […] Ora, eu só experimentei o Amnesia: The Dark Descent e posso dizer que é um belíssimo jogo. Dos melhores do género Terror. Existem muitos que o classificam como o melhor de sempre no género, e olhem que não me parece exagero (uma opinião aqui). […]



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