Gray Matter [2010]

Exceptuando provavelmente o Half-Life 2 Episódio 3, Gray Matter era o jogo que eu mais esperava nos últimos anos. É o novo jogo da melhor escritora da industria e o seu primeiro em mais de 10 anos.

Primeiro que tudo alguns avisos. Os jogos da Jane Jensen são basicamente desculpas para contar histórias, quem se lança num jogo dela sabe que está lá praticamente só pela narrativa. Como tal, essa faceta exerce muito mais importância que a parte técnica. Ainda por cima, sabendo que os responsáveis por essa parte é uma equipa sem grandes recursos não acho justo fazer uma critica tradicional. É um pouco como criticar o Crysis pela fraca narrativa, ok é justo faze-lo, mas o seu inacreditável portento técnico acaba por abafar a desinspiração narrativa. Se Crysis era uma montra tecnológica, Gray Matter é uma montra narrativa.

Vá… este é o meu lado fanboy a querer desculpar as deficiências técnicas de Gray Matter, mas vamos lá ser sinceros, quem é que vai jogar Gray Matter? Os fãs de Gabriel Knight e das aventuras gráficas. Os dois grupos estão mais que habituados a problemas técnicos.

Pois bem, sim, Gray Matter tem bastantes problemas. É suportado por um motor de jogo pouco flexível, preenchido por más animações e fracas transições. O ponto mais fraco é sem duvida a animação dos personagens que mais parecem robots que humanos . Este é um jogo 2.5D ou seja personagens tridimensionais sobre um fundo 2D. Os fundos são bastante bonitos e detalhados e os dois protagonistas bem modelados e renderizados, mas toda a direcção artística a meu ver é demasiado aborrecida, seria melhor algo mais estilizado como as cutscenes.

As cutscenes são quase estáticas, têm uma forte inspiração nos jogos casuais, mas surpreendentemente até funcionam bem, eu pelo menos gostei, faz lembrar o estilo das do Gabriel Knight: Sins of the Fathers e permite olhar de perto os personagens, isto porque, infelizmente, a Wizarbox teve medo de fazer close up’s durante os diálogos, revelando insegurança nos seus modelos (sem qualquer razão válida, porque são bons q.b.). É pena que a representação visual de alguns personagens mudem tanto entre as cutscenes e o jogo em si, mostra algum amadorismo.

Embora os backgrounds sejam bonitos, são também pouco animados. É triste ver as ruas de Oxford quase despidas de movimento e pessoas, e para além disso são demasiado estáticas, não temos a noção da passagem do tempo em jogo, nunca fica noite e chega a uma altura que não sabemos se algo aconteceu de dia ou de noite.

Resumindo, o jogo tem baixos production values e é estranho o porquê da sua longa produção. Não encontro nada que justifique os sete anos de espera. A única explicação é mesmo a falta de dinheiro e “mão de obra”.

Oh diabo… parece que o jogo é uma trampa…

O Kieron Gillen do site Rock, Paper, Shotgun, escreveu há uns meses aquando da saída do Mafia 2 um interessantíssimo artigo onde tentava exemplificar a importância que uma história tem no jogador e no crítico. Um jogo que se foca em demasia na sua narrativa tem maiores probabilidades de extremar opiniões do que um que não a tenha ou que não lha dê grande importância. Um Mario Galaxy vai ser sempre analisado pelo seu gameplay e não corre o risco de ser criticado pela sua (ausente) narrativa, enquanto o Mafia 2 por exemplo ganhou muitos inimigos porque muitos deles não conseguiram gostar da história.

O que quero dizer com isto é que Gray Matter apoia-se tanto na história que tudo o resto torna-se secundário. Quem não conseguir gostar da sua narrativa vai sair completamente desiludido, quem gostar vai perdoar grande parte das suas falhas. É portanto um jogo de extremos.

Tenho a certeza que ele vai ser massacrado em termos críticos, o primeiro capitulo não ajuda porque é demasiado lento e coloca a nu todos os problemas que listei. Muita gente não vai sequer passar daí e irá ficar com uma impressão negativa. No entanto quem conseguir aguentar vai ser brindado pela magia da Jane Jensen e pela qualidade da sua história.

É aqui que Gray Matter brilha, Jane Jensen é tão boa que todo o jogo acaba por rodar à volta da sua narrativa. Quem jogou os Gabriel Knight’s sabe bem o que esperar: aspectos sobrenaturais misturados com factos e localizações reais, muito mistério, personagens cativantes e bem desenvolvidas e investigação. A história segue tão à risca esta fórmula que é impossível não pensar em Gabriel, Grace e companhia.

O estado actual da importância da narrativa na industria é tão precário que chega a ser um choque desvendar Gray Matter. Grande parte dos videojogos actuais (com as devidas excepções) seguem um caminho marcado pelo facilitismo, imediatismo e exposição desenfreada, mas Gray Matter não tem medo em obrigar o jogador a ter que trabalhar mentalmente para conseguir navegar e decifrar a sua narrativa.

Se a série Gabriel Knight tinha espíritos voodoo em Nova Orleães, lobisomens na Baviera e vampiros em Rennes-le-Château, Gray Matter transporta-nos para Oxford. O jogo abre com a protagonista, Samantha Everett perdida no meio duma tempestade a chegar à mansão de Dread Hill. Para conseguir abrigo ela faz-se passar por uma candidata ao posto de assistente do misterioso neurobiólogo David Styles, proprietário da mansão.

David era um homem de sucesso, no entanto a morte da sua mulher mergulhou-o numa obsessão transformando-o num homem frio, duro, antipático e passou a viver fechado em casa como um ermita. David foi para mim a estrela do jogo, especialmente nos capítulos em que o podemos controlar. Aí conseguimos ver para além dessa capa austera e descobrimos que aliada à sua obsessão pela sua falecida mulher temos também uma ferida aberta pelos remorsos e sentimentos de culpa. Para manter a memória de Laura (a sua mulher) viva ele utiliza uma técnica que lhe permite reviver algumas memória passadas com a ajuda de vários estímulos. As coisas tornam-se mais complicadas quando aparentemente um fantasma de Laura começa a “assombrar” a casa e a tentar comunicar com ele.

David decide fazer uma experiência para tentar compreender o papel do cérebro durante pensamentos colectivos, para tal ele pede a ajuda da sua nova assistente, a protagonista Sam, para reunir um grupo de cobaias. Sam é o total oposto de David. É uma ex-gótica, talentosa mágica de rua que deixou os EUA para vaguear pela Europa em busca do clube de magia mais exclusivo do mundo, o clube Deadilus. Ela esconde os seus problemas e traumas passados e veste uma máscara de rebeldia para tapar as suas feridas. Obviamente duas personalidades tão distintas acabam por colidir, mas rapidamente a Sam começa a compreender David já que ambos no fundo não são assim tão diferentes, apenas usam capas diferentes.

Não me posso alongar muito mais porque a beleza está em descobrir a história. Tal como no Sins of the Fathers, a história usa muito os cliffhangers no final de cada capitulo, é uma forma de agarrar o jogador que aqui resulta às mil maravilhas.

Algo comum a todos os jogos da Jane é o extraordinário ambiente e atmosfera. Desde a mansão de Dread Hill, passando pela universidade de Oxford, a igreja onde foi filmado Harry Potter, o parque da cidade, os temas centrados em Lewis Carrol e na sua Alice, os aspectos científicos centrados na mente humana, o paranormal, a magia, o terror gótico vitoriano (há até referências a Frankenstein) enfim… tudo conjugado imerge o jogador como a Jane tão bem sabe fazer.

A ajudar, encontramos a óptima banda sonora de Robert Holmes e da sua banda (onde a sua filha é vocalista) os Scarlet Furies que até têm uma pequena auto-referência dentro do jogo. Os temas variam entre o melancólico e o intenso, muito reminiscentes de Gabriel Knight. Podem ouvir uma amostra e compra-la aqui.

O voice acting de forma geral está longe do que se esperava num jogo da Jane, a actriz que dá voz a Sam deixa muito a desejar, há também meia dúzia de vozes que simplesmente não funcionam. Felizmente Steven Pacey que dá voz a David Styles é simplesmente inacreditável, dos melhores trabalhos que alguma vez ouvi num videojogo, simplesmente fenomenal.

Para bem e para o mal os puzzles sempre foram centrais em todos os Gabriel Knight, Gray Matter consegue não ter um único puzzle ilógico, o que é de louvar, mas infelizmente também não tem nenhum memorável, longe disso. A Jane avisou que queria tornar o jogo mais fácil e abrir a porta para o público mais casual, e a verdade é que à excepção de meia dúzia deles, o resto é muito acessível e noob friendly. Ainda para mais o jogo apresenta algumas ajudas (a meu ver muito bem implementadas) que não deixam que o jogador se sinta perdido. As barras de progressão avisam o jogador qual a percentagem que falta para completar cada objectivo e as localizações no mapa indicam se há alguma acção por fazer em cada uma das zonas. Isto permite que o jogador possa focar a sua atenção em zonas especificas acabando com as constantes viagens pelo mapa como nos Gabriel Knight.

Uma das novidades de Gray Matter é o muito badalado sistema de magia. Basicamente Sam tem um pequeno livro com diversos truques mágicos que durante certos momentos o jogador tem de recorrer para ultrapassar diversos obstáculos. É uma boa ideia mas mal executada. Não dá qualquer liberdade ao jogador e basta seguir as indicações para executar os truques com sucesso. Mas é uma ideia com potencial que pode vir a ser melhor explorada.

Portanto basicamente Gray Matter é um jogo mediano suportado por uma excelente história e um bom ambiente. Valeu os anos de espera? Sim, isto é o mais próximo que há dum Gabriel Knight 4, e como substituto acho que deu para tirar a fome de miséria. Vamos esperar que venha aí uma sequela.

Positivo:
+ Excelente narrativa
+ Atmosfera
+ Música
+ O voice acting de Steven Pacey. Uau!

Negativo:
– Baixos production values
– Problemas técnicos

Sai do templ… do PixelHunt com:



Comments
2 Responses to “Gray Matter [2010]”
  1. Eder R. M. diz:

    Eu discordo quanto às vozes. Achei a maior parte muito boa, incluindo aí a da Sam que é perfeita para o papel. Já a voz do David é tão clichê e ancorada num estereótipo que me causa repulsa.

    Quanto aos personagens em si, a maioria é interessante, especialmente Mehistopheles, que é fntástico.

    No geral, apesar de alguns problemas, é um jogo maravilhoso, que me lembra bem o porquê de eu ter me tornada um gamer em primeiro lugar. O mundo precisa de mais jogos como esse.

  2. Concordo em absoluto com o seu ultimo parágrafo.

    O grande problema da actriz que deu voz à Sam é que… ela não parecia estar a actuar mas sim simplesmente a ler, sem grande emoção, não parecia uma actriz.

    Até posso concordar que a tonalidade que o Steven Pacey empregou para dar vida ao David seja cliché, mas ele deu tudo por tudo e o que ouvi foi um excelente actor e não uma simples leitora. Ele soube transmitir emoções, algo essencial naquela personagem.

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