Heavy Rain [2010]

Terminei Heavy Rain, era um jogo que sempre me interessou no passado, mas que já tinha colocado de parte porque nunca pensei vir a joga-lo por causa da exclusividade com a consola da Sony.

Heavy Rain é um jogo muito fácil de falar mal, ele parece daqueles miúdos ricos, arrogantes e vazios que todos um dia conhecemos na escola. Esses miúdos são tão falsos que se torna demasiado fácil expor todos os seus defeitos sem olhar para lá da superfície. Heavy Rain adora pavonear-se com a ideia de que é diferente e melhor que todos os outros, mas vou tentar não me focar muito nesses pontos fáceis e irei centrar-me mais nos pontos positivos, será um exercício mais trabalhoso para mim.

Primeiro que tudo, deixem-me contestar os muitos comentários que fizeram em relação ao jogo, muitos disseram que Heavy Rain era um jogo diferente e que merecia ser louvado por isso. Em termos mecânicos e de gameplay é uma cópia mais refinada do anterior jogo da Quantic Dream Fahrenheit, e a sua base é uma herança duma tradicional aventura gráfica sem puzzles. Direi que é arrojada a aposta total na narrativa sem ter que se apoiar em puzzles e/ou combate, mas isso também significa que muitas vezes simplesmente entra no campo do filme interactivo que era tão popular na década de 90 com a febre do FMV.

Deixem-me só tirar do caminho o que não gostei em Heavy Rain. Não gostei do gameplay à base de QTE, é restritivo e apenas recompensa os reflexos do jogador e a sua memória do comando da PS3. Não gostei da escrita, parece saída dum adolescente que acha que é muito bom mas não tem muito talento. A fraca escrita traduziu-se em personagens demasiado uni-dimensionais tendo em conta o total foco na narrativa. À excepção talvez do Ethan, todos os personagens são incapazes de progredir e nunca conseguem sair da imagem superficial que nos é apresentada nas suas introduções. Não gostei do voice acting das línguas que domino (Português e Inglês) experimentei em Francês e foi melhor, mas não sei se será fruto da qualidade dos actores gauleses ou do meu limitado domínio da língua francesa.

A história é demasiado fracturada e é difícil encontrar um sentido de continuidade entre muitas das cenas, por vezes dá a ideia de estar a ver um best of da história, ainda por cima algumas dessas cenas são desperdiçadas com tarefas mundanas que nunca deveriam ser jogáveis, falo de cenas como a dos primeiros socorros ou a de babysitting, consigo perdoar a cena inicial em que o Ethan faz tarefas rotineiras porque é um bom tutorial. Não gostei do pretensiosismo do jogo, não porque isso seja necessariamente mau, mas ele leva-se tão, mas tão a sério, no entanto a escrita não consegue traduzir isso porque tem dificuldade em abordar correctamente os assuntos pesados e negros. Também irritante foi a mensagem pouco adulta de David Cage (o escritor e “realizador” de Heavy Rain), basicamente ele passou todo o jogo a gritar “VEJAM COMO O MEU BRILHANTE DRAMA INTERACTIVO É ADULTO! VEJAM! TEM ASNEIRAS E NUDEZ!”. Não tenho nada contra asneiras e nudez, acho até que a nudez deveria ser melhor usada nos videojogos, mas em Heavy Rain é tudo tão forçado, IN YOUR FACE!

As animações são boas, mas falha nas interacções entre personagens, a cena de sexo foi extremamente constrangedora e cómica, está a milhas das animações do Uncharted 2. Bom… podia continuar, como disse é muito fácil mostrar as suas falhas. Mas Heavy Rain também faz coisas boas.

Vou já despachar a parte técnica. Heavy Rain é um jogo muito bonito, e os gráficos são bastante impressionantes, especialmente os pequenos detalhes como as caras das personagens (mesmo com um tremendo uncanny valley) e os efeito da água (mal seria num jogo que se foca tanto na chuva). As animações também são boas, mas como falei anteriormente quando há uma interacção entre personagens nunca parece que estão ambos no mesmo espaço. É verdade que os gráficos conseguem atingir este patamar porque cada uma das cenas é bastante pequena, mas não deixam de ser merecedoesa de elogios. Pena que este motor de jogo não esteja disponível para pessoas talentosas como Jane Jensen, Ragnar Tornquist, Tim Schafer, Benoit Sokal, etc.

Achei muito refrescante a forma como Heavy Rain não utiliza o combate e/ou puzzles para suportar a narrativa, ele tem a coragem de apenas usar narrativa, é algo que faz mais falta nos videojogos actuais. É verdade que isso por vezes torna a fronteira entre o que é ou não um videojogo demasiado ténue, mas mesmo assim é uma lufada de ar fresco. Isso trás por arrasto outro aspecto interessante. Aqui não há game overs, o jogador nunca é obrigado a repetir nada porque o jogo adapta-se a tudo o que acontece, mesmo que os protagonistas morram. É outro aspecto que gostaria de ver introduzido em mais videojogos. É verdade que em grande parte das aventuras gráficas é impossível morrer, logo também não existem game overs, mas são raríssimos os casos em que o jogo se adapta ao jogador, é normalmente o contrário, o jogador tem que se adaptar à sua narrativa.

É surpreendente ver a forma radical como os diferentes finais mudam com cada jogador. Personagens que para uma pessoa podem morrer cedo, noutras podem ter sido decisivas para solucionar o caso. Só é pena que o assassino(a) nunca possa morrer por incompetência do jogador, depois de sabermos isso as cenas de tensão vividas por essa personagem deixam de ter o mesmo impacto.

Falo nas cenas de tensão, porque elas estão bastante bem montadas, e são um dos pontos fortes do jogo. Destaco uma cena em particular em que um dos protagonistas está preso numa casa em chamas, estava a jogar em “bicos de pés” com o coração a um ritmo acelerado.

A história já referi que é demasiado fracturada e suportada por uma escrita que deixa bastante a desejar, mas pelo menos consegue estar muitos furos acima do que a Quantic Dream fez em Fahrenheit, muito porque conseguiu ver-se livre dos aspectos sobrenaturais que afundaram o anterior jogo de David Cage e companhia. É uma história muito influênciada pelos thrillers da escola de Se7en, com alguns elementos noir e até de filmes como Saw. Mesmo sendo uma clara melhoria em relação a Fahrenheit, não deixa de haver uma série de cenas que bebem muita inspiração do seu predecessor espiritual, temos até um flashback jogável durante a infância dum dos protagonistas.

Para concluir, que isto já vai longo, penso que posso resumir Heavy Rain em algo tipo “tem boas ideias e boas intenções, mas raramente são bem executadas”. Mas no meio de tantas falhas e más decisões de design, Heavy Rain consegue balancear os pratos da balança com alguns pontos positivos. Não é um grande jogo (é mesmo um videojogo?) mas vale a pena ser “experienciado” (esta palavra existe?).

Positivo:
+ Visuais
+ A narrativa molda-se de acordo com as nossas acções
+ Foco total na narrativa

Negativo:
– A escrita deixa muito a desejar
– Praticamente não tem gameplay
– QTE, QTE, QTE, QTE, QTE, QTE, QTE, QTE, QTE, QTE, QTE
– Entra perigosamente no campo de filme interactivo
– Voice acting

 

Sai do templ… do PixelHunt com:


Comments
One Response to “Heavy Rain [2010]”
  1. Anónimo diz:

    gostei muito desse jogo é um jogo com gostinho de quero mais

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