A Evolução dos Efeitos Especiais no Cinema

Com a estreia do TRON: Legacy decidi recuperar um artigo que escrevi em tempos para a defunta Red Carpet sobre um tema que encaixa bem com o filme da Disney: A evolução dos efeitos especiais no cinema. Este artigo foi escrito originalmente em Abril de 2008 para o 3º numero da revista, por isso ainda não havia a febre do 3D e filmes como Avatar.

O cinema sempre foi um meio para as pessoas poderem sonhar, visitar mundos e criaturas fantásticas, uma porta para 0 desconhecido. Os efeitos especiais ajudaram a tornar mais reais esses mundos inatingíveis. Se no inicio eram simples truques, com 0 passar das décadas tornaram-­se quase indispensáveis no cinema actual.

Logo na alvorada do cinema temos os primeiros exemplos de “truques”. O mágico Georges Méliès descobriu acidentalmente o stop trick, ao parar a filmagem e reinicia-la mais tarde, o resultado final tinha um salto na acção. Isto permitia truques como fazer desaparecer pessoas e objectos. Meliès aproveitou esta técnica no seu Viagem à Lua de 1902, um filme inspirado pelo livro Da Terra à Lua de Júlio Verne, este é considerado o primeiro filme de ficção cientifica.

Durante as décadas seguintes, novas técnicas foram sendo inventadas, muitas delas adaptadas do teatro e da fotografia. A  evolução natural do stop trick era utiliza-lo de modo a que houvesse movimento e animação. Nasceu assim o stop motìon, que consiste em filmar fotograma a fotograma um objecto inanimado de modo a que quando 0 filme corresse ,resultasse numa ilusão de movimento. Willis O‘Brien tornou-se um pioneiro nesta técnica e ficaram famosos filmes como O Mundo Perdido onde víamos dinossauros a lutar entre si e o mítico King Kong, que graças ao realismo do stop motion, assustou plateias em todo o mundo. Outra técnica que deu muito mais acessibilidade foi 0 uso de miniaturas. Todo o tipo de transportes e grandes construções que eram de manipular, podiam agora ser deslocados, construídos e destruídos apenas com recurso a miniaturas, tal como podemos ver em Metropolis, onde uma imensa cidade futurista foi filmada apenas com recurso a miniaturas, desde enormes edifícios, aviões a cruzar os céus, com grandes e congestionados viadutos. Tornava­-se assim mais fácil e barato filmar cenários fantasiosos e de grandes dimensões.

A chegada do technicolor e do cinema a cores permitiu um maior realismo. O Planeta Proibido com a junção de diversas técnicas trouxe às telas a primeira representação dum grande, realista e exótico mundo extraterrestre. Também neste período, Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille espantou as plateias de todo o mundo, com o espectacular êxodo final através do mar vermelho que se tornou num marco do cinema, assim como as suas imponentes construções faraónicas apenas possíveis com o recurso a miniaturas. Sete anos mais tarde a luta entre Jasão e os sete esqueletos em Jasão e os Argonautas, toda filmada em stop motion, tornou-se numa das cenas mais impressionantes da época e um testemunho do brilhantismo de Ray Harryhausen, mestre do stop motion e herdeiro de Willis O’Brien.

Em 1963, 2001: Uma Odísseia no Espaço de Stanley Kubrick, 0 mago dos efeitos especiais Douglas Trumbull veio elevar 0 nível de exigência dos efeitos especiais em cinema. Através de miniaturas com grande detalhe e uma profundidade de campo realista, davam um assustador realismo às sequências espaciais. As cenas de gravidade zero foram possíveis através de gigantescos cenários rotativos. A partir de 2001: Uma Odisseia no Espaço, 0 padrão dos efeitos especiais, principalmente em filmes espaciais aumentou de forma abissal. Só com 0 épico de George Lucas, Star Wars é que a indústria voltou a sofrer nova revolução e indicaria a forma como os efeitos especiais seriam usados no cinema no futuro. George Lucas reuniu um grupo de jovens talentos e eles formaram a Industrial Light and Magic, que se tomou na mais importante empresa de efeitos especiais desde então.

O próximo grande passo surgiu com 0 uso de efeitos gerados através de computadores, 0 CGI (Computer Generated Imagery) passou a ser quase obrigatório nas grandes produçöes. TRON de 1982 foi o pioneiro, mas filmes como O Abismo de James Cameron foi dos primeiros filmes a usar realisticamente o CGI, algo que Cameron aprofundaria em O Exterminador Implacável 2, onde 0 Cyborg T-1000 surpreendeu ludo e todos. Porém, 0 filme que revolucionou o uso de CGI foi O Parque  Jurássico de Steven Spielberg, com a visão super realista dos dinossauros a ter um impacto tremendo na indústria. Em 1999, Matrix trouxe uma lufada de ar fresco à forma como se empregam os efeitos especiais em cinema. Com forte inspiração na animação japonesa, Matrix conseguiu representar de forma brilhante a visão altamente estilizada que os Wachowski pretendiam, desde acrobacias que desafiam a gravidade, a abrandamentos e paragens da acção, conhecido como bullet time que passou a ser desde então fortemente copiada.

Também na animação, o CGI teve um impacto profundo. Toy Story da Pixar foi o primeiro filme de animação mainstream a ser totalmente feito em CGI. O sucesso foi tal que a partir daí a esmagadora maioria dos filmes de animação abandonaram o método tradicional de desenho e adoptaram o caminho digital.

Se por esta altura já era banal a representação de mundos, objectos e sequências incrivelmente realistas, a representação de pessoas e/ou criaturas com expressões e interacções realistas ainda era limitada. O odiado Jar Jar Binks em Star Wars: A Ameaça Fantasma deu os primeiros passos na tentativa de recriar um actor totalmente digital, mas foi com Gollum de O Senhor dos Anéis que facilmente uma criatura digital foi representada realisticamente, usando como base o actor Andy Serkis que através da captura de movimentos deu vida e expressão a Gollum. Final Fantasy: The Spirits Within foi o primeiro filme totalmente rodado em CGI com personagens realistas, 0 foto-realismo  foi aumentando com filmes como Polar Express e Beowulf, ambos de Robert Zemeckis.

O que nos reserva 0 futuro destes “truques” cinematográficos? Continuará a dependência que os filmes de grande orçamento têm vindo a ter? Ou a tendência será para usar de forma mais discreta todo este ilimitado potencial? E que novas técnicas e descobertas irão inventar? A verdade é que os feitos especiais já são parte indispensável do cinema actual e, para 0 bem e para 0 mal, moldaram a forma como todos vêem cinema.

Comments
3 Responses to “A Evolução dos Efeitos Especiais no Cinema”
  1. Nordan diz:

    Olá Berto, como vai? Adorei o artigo! Estou atulmente trabalhando em um texto para o mestrado, e nesse trabalho vou passar pelo tema “efeitos especiais e visuais”. Gostaria de saber se teria algum livro, ou outra fonte de coleta de informações, para indicar sobre o assunto.

    Abraços!

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  1. […] audiovisual o programa after effects, que permite criar alguns efeitos especiais que são usados em grandes produções ou em filmes […]



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