Doze anos sem Kubrick

Artigo originalmente publicado na Red Carpet de Março de 2008, na altura chamava-se “Nove anos sem Kubrick” :p

Doze anos já passaram desde a morte de um dos maiores nomes do cinema, o polémico Stanley Kubrick deixou-nos um legado tão rico que deve ser recordado e admirado por todos.

3 de Abril de 1999. Dias após a conclusão da produção do seu mais recente projecto, Stanley Kubrick, um dos maiores mestres da 7°’ arte morre de ataque cardíaco durante 0 sono, contava então 70 anos de idade. O mundo cinematográfico ficou órfão de um homem cuja visão revolucionou, influenciou, ensinou e emocionou a arte que ele tanto amava e por que tanto lutou.

Dotado de uma invulgar visão, um estilo frio, calculista mas surpreendentemente emotivo, os seus filmes eram pensados, planeados e executados com uma tal obsessão e calculismo que Kubrick ganhou fama de ser uma pessoa extremamente exigente e de difícil trato. Tornaram-se lendárias as histórias das dezenas de takes que obrigou Tom Cruise a fazer, da enorme pressão que colocou sobre Shelley Duvall tendo-a levado a uma depressão durante a rodagem de The Shining ou a incompatibilidade com Malcom Mcdowell após 0 término de A Laranja Mecânica. Kubrick acabou rodeado de uma aura de misticismo e na imagem de um velho recluso eremita que escondia a sua genialidade do mundo ou de um megalómano senil. Porém, esse mito alimentado durante os seus últimos anos estava longe da realidade. Se profissionalmente era de facto exigente, pessoalmente Kubrick viveu e dava especial importância a um forte e estável ambiente familiar e leais amizades.

Stanley Kubrick nasceu no dia 26 de Julho de 1928 em Nova Iorque. O primeiro ponto de viragem aconteceu aos treze anos. quando o pai lhe ofereceu uma máquina fotográfica despertando uma nova paixão no jovem Stanley. A partir daí deu inicio a uma irrepreensível carreira, conseguindo vender imediatamente uma das suas fotos à revista Look que acabou por contrata-lo. A sua visão que se evidenciava numa imagem detalhada e minuciosamente pensada e elaborada, foi desenvolvida em grande parte precisamente devido à sua escola no mundo da fotografia. Foi nessa altura, que sem grandes surpresas começou a desenvolver um novo interesse, o cinema.

A sua nova paixão levou-o em 1950 a investir todo o seu dinheiro na realização do seu primeiro projecto, Day of the Fight, um documentário de dezasseis minutos sobre o pugilista Walter Cartier que acabou por ser comprado pela RKO para a sua série This Is America. Nos anos seguintes fez dois novos documentários, Flying Padre em 1951 e The Seafarers no ano seguinte.

Tendo já alguma notoriedade com os seus documentários, o próximo passo era a realização de uma longa-metragem. Novamente com problemas de financiamento, foi com esforço que colocou de pé o seu primeiro filme. Fear and Desire em 1953. O projecto, com uma pequena equipa de dez pessoas não correu bem e culminou com o divórcio entre ele e a sua primeira mulher, Toba Metz. Apesar dos problemas financeiros se terem agravado devido ao facto de não ter conseguido reaver o investimento, o seu talento como realizador foi de imediato reconhecido. Com o seu segundo filme, Killer’s Kiss conseguiu um maior reconhecimento e o trabalho foi vendido à  United Artists que o distribuiu a nível nacional. Em 1955 realizou o primeiro filme para um estúdio The Killing que chamou a atenção pela elaborada estrutura temporal e foi o seu primeiro verdadeiro êxito.

Em 1957, a MGM, já de olho em Kubrick, convidou-o a realizar na Alemanha a adaptação de Paths of Glory, com Kirk Douglas, filme que marcou a emergência de Kubrick como um grande realizador. O filme era uma inteligente e aguçada crítica à prática militar, tendo acabado por tornar-se numa das suas obras máximas e um hino ao movimento pacifista.

A experiência foi tão positiva que Kirk Douglas o convidou mais tarde para substituir Anthony Mann na realização de um épico que estava encalhado, Spartacus, que acaba por ser o seu primeiro Blockbuster. O filme foi um enorme sucesso comercial e crítico, porém terminou com 0 choque entre Kubrick e Douglas. O espírito obsessivo de Kubrick não tolerava o controlo limitado que Douglas lhe impunha. O seu próximo projecto, One-Eyed Jack resultou em novo choque, agora com Marlon Brando. Kubrick abandonou o filme e Brando acabou por ficar encarregue pela realização do westem.

Desencantado com Hollywood e com a América, Kubrick muda-se para a Inglaterra, onde viveu até à sua morte. Passou a trabalhar lá desde então, desenvolvendo e produzindo apenas sete filmes em 30 anos, cada um meticulosamente trabalhado e cada um totalmente diferente do outro.

O seu primeiro filme em solo Britânico foi o controverso Lolita em 1962, uma adaptação do romance de Vladimir Nabokov. Embora Kubrick se tenha queixado das amarras da censura, o filme é visto actualmente como um exemplo extraordinário de comédia mesclada com drama e romance.

Seguiu-se Dr. Strangelove que foi pensado originalmente para ser um filme dramático baseado no livro Red Alert de Peter George, mas que foi convertido numa sátira sobre 0 poder nuclear, o medo e a instabilidade que se vivia durante a guerra-fria. Apesar da sua originalidade, o filme foi um grande sucesso tanto de público como crítico.

Em 1965, Kubrick começou a produção daquele que é considerado por muitos o melhor filme de sempre, 2001: A Space Odyssey. Durando os cinco anos de produção, o filme redefiniu as fronteiras do género da ficção cienfifica e estabeleceu convenções visuais, metáforas e efeitos especiais que permanecem até hoje padrões para a indústria cinematográfica. 2001 fez de Kubrick um ícone cultural. Apesar das confusas críticas na época, tornou-se uma influência estilística para diversos filmes lançados nas décadas posteriores.

O sinistro, polémico, arrojado e censurado A Clockwork Orange. tomou-se o novo projecto de Kubrik. Baseado no ensaio satírico de Anthony Burgess com o mesmo nome, ê uma meditação sobre crime e castigo. Apesar de extremamente violento, o filme leve bastante sucesso sendo até nomeado para vários Óscares. Mas nem tudo foram rosas, durante este período Kubrick viveu umas das mais duras fases da sua carreira. A extrema violência física e psicológica do filme perturba as bases da sociedade conservadora britânica. a censura entra em acção e Kubrick sofre ameaças de morte, tendo mesmo decidido retirar 0 filme de circulação em solo Britânico, feito que perdurou durante décadas.

Nessa altura, Kubrick pertencia a um restrito grupo de realizadores que dispunham de total liberdade nos seus filmes, tendo decidido partir finalmente para a sua antiga obsessão, contar a história de Napoleão. Pesquisa minuciosamente tudo o que pode sobre o pequeno corso e tudo parecia estar bem encaminhado para que nascesse o que ele apelidava de “o melhor filme do mundo”. Mas diversos factores acabaram por o fazer adiar mais uma vez este seu megalómano projecto.

Falhado 0 seu sonho napoleónico, Kubrick virou-se para um romance de W. ‘Thackeray de nome, Barry Lyndon. O filme relatava a ascensão e queda de um irlandês na Inglaterra do século XVII. No geral, o filme foi bem recebido pela critica tendo mesmo sido nomeado para diversos Óscares, mas a recepção não foi tão boa pelo público, rotulando-o de filme lento. demasiado anístico e pretensioso.

Kubrick sempre trabalhou nos mais diversos géneros cinematográficos e sempre com enorme sucesso. No início dos anos oitenta. aposta num dos poucos géneros ainda desconhecidos para ele, o terror, com The Shining, adaptação da obra homónima de Stephen King. Kubrick teve algumas divergências com Stephen King uma vez que 0 escritor norte-americano criticou fortemente a sua versão do livro. O filme foi mal recebido pela crítica durante a sua estreia, porém com 0 passar dos anos tornou-se numa referência do cinema de terror psicológico e um dos filmes mais emblemáticos e icónicos das últimas décadas.

Nesta altura, Kubrick já não se preocupa com 0 tempo e entre The Shining e 0 seu filme seguinte passam sete anos anos. Só em 1987 surge a sua nova obra. Full Metal Jacket sobre a guerra do Vietname é uma das obras cinematográficas fundamentais sobre o conflito do sudoeste asiático. Novo êxito crítico e comertial. Neste período de tempo, Kubrick recolhe-se em casa e raramente é visto em público.

Foi necessário esperar doze longos anos para o seu próximo e derradeiro projecto. Eyes Wide Shut centrou todos os holofotes em Hollywood, para além de representar o regresso de Kubrick juntava o casal do momento, Tom Cmise e Nicole Kidman. O filme polémico e complexo foi censurado nos EUA e recebeu críticas antagónicas. O filme fui exibido ao público já sem 0 seu criador e fechou com chave de ouro uma magistral carreira de 50 anos e apenas 12 filmes.

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