O Legado de Blade Runner

Mais um pequeno artigo que escrevi originalmente para a Red Carpet, mais precisamente para a edição de Maio 2008 quando estreou por cá o Final Cut.

Já lá vão quase 30 anos desde que estreou um dos filmes mais influentes do cinema moderno. Blade Runner regressa com mais uma versão, provavelmente a definitiva, de nome Final Cut. O que tornou Blade Runner tão especial? O que mudou no cinema depois da sua estreia e de que maneira o influenciou?

Corria o ano de 1982, Ridley Scott na altura com 45 anos e após uma estreia muito prometedora na cadeira de realizador, com O Duelo e Alien – O 8° Passageiro é convidado por Hampton Fancher para realizar um filme baseado no conto Do Androíds Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick. Embora inicialmente se tenha mostrado relutante, Scott aceita.

Para protagonista ninguém melhor que a estrela do momento: Harrison Ford. Vinha de sucessos meteórico com os Guerra das Estrelas e Indiana Jones e seria uma peça fundamental para atrair o público às salas de cinema. O resto do elenco incluía nomes como Rutger Hauer, Sean Young, Darryl Hannah, Joe Turkel, Edward James Olmos e Brion James. A relação entre Harrison Ford, Ridley Scott e os produtores foi bastante tumultuosa. Scott era demasiado exigente com a equipa e Ford discordava de alguns aspectos do filme, principalmente da narração que foi obrigado a gravar e do final feliz (com imagens retiradas do filme The Shining e coladas no final das filmagens). Na sua opinião, estes aspectos não representavam uma mais-valia para o filme, muito pelo contrário, opinião também partilhada por Ridley Scott. Na versão Director’s Cut de 1992 a narração e o final foram retirados do filme.

A acção decorre numa Los Angeles distópica de 2019, escura e invulgarmente chuvosa. O horizonte a perder de vista é dominado pelos imponentes arranha-céus de grandes empresas, pela mistela de estilos arquitectónicos, pelo choque entre edifícios requintados e industriais, pela opulência do topo e pela pobreza das ruas. A inspiração em Metropolis é muito forte, principalmente a nível visual, porém em Blade Runner, a cidade tinha alma, funcionando quase como uma personagem da história. Com fortes influências cyberpunk e film noir e um dos percursores do movimento cyberpunk, Blade Runner é mais do que uma junção de estilos, criou o seu próprio estilo. A sua influência é bem visível em filmes como O 5° Elemento, Akira, Dark City, Relatório Minoritário, A.I., Ghost in the Shell e inúmeros videojogos.

Um dos aspectos centrais do filme são os replicantes, andróides criados pelos humanos para os servir nas colónias, uma nova força escrava. Porém, quatro deles revoltam-se, regressam à Terra e este acontecimento acaba por ser o fio condutor para levantar algumas questões morais. O facto de serem criados pelos humanos, torna eticamente correcto destruí-los? Se eles são idênticos a nós, se têm a capacidade de sentir emoções não serão também eles humanos? Ao longo do filme, isto é muito bem explorado na dualidade Deckard/Replicantes. Enquanto os vai “aposentando”, Deckard vai tornando-se mais frio e desligado, o seu refúgio emocional vai acabar por ser, ironicamente, Rachael, uma replicante. Pelo contrário, os replicantes encabeçados por Batty, ao serem confrontados pela sua curta vida e eminente mortalidade, vão tendo acções e reacções humanas através de sentimentos como amor, medo e frustração. A magnífica perseguição final entre Deckard e Batty é exemplo disso mesmo.

Deckard é 0 clássico anti-herói dos film noir, detective solitário, reticente em relação à autoridade e que se apaixona pela femme fatale proibida. Essa femme fatale é Rachael, a única replicante no filme que inicialmente não sabe que 0 é. Ela acaba por ligar-se a Deckard depois dele lhe revelar que todas as suas memorias passadas eram falsas. Pelo contrário, Batty sabe que é um replicante mas acaba por se humanizar no momento da sua morte ao salvar Deckard.

No filme ficamos a saber que foram introduzidas memórias nos replicantes, para que eles se sentissem humanos. São as memórias humanas, mais ou menos reais que a dos replicantes? Que garantia temos que as nossas são reais? Deckard questiona isso, que garantia tem ele que é humano? Estas questões tornaram-se frequentes principalmente depois da versão Dírector’s Cut onde ficou no ar a dúvida se ele próprio seria ou não um replicante. Este lado mais filosófico certamente ajudou que Blade Runner fosse elevado à categoria de filme de culto.

O filme estreou a 25 de Junho de 1982 em 1290 salas norte-americanas, mas a recepção do público foi modesta, encaixando apenas 6 milhões de dólares no fim-de-semana de estreia. A par do público, também a recepção da crítica ficou aquém, sendo bastante maltratado e incompreendido, rotulado de filme lento e acusado de dar primazia aos efeitos visuais em detrimento da história. Embora não tenha sido um sucesso nos Estados Unidos, foi melhor recebido no resto do mundo e rapidamente ganhou adeptos. Tal como um bom vinho, com o passar dos anos, Blade Runner superou o teste do tempo e actualmente é reconhecido como um dos melhores e mais influentes filmes, não só de ficção científica, mas do cinema em geral.

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