Gemini Rue [2011]

Gostam de aventuras gráficas? Jogos indie? De cyberpunk? Blade Runner? Um bocadito de filosofia? Então click away!

As aventuras gráficas tradicionais estão numa situação interessante. Depois de lhe terem declarado óbito há uma década atrás, o género conseguiu dar a volta por cima, transformado-se num nicho com orçamentos reduzidos, centrado num publico mais especializado e não tanto no mercado mainstream onde nos bons velhos tempos a Sierra e a Lucas Arts se degladiavam. Durante a ultima década o género acabou por crescer e surgiram algumas tentativas interessantes de modernizar e retira-lo da sombra do seu passado.

No entanto, no ultimo par de anos as coisas abrandaram, não sei se é algo temporário ou um sinal do que aí vem, mas à excepção de algumas obras de qualidade dúbia provenientes da Alemanha e as aventuras repetitivas da Telltale não há muita coisa que se consiga evidenciar.

É claro que há algumas excepções como Machinarium, The Dream Machine, Gray Matter (em menor escala) e, é claro, o tema desta análise, Gemini Rue.

Gemini Rue é um projecto pessoal de Joshua Nuernberger, publicado pela Wadjeteye (responsável pela simpática série Blackwell). O jogo ganhou alguma notoriedade depois de ter vencido o prémio IGF Student em 2010. Mas na realidade, para o publico em geral, o que mais chamou a atenção em Gemini Rue foi a sua direcção artística carregada de influencias cyberpunk, especialmente reminiscentes de Blade Runner.

É precisamente aí que reside o ponto mais forte, mas ironicamente também o seu calcanhar de Aquiles. A colagem à obra de Ridley Scott é tão marcada que por vezes Gemini Rue não tem espaço para criar uma identidade própria. Aliás, ficou sempre a sensação de que Gemini Rue nunca consegue realmente levantar voo rumo às elevadas potencialidades que desde cedo promete. Visualmente o jogo é lindíssimo mas nunca parece vivo, a atmosfera é irrepreensível mas demasiado artificial, o mundo de jogo é interessante mas a sua escala é minúscula. É injusto criticar Gemini Rue pela sua reduzida escala visto ser um projecto independente duma só pessoa, mas é uma pena que todo o jogo se passe em meia dúzia de locais e tudo esteja convenientemente localizado no mesmo bairro, nas mesmas ruas e nos mesmos apartamentos.

Mesmo sendo outro dos pontos mais fortes, também a narrativa reflecte o seu espírito independente e o baixo orçamento. Ela aborda temas interessantíssimos e aborda-os de forma competente, mas também fica aquela ideia de que poderia ter ido mais longe. São temas que não são habituais ver nesta forma de entretenimento e que me deixaram a salivar por mais complexidade. O papel que as memórias têm no ser humano e na forma como nos definem como pessoa é refrescante. Somos a mesma pessoa sem as nossas memórias e vivências passadas? Passamos a ser uma nova? Que poder têm as pessoas que as controlam e definem quais são as nossas memórias? Gemini Rue por vezes quase que entra em interessantes caminhos filosóficos, mas raramente tem coragem de seguir em frente.

A história em si está bem estruturada entre dois planos narrativos paralelos onde controlamos duas personagens distintas aparentemente sem ligações. O desfecho contém um par de inteligentes twists que alteram de forma radical a percepção que vínhamos tendo dos acontecimentos. Também aí o jogo sofre um pouco devido à sua reduzida escala, já que as personagens são tão poucas que eventualmente é fácil juntar 1+1 e decifrar os segredos da narrativa.

A interface e controlos são o que se espera duma aventura gráfica tradicional, felizmente (para mim) os puzzles aqui passam para 2º plano, são poucos, lógicos e fáceis o que num jogo tão focado na narrativa é a melhor opção. O sistema de investigação é interessante, mas tudo o resto é bastante básico, com um sistema de quatro verbos e um inventário tradicional. Tem um sistema de combate que não é tão intrusivo como inicialmente pode parecer e acaba por passar despercebido.

Os visuais como disse são muito bons tendo em conta o estilo retro que tenta emular, imaginem uma mistura entre a direcção do jogo do Blade Runner com o estilo dum Gabriel Knight. mas fica sempre aquela ideia de que seria ainda melhor se corresse em maiores resoluções. O som é um dos pontos fortes do jogo em especial a música (como podem imaginar muito à lá Vangelis, claro), infelizmente o voice acting não consegue acompanhar o mesmo brilhantismo, bem pelo contrário.

Resumindo e concluindo, Gemini Rue é uma boa aventura cheia de potencial, mas limitada pelo facto de ser desenvolvido por uma só pessoa. A narrativa e os visuais retro acabam por ser os seus grandes motores, sendo que tudo o resto é raramente saí da mediania, no entanto como projecto independente que é, merece ser jogado.

Positivo:
+ História
+ Visuais retro
+ Musica

Negativo:
Voice acting
– Curta duração

Sai do templ… do PixelHunt com:


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