Driver San Francisco [2011]

Vamos recuar dois anos, mais precisamente até à E3 2010, se bem se recordam durante a conferência da Ubisoft (que estava a ser um completo desastre) revelaram o trailer dum novo Driver. Não deu para ver grande coisa, mas só a ideia duma nova entrada na série não me parecia muito relevante nos dias de hoje. A cereja no topo do bolo era a premissa pateta que me fez abanar a cabeça.

Um ano mais tarde o jogo foi lançado, a recepção foi bastante razoável, muita gente dizia maravilhas e fiquei meio perdido, “Que diabos?! Estão a falar do mesmo Driver que eu?”. Fiquei durante este tempo todo com a pulga atrás da orelha e mal ficou a um bom preço no Steam, comprei. E ainda bem que o fiz.

Antes de falar sobre Driver San Francisco não posso deixar passar duas séries de TV, Life on Mars e Ashes to Ashes. As duas séries da BBC têm uma premissa à primeira vista um pouco estranha mas envolta em grande mistério, o protagonista encontra-se em coma, mas inexplicavelmente é transportado para uma diferente realidade (no caso de John Tanner a realidade é a sua mente) onde consegue (ou não?) mudar o rumo dos acontecimentos. É pertinente falar destas séries, especialmente Life on Mars porque é uma das (senão mesmo a) principais inspirações de Driver San Francisco, ainda para mais sabendo que a Reflections é um estúdio britânico. E onde é que este novo Driver se inspira na série britânica? Na premissa e em partes da história, algumas são quase cópias, no entanto de uma forma geral ela acaba por se balançar muito nas restantes inspirações que a série já trás do passado, em especial os filmes de persiguições dos anos 60 e 70 como Bullit, The Driver, The French Connection e por aí fora.

“Mas Berto… mesmo assim a premissa parece bastante pateta para um jogo de carros…” dizem vocês. E dizem bem, à primeira vista a ideia do protagonista estar em coma e conseguir “possuir” todos os condutores (mesmo sendo apenas tudo uma criação da sua mente) em São Francisco realmente parece saída da mente dum mau argumentista, mas a realidade é que Driver San Francisco tem uma história acima da média suportada por uma excelente escrita e um sentido cómico invulgar. Sim, leram bem, um jogo de carros tem melhor escrita que a larga maioria dos jogos que andam aí no mercado e certamente é dos jogos que mais me fizeram sorrir, especialmente por causa dos seus diálogos. Os diálogos quando John entra num carro aleatório são hilariantes. Há inclusive uma série de pequenas narrativas paralelas de “possuídos” que complementam muito bem a trama principal. A escrita é complementada por um excelente voice acting e personagens carregadas de carisma. É surpreendente dizer isto sobre um “simples” jogo de corridas, mas é a verdade meus caros!

Mas o jogo ficou relativamente conhecido pela sua mecânica central e inovadora, o shift. O shift permite a John Tanner (que recordo, está em coma) transformar-se num Deus (Deus da sua própria fantasia) e entrar na mente de qualquer condutor da cidade, abrindo as portas para uma nova forma de jogo que é, posso dizer, revolucionária. As novas possibilidades são tantas que de inicio é bastante complicado pensar e agir dentro dessa nova realidade. Esta nova mecânica abre novos caminhos na jogabilidade, mas também em termos narrativos, há uma brilhante sequência (queria muito spoilar, é mesmo melhor que a presenciem sem saber nada) que utiliza a ideia do shift e que coloca o jogador numa posição completamente inesperada que obriga a questionar o que é real e como funciona aquele mundo. O que a Reflection fez neste campo é digno de nota.

À semelhança de Sam Tyler em Life on Mars, a aventura de John Tanner está carregada de dualidades e conflitos entre o que é real e fantasia, no entanto se na série britânica as coisas eram propositadamente vagas, aqui desde cedo o jogo coloca alguns factos na mesa que retiram algum do mistério daquela realidade. A meu ver acaba por resultar porque um jogo é diferente duma série de TV e os ritmos narrativos são completamente diferentes, Driver San Francisco continua a ser um jogo, é a condução o seu aspecto central e é para isso que grande parte das pessoas compra o jogo.

E que excelente condução que tem. É obviamente um puro arcade e admito que de inicio tive sérias dificuldades com a direcção (eu vinha do Need for Speed: Hot Pursuit que é muito mais preso e pesado na direcção) que é extremamente suave e sensível, em especial na contra-brecagem, no entanto é importante conhecer a forma como os carros se comportam. Depois de perceber algumas particularidades da condução as coisas tornaram-se divinais, especialmente nos drifts.

Logo na primeiras horas achei estranho algumas situações de jogo, falo em particular da IA. Não só nos adversários mas também do trânsito de São Francisco, era demasiado comum encontrar trânsito precisamente à minha frente, especialmente em cruzamentos e intersecções. Exactamente no momento em que eu ia a passar. De inicio até achei piada porque tornava cada cruzamento num “deus nos acuda”, mas à medida que ia avançando no jogo e outra situações semelhantes iam acontecendo (tal como o comportamento da polícia que desafia as leis da física) que fiquei com a pulga atrás da orelha a pensar que havia ali alguma marosca. Com efeito fui investigar por essa net fora e descobri um facto muito interessante, Driver San Francisco tem uma variante dum AI director. E o que é um AI director? Se bem se recordam tornou-se conhecido por causa dos Left 4 Dead e consiste basicamente num sistema que em tempo real consegue ver como o jogador está a jogar e “muda” algumas variáveis para tornar o desafio mais fácil ou difícil. Isso à partida seria bom certo? Nem por isso… É um sistema que até funciona bem num FPS, mas num jogo de corridas nem por isso, porque uma colisão num cruzamento pode estragar toda a corrida e foi precisamente isso que me aconteceu por diversas vezes. E já nem falo da polícia… mãezinha, que policia persistente! Infelizmente por diversas vezes fazem batota para se manterem junto ao jogador e isso retira algum do divertimento. Felizmente tudo isto é apenas um detalhe e não propriamente um defeito, outras pessoas podem gostar deste aspecto por tornar as coisas mais desafiantes.

Quando terminarem a história têm ainda um saco cheio de horas de pequenos desafios espalhados pela cidade, que na verdade são do que mais gozo me deu fazer no jogo. São literalmente centenas de pequenos desafios que variam entre dar saltos, drifts de X metros, ultrapassar X carros, derrubar X obstáculos etc tudo com um sistema de leaderboards (não que vale de muito, para variar aquilo está tudo cheio de cheaters). Mas o ponto mais alto são os diversos “filmes” que como o nome indica são cenas de filmes icónicos que podemos reviver, até colocaram um filtro a simular fita riscada e tudo😀

Como uma surpresa nunca vem só, também o multiplayer me apanhou desprevenido. Vocês sabem que raramente ligo ao multiplayer dum jogo, mas o de Driver San Francisco é diferente do habitual e centra-se nos tais desafios que vos falei. É rápido, divertido e o constante mudar de diferentes mini-jogos torna tudo muito apelativo e viciante. O problema mais relevante é a reduzida população online, nem sempre é fácil encontrar jogadores, algo que já era de esperar num port tardio como este.

Por falar em port… terrível o que fizeram com a versão PC, em especial nos gráficos. Na verdade não tem qualquer efeito post-processing como nas consolas e as cores definitivamente não estão bem calibradas, é tudo muito escuro e por exemplo o Dodge Challenger do Tanner em vez do icónico amarela aqui é… laranja. Felizmente há um pequeno mod, o ENB series que anda a embelezar tantos jogos ultimamente, que melhora um pouco a coisa, mas mesmo assim não o suficiente, já que torna tudo muito saturado. Outra deficiência do port prende-se com a impossibilidade de ligar um volante, pelo menos não consegui usar o meu MOMO no jogo, não sei se acontece o mesmo com as versões de consola. Infelizmente é mais um reflexo da importância que a Ubisoft dá à plataforma.

Isto já vai longo e já passei a ideia central que basicamente é algo do género: Driver San Francisco é um espectáculo e uma extraordinária surpresa! Toca a omprar etc e tal.

Positivo:
+ História.
+ Escrita.
+ Carradas de desafios divertidos.
+ A mecânica do shift.
+ Multiplayer viciante.

Negativo:
– O port para PC é tipo… muito mau.
– IA director é frustrante.

Sai do templ… do PixelHunt com:

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