The Walking Dead [2012]

Depois de aguentar uns meses não resisti e comprei The Walking Dead durante o Halloween. Tem sido tão bem recebido que me deixou muito curioso se é desta que a Telltale finalmente sai da sua zona de conforto. Ainda tenho a série em stand by, o único contacto que tenho com The Walking Dead é o primeiro volume da graphic novel, mas não há problemas porque o jogo é precisamente baseado nela, a série terá o seu próprio jogo lá para o ano, um FPS da Activision. Como é habitual com a Telltale, The Walking Dead é um jogo episódico, já foram lançados 4 deles, o 5º só em Dezembro, à medida que for terminando os episódios irei editar o artigo.



Episódio 1 – A New Day

A primeira coisa que salta à vista: o seu aspecto visual, é bastante evidente que o mesmíssimo e já velhinho motor de jogo da Telltale ainda está presente, mas aqui emularam o aspecto cartoon da graphic novel, o que lhe dá uma frescura que faltava por exemplo ao Tales of Monkey Island ou à série Sam & Max. Esta decisão vem trazer não só uma maior fidelidade com o material de origem, mas também permitirá que os graficos do jogo envelheçam de forma muito mais graciosa.

A segunda coisa que salta à vista: controlos extremamente limitados. Por este episódio dá bem para ver que as influências de Heavy Rain estão bem presentes no estúdio americano, depois do desastre que foi Jurassic Park, a Telltale voltou a apostar num controlo baseado numa variante de QTE, no entanto aqui são aplicados duma forma muito mais orgânica, ao contrário do jogo da Quantic Dreams só surgem nos momentos apropriados. No entanto a realidade é que The Walking Dead tem uma interactividade reduzida de tal forma que mais se assemelha a uma história interactiva e não a um tradicional jogo. É claro que o puzzles estão lá e a herança das aventuras gráficas são bem visíveis, mas não esperem grandes dificuldades e obstáculos porque o essencial é a narrativa, e que boa que é!

Nós controlamos Lee, um professor universitário que aparentemente cometeu um crime, já que se encontra preso num carro da policia. Após uma breve conversa com o policia ambos envolvem-se num acidente que liberta Lee no mundo apocalíptico de The Walking Dead. É claro que não me vou alongar na história porque a piada está em ir descobrindo e desvendando todos os pequenos twists, mas digo-vos apenas que a qualidade da escrita é muito boa! Sabia que a Telltale tinha bons escritores cómicos, mas não sabiam que conseguiam tocar em pontos tão dramáticos.

À semelhança da graphic novel (e da série, calculo eu) o grande foco e ponto de interesse de The Walking Dead são as personagens, as pessoas que habitam este mundo e as relações entre eles. É sempre esse aspecto que eleva qualquer obra sobre zombies para algo mais que uma montra de aspectos técnicos, rumo a uma experiência humana que consegue criar uma ligação com o espectador/jogador. É isso que faz por exemplo The Night of the Living Dead ou Day Z. O grupo de actores que encontramos aqui no 1º episódio é reduzido, mas todos eles têm motivações, feridas e medos que influenciam todo o desenrolar da história, alias por falar nisso, logo de inicio surge uma mensagem que The Walking Dead é um jogo de escolhas e consequências e que as nossas acções irão moldar o desenrolar da história. Será interessante ver se é o caso em futuros episódios.

Mas e de forma geral o que achei do episódio? Gostei muito! Excelente ritmo e como já disse óptima escrita. O episódio está dividido em quatro cenários principais e cada um deles apresenta alguns puzzles, todos eles muito acessíveis, mas sempre realistas e com sentido. Também há intensas sequências de acção onde matamos zombies com QTE, as mortes são surpreendentemente violentas, viscerais e chocantes! Não estava à espera!

Queria falar de mais alguns aspectos muito interessantes (especialmente da relação entre Lee e Clementine) mas vou deixa-los para os próximos episódios, ainda há mais quatro para jogar e estou ansioso para ver mais! Já estou no 2º episódio por isso não deve faltar muito para publicar a segunda parte. Vemo-nos lá então!



Episódio 2 – Starved for Help

Acabei de jogar o segundo episódio e… estou abismado! Estas ultimas 3 horas elevaram The Walking Dead dum inicio promissor para material de jogo do ano!

Nem sei bem por onde começar! Acho que me vou focar no relacionamento entre as personagens, especialmente entre o Lee e a Clementine, uma criança orfã (pelo menos é o que supomos até agora) que ele encontrou no 1º episódio. Clementine acaba por despertar um sentimento paternal em Lee e é fascinante a forma como aos poucos os laços entre ambos se vai estreitando, entrando num campo emocional muito invulgar num videojogo. Como consequência disso o jogador passa a ter que controlar a bússola moral e ética de Lee não só de acordo consigo mesmo mas também de acordo com a Clementine, de forma a lhe ensinar e transmitir esses mesmos ideais.

É incrível como os diálogos e o acting consegue ser tão… realista. Adoro como o silêncio é uma opção de dialogo em algumas conversas e muitas vezes são esses momentos de silêncio onde apenas o olhar fala, que mais consegue transmitir a emoção necessária. O voice acting de (quase) todos complementa e de que forma o realismo que o jogo necessita passar. O tema central deste episódio é a falta de alimento e é brutal a forma como a fome mexe com todo o grupo, como cria divergências, rivalidades e como afecta emocionalmente não só as personagens mas também o jogador, pelo menos a mim afectou.

Mas porque foi este episódio tão bom? Para além da história, dos seus twists e momentos chocantes (e que boa foi a revelação principal) acho que foi a forma como todos os elementos promissores do 1º episódio funcionaram na perfeição. As escolhas começam a ter uma real consequência no desenrolar da história e as diferentes opções de dialogo (que têm um limite de tempo para responder, ao estilo de Alpha Protocol) nos momentos de tensão trazem um desespero e um sentimento de imprevisibilidade às reacções do grupo e às posteriores consequências.

Em termos de interactividade continua semelhante ao 1º episódio, é limitada e a pouca que há chega a ser redundante, falo em especial dos momentos em que somos obrigados a caminhar sorrateiramente, onde não podemos fazer mais nada que andar em frente… não faz sentido e são sequências que deveriam ser apresentadas em cutscenes por mais contraditório que pareça. Mas nesta altura já coloquei de parte qualquer ideia de maior controlo, ao estilo de jogos como Dear Esther ou To the Moon, o foco está em algo que vai além da interactividade, cabe ao jogador colocar isso de parte. The Walking Dead é narrativa. Boa narrativa.

Para concluir, este 2º episódio foi superior ao anterior, na verdade foram as três melhores horas de jogo em 2012, a barra está colocada numa altura assustadora, se os próximos episódios o conseguirem superar então temos aqui o GOTY deste ano.



Episódio 3 – Long Road Ahead

Mais três horas, mas um episódio. Este foi o mais longo até agora mas não por muito. Ontem lancei um “desafio” a este episódio, se fosse melhor que o segundo, The Walking Dead seria um sério candidato a jogo do ano. E então, é melhor?

Talvez? É difícil dizer, em certos aspectos é superior, noutros o segundo episódio foi melhor. Desde logo o ritmo (simplesmente perfeito) do anterior episódio não é emulado aqui, após um bom inicio e um enorme clímax a meio do episódio, o ultimo acto deixou um pouco a desejar, foi demasiado anti-climático e apressado, parece que tiveram de o acabar à pressa. Também a história e a premissa do anterior episódio foi mais interessante, mesmo sendo mais cliché e previsível. Neste terceiro episódio a história vai correndo atrás dos acontecimentos, é uma fuga em frente, uma fuga intensa e dramática é certo, mas falta-lhe o mistério, build up e antecipação do maravilhoso segundo episódio.

Mas isto não significa que no geral tenha sido inferior, porque tem claramente os seus aspectos redentores e as suas virtudes. Este episódio foi tão intenso e tão dramático que fico com receio que tenham gasto todos os cartuchos nestas três horas, parece-me impossível conseguirem ultrapassar isto! O impacto emocional e o choque é simplesmente avassalador e esmagador, a completa imprevisibilidade dos acontecimentos é assustadora (e refrescante, um videojogo é suposto ser demasiado controlado, seguro e previsível). Qualquer personagem pode morrer, tudo pode acontecer e cabe ao jogador lidar o melhor que pode com esse facto, aqui não há certo ou errado, branco ou preto, ao bom estilo da série The Witcher é tudo cinzento, não há acções e respostas certas ou erradas. E todo este choque funciona porque as personagens são bem escritas e interpretadas, levando a uma fácil ligação emocional com o jogador. Podem não ter carisma ou aspectos redentores (e alguns até têm) mas criamos uma empatia com todos eles (até os que parecem inúteis) porque são realistas, comportam-se como pessoas normais e (eu pelo menos) fico triste em perde-las e abalado quando sofrem.

Este episódio pareceu-me o que mais alterações pode ter de acordo com as nossas acções. As escolhas são consideráveis e fiquei com enorme curiosidade de voltar a jogar e fazer escolhas distintas, porque o estado das coisas no final muda de forma substancial, com a série de diferentes escolhas que estão disponíveis.

Concluindo, excelente episódio, The Walking Dead está a ultrapassar e de que forma as minhas expectativas, mas estou com receio do rumo que vai tomar no quarto episódio, como disse tenho medo que tenham gasto todos os cartuchos neste episódio. Vamos ver o que me reserva!



Episódio 4 – Around Every Corner

Meus caros, mais um episódio! Cheguei à parte fatídica de ter que esperar semanas para que o próximo (e derradeiro) episódio chegue… vai ser duro, The Walking Dead está-me a conquistar e de que forma!

Antes de mais deixem-me falar de algo que me esqueci de abordar no episódio anterior, o motor de jogo e o peso da sua idade. É pena que a Telltale continue a apostar no mesmo motor porque The Walking Dead é demasiado ambicioso para a idade avançada do motor. Falo em especial do final do 3º episódio onde todos os acontecimentos em simultâneos no ecrã engasgaram o jogo, já para não falar dos truques usados para dar a volta a este problema, como as dezenas de zombies em 2D nos fundos.

Há dias atrás tinha referido que tinha medo que a Telltale tivesse gasto todos os cartuchos no 3º episódio, especialmente em termos emocionais, e de facto este episódio teve algumas dificuldades em me chocar e surpreender (à semelhança dos protagonistas também estou a ficar imune aos choques emocionais) mas a meu ver está muito mais bem montado e de forma geral tem muito mais sumo que o anterior ou se calhar que todos os outros. É surpreendentemente menos negro que os anteriores e em algumas partes tenta assustar o jogador dando-lhe a entender que algo de mal vai acontecer e… não acontece! O que acaba por ser refrescante depois da porrada psicologica e emocional que levámos. De certa forma o jogo sabe que o jogador está a ficar anestesiado a todas as tragédias e desta forma consegue surpreende-lo… de forma inversa.

Eu sei que não ia insistir no tópico do gameplay e interactividade, mas não posso deixar de passar algumas situações. Durante certas alturas dou por mim com as mãos pousadas no rato e teclado durante longos e longos minutos mas… sem fazer nada… apenas a ver cutscenes. Muito provavelmente o jogo iria sofrer por ter mais secções tradicionais de jogo (nada é pior para a imersão num jogo destes do que ficar preso durante horas a resolver puzzles enquanto os zombies atacam) e quebraria algum do realismo, mas acho que seria possível chegar a um meio termo, não sei.

O final do episódio vai mudar de acordo com as acções do jogador, há uma série de variáveis que decide quem sobrevive e quem fica ao lado do Lee. São dezenas e dezenas de escolhas feitas ao longo do jogo, mas a história em si não muda com as nossas acções, o seu rumo é inalterável, como tal vejam as coisas mais como um Mass Effect do que um The Witcher 2. No que se diferencia de Mass Effect por exemplo, são as escolhas que embora sejam quase sempre binárias, nunca apresentam extremos, não há certo ou errado, bom ou mau nem dualidades morais, o que é muito bom.

Agora é esperar umas semanas pelo 5º episódio, o que vai ser uma tortura depois deste cliffhanger, mas prevejo muito apertos no coração e olhos húmidos =(



Episódio 5 – No Time Left

Chegou hoje o derradeiro episódio desta 1ª temporada e despachei-o em duas horas. Sim é de longe o episódio mais curto do cinco.

A previsão que fiz no final do anterior episódio confirmou-se, muitos apertos no coração e lágrimas. O final esteve dentro do que estava à espera, mas a sua execução, em especial no derradeiro dialogo foi de partir o coração. Todo o episódio foi apenas uma desculpa para chegar a esse momento e quase nunca teve grande profundidade, foi apenas um caminho para chegar ao que realmente interessava. Aliás o inicio até foi a meu ver bastante decepcionante porque tornou um pouco irrelevante o desfecho do 4º episódio. Mas de resto não tenho muito mais a apontar, foi o final que o jogo merecia e se calhar perderia o seu impacto se estendessem a sua duração com palha e puzzles.

Anteriormente critiquei os puzzles por serem demasiado acessíveis, mas dou o braço a torcer, The Walking Dead destrói as amarras que as aventuras gráficas sempre sofreram com os puzzles. A Telltale transformou os puzzles em partes integrantes da narrativa, nunca caindo nas armadilhas de que as aventuras gráficas invariavelmente caem.

Entretanto, enquanto esperava pelo lançamento deste 5º episódio andei a ver a série de TV que tem sido igualmente uma excelente experiência. Obviamente a série durante a 2ª temporada teve pernas para crescer para territórios que o jogo naturalmente não consegue crescer, especialmente no tempo de antena das personagens, mas se há um campo em que o jogo se mantém indestronável é na relação entre o Lee (jogador) e a Clem e nas especificidades próprias deste meio, já que temos interacção e controlo sobre parte da história.

Não tenho muito mais a dizer, por esta altura já iria estar a repetir o que já disse nos outros episódios. Digo só que The Walking Dead é uma experiência portentosa, o que lhe falta em interactividade e jogabilidade compensa em narrativa e emotividade. É certamente o jogo que mais gostei este ano e entra no grupo restrito de jogos que me afectou emocionalmente.

Sai do templ… do Pixelhunt com:

400 Days

400-days

O meu GOTY de 2012 recebeu esta semana a sua primeira expansão depois dos excelentes cinco episódios do ano passado. Chegou de mansinho sem grande alarido o que acaba por ser estranho depois de tantos prémios no ano passado.

Este novo episódio difere dos anteriores já que opta por contar cinco pequenas histórias isoladas que se interligam no final. Cada mini-história tem as suas próprias personagens e dura em media cerca de apenas 30 minutos, o que pode parecer curto (e é) mas surpreendentemente até acaba por resultar em termos narrativos. A escrita continua bastante boa e a prova disso é como conseguem criar personalidades bem vincadas em personagens com um reduzido tempo de antena. Mas se a coisa resulta bem no campo narrativo, em termos de jogabilidade nem por isso. The Walking Dead sempre foi um jogo com uma reduzida interactividade, mas este 400 Days retira e simplifica ainda mais controlo das mãos do jogador. Cada historia tem uma secção de gameplay mas extremamente curta, o foco vai naturalmente para os diálogos e os sempre fantásticos dilemas com que somos apresentados.

Como já referi, as cinco historias são bastante interessantes e as nossas decisões de certa forma têm influência na forma como as personagens vão tomar decisões no ultimo acto. Infelizmente é precisamente nesse ultimo acto onde todos se juntam que a meu ver se encontra o ponto mais fraco em termos narrativos de 400 Days, é demasiado curto, apressado e anti-climático. Se tivesse a garantia que a historia destes sobreviventes teriam uma continuação até deixaria passar, mas infelizmente não me cheira que isso vá acontecer.

No final das contas 400 Days acaba por ser um bom desfecho para The Walking Dead, um interessante complemento da história original (embora tenha sentido falta de Lee e Clementine) e uma prova que a Telltale tem talento para contar mais histórias de qualidade dentro deste mundo. Anseio pela sequela.

Comments
6 Responses to “The Walking Dead [2012]”
  1. V diz:

    É um grande jogo. Também joguei pela primeira vez ontem e estou a escrever a minha análise.

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