Sleeping Dogs [2012]

Há jogos que ficam marcados por curiosidades, factos e episódios que ocorreram durante o processo de criação, tipo Devil May Cry foi pensado para ser uma sequela de Resident Evil, ou Silent Hill 4 não ia ser um jogo da série Silent Hill. No caso de Sleeping Dogs ele ficou mais conhecido porque anteriormente, quando ainda estava a ser desenvolvido dentro da Activision, era o terceiro capitulo da série True Crime. Após alguns problemas de produção a Activision deixou de financiar o projecto da United Front Games, levando a Square Enix a pegar no que já estava feito. Como a licença do nome True Crime ficou na Activision, surgiu o novo nome Sleeping Dogs e na prática um novo IP.

A premissa de Sleeping Dogs é simples mas apelativa, é a típica história do policia infiltrado, bem ao estilo de Infernal Affairs que certamente foi uma inspiração. Na verdade a United Front Games inspirou-se no cinema de Hong Kong em geral para criar o ambiente da cidade e chovem referências por todo o lado. Mas voltando à história, Wei Shen é um policia que se infiltra nas tríades de Hong Kong para desmantelar a organização, no entanto Wei tem um passado complicado porque cresceu rodeado por aquela realidade antes de emigrar para os EUA e acaba por entrar num conflito interno entre a lealdade dos dois mundos.

Infelizmente a história acabou por ser uma desilusão, não porque seja má ou mal escrita (e não é) mas por todo o potencial desperdiçado. Havia aqui matéria prima para muito, muito mais, ainda mete mais pena quando vemos que a qualidade da escrita é acima da média e o voice acting e interpretações dos protagonistas (os secundários e figurantes é outra história) é impecável, o talento vocal é de renome e isso transparece na qualidade dos diálogos. No entanto Sleeping Dogs, mesmo com estas virtudes e com a premissa prometedora acaba por cair nos típicos problemas de jogos sandbox herdeiros de GTA, muitos arcos narrativos paralelos, demasiadas personagens e um protagonista que acaba por agir de forma oposta aos valores morais que segue. Não é uma situação tão escandalosa como a do Niko Belick, mas é pena ver Wei Shen a cometer actos atrozes quando na realidade ele nunca os faria, mesmo tratando-se dum policia infiltrado.

Precisamente por ser um policia infiltrado eu esperava mais da história e do inevitável conflito interno do Wei entre manter-se leal à força policial e entrar no jogo das tríades. É certo que o jogo por vezes arranhou essas temáticas, mas sempre de forma muito leve, sendo que no final quase nunca mais voltaram a tocar no assunto e Sleeping Dogs transformou-se numa típica história de vingança sangrenta digna dos filmes de acção de Hong Kong, que a bem da verdade é a inspiração que o jogo sempre quis seguir.

Essa dualidade entre policia e gangster é central no jogo e na sua progressão, a história é composta por dois tipos de missões que contam duas histórias que se cruzam em vários pontos. As missões em si são interessantes no entanto extremamente rígidas e segmentadas. O jogo não dá espaço para qualquer pensamento próprio do jogador e explica-lhe tudo o que deve fazer de tal forma que me fez sentir como um macaquinho amestrado. Falta-lhe a liberdade dum Just Cause 2 que dá ao jogador todo o tempo e espaço para abordar os objectivos como bem entender. O espírito mais linear das missões enquadram Sleeping Dogs num campo mais próximo da série Mafia, no entanto nunca atingem o mesmo nível de criatividade.

Sleeping Dogs é um perfeito exemplo dum jogo que tenta tudo para ver se funciona. Em termos de mecânicas a United Front Games foi emprestar diversos elementos de outros jogos e tentou fazer um cocktail, com esperança que no final resultasse num bom jogo. E a verdade é que conseguiram, em parte. O jogo tem uma série de diferentes mecânicas e é competente em quase todas, no entanto não consegue realmente brilhar em nenhuma em particular. O sistema de combate corpo a corpo é obviamente inspirada pela série Batman da Rocksteady mas não é tão boa. O sistema parkour é inspirado pela série Assassin’s Creed mas… não é tão boa. O sistema de missões é inspirado pela série GTA, mas… adivinharam, não é tão bom e por aí fora, acho que perceberam a ideia. Repito, é um jogo competente, não está em causa a sua qualidade (o sistema de combate corpo a corpo é realmente muito bom) mas fica a ideia que é mais uma colagem de diferentes jogos e diferentes ideias faltando-lhe uma identidade própria, especialmente em termos mecânicos.

Isto porque em termos visuais transborda identidade, Hong Kong é maravilhosa e é uma lufada de ar fresco passear por uma cidade oriental, algo que infelizmente escasseia em jogos deste estilo. Os jogos de cores berrantes dos neons a reflectirem no chão molhado das ruas, o impressionante detalhe da arquitectura da cidade (os gráficos são muito bons), a mistura de diferentes culturas e estilos transformam Hong Kong numa das cidades mais fascinantes que já joguei. Mas não é tão… viva e atarefada como Liberty City por exemplo e mesmo tendo uma considerável verticalidade não chega aos pés das cidades de Assassin’s Creed. A ilha é relativamente pequena em comparação com mundos de jogo gigantes como Just Cause 2, mas é bem preenchida, o que é definitivamente o mais importante. Só é pena que a liberdade de exploração seja bastante restrita.

Podem esperar mais de 20 horas para terminar a história e as missões secundárias, o que é uma óptima duração para este tipo de jogo, para além do mais há uma série de desafios coleccionáveis que muito gostei, principalmente porque são relativamente fáceis o que torna a busca por achievements muito viciante.

Há muito mais coisas para falar como o rudimentar sistema de leveling up, os diversos perks que melhoram atributos, o combate com armas de fogo que deixa muito a desejar, o comportamento arcada dos veículos que é muito divertido e por ai fora, mas acho que abordei o essencial, Sleeping Dogs não é nenhuma obra prima mas não deixa de ser muito competente e um dos melhores jogos sandbox herdeiros de GTA dos últimos anos, só não esperem muita liberdade, esta é uma experiência mais focada e linear. Mas acima de tudo foi uma óptima surpresa, tendo em conta que esteve muito perto de nunca ver a luz do dia.

Positivo:
+ Hong Kong
+ Visuais
+ Voice acting e interpretações
+ Muito conteúdo

Negativo:
– Potencial narrativo desaproveitado
– Rigidez das missões

Sai do templ… do PixelHunt com:

Comments
One Response to “Sleeping Dogs [2012]”
  1. É engraçado que com o tempo os herdeiros de GTA (e mesmo este) foram se esquecendo da 2ª maior novidade que o GTA3 trouxe: a liberdade que temos para completar as missões. Afinal de contas, para que é que temos o mundo aberto?

    Apesar disso, concordo contigo. Hong Kong é uma grande lufada de ar fresco neste género. Numa altura em que toda a gente quer fazer experiências mais imersivas, os contrastes enormes de HK dão ao jogo um aspecto muito, mas muito fixe😛 É uma das minhas coisas favoritas do que já vi deste jogo.

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