Max Payne 3 [2012]

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Seria sempre uma tarefa ingrata para mim, um fã da série Max Payne, falar desta terceira incursão. É impossível ser imparcial, ainda mais com toda a história que este jogo teve durante a produção e com a mudança de developer da Remedy para a Rockstar. Por mais que não quisesse já tinha uma  imagem negativa formada há muito tempo que me impossibilitou vê-lo e analisa-lo de forma justa. Por isso se quiserem ler uma opinião imparcial e fria podem parar por aqui e ignorar o resto do texto.

É muito fácil cascar em Max Payne 3, é um jogo que não se importa se é ou não fiel ao legado e quer-se afirmar como um bom jogo por si só, e a verdade é que de certa forma consegue-o fazer e tenho de tirar o chapéu à segurança e confiança com que a Rockstar abordou este jogo. Embora diga já agora que Max Payne 3 é um terrível Max Payne, digo também que é igualmente um jogo interessante que merece ser jogado, falado e analisado. A realização de que Max Payne 3 até é um jogo decente fez-me constantemente questionar porque raio a Rockstar não criou aqui uma nova IP, é claro que sei porque não o fizeram (€€€€) mas a meu ver a utilização do nome Max Payne acabou por ser um empecilho e um estorvo.

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Eu já falei há tempos do Max Payne e do Max Payne 2 e até tentei dissecar as sua principais referências, inspirações e temáticas, ou seja as fundações da série. Falo das influências das graphic novels, do noir, dos policiais dos anos 70, da mitologia nórdica, do surrealismo “Lynchiano”, dos tiroteios à John Woo e Matrix, etc. São estes elementos que moldaram a série, sem eles Max Payne nunca existiria e sem eles perde a sua identidade. Max Payne 3 abandona essas fundações e decide tentar algo de novo, não me interpretem mal, acho óptimo que o faça para evitar cair numa inevitável estagnação, mas questiono se fazê-lo desta forma não o acaba por descaracterizar. Há exemplos na industria de situações semelhantes que resultaram e de que forma, por exemplo o corte que existiu na série Call of Duty depois do Modern Warfare, que acabou por rejuvenescer a série e iniciou um autentico reinado da série da Activision. Mas as temáticas de Call of Duty muito basicamente giram à volta de um único tema: guerra. É relativamente fácil fazer uma transição deste estilo. No caso de Max Payne, uma série tão alicerçada em elementos narrativos, uma descaracterização tão violenta como a que está presente em Max Payne 3 simplesmente não resulta.

Essa descaracterização não se reflecte tanto no gameplay, que se manteve relativamente fiel tendo conta a diferença de gerações (já lá vamos) mas essencialmente em dois factores: protagonista e setting ou ambiente.

Max Payne 3 foi desenvolvido por uma equipa completamente nova, ou seja a Rockstar em vez dos criadores originais, os finlandeses da Remedy. Isso significa que também os escritores não são os mesmos, logo Sam Lake já não esteve envolvido no processo criativo. A personagem do Max Payne é uma criação de Sam Lake, originada através duma mescla de diferentes referências, foi ele que lhe deu uma história, uma personalidade e um comportamento que reflectisse isso mesmo, consequentemente o jogador passa a conhecer o Max, as suas virtudes, os seus medos e desejos e a forma como ele se relaciona com o mundo. Os escritores da Rockstar não sabem, ou se sabem decidiram não escrever o mesmo Max para o seu jogo. Este Max é uma pessoa diferente, uma nova personagem que enverga o mesmo nome, quase como se fosse uma caricatura (duma personagem que por si só também o era) feita por alguém que apenas tem como material de origem diversos bullet points do que deveria ser Max. A personalidade, os comportamentos, as decisões e tudo o que está associado, está de tal forma descaracterizado que nunca consegui ver Max durante todo o jogo. “Ah mas o Max mudou, caiu numa depressão, etc e tal, é normal que esteja diferente!” É verdade que mudou, mas a própria mudança não faz sentido, o verdadeiro Max não chegaria a este ponto, a própria “queda” a meu ver é um traço que vai contra o final do Max Payne 2, onde ele atinge a redenção e se encerra a sua história.

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A par da personagem, também o setting e todo o ambiente levou uma mudança de 180º. A Rockstar decidiu abandonar as temáticas que alicerçavam a série e construir novas fundações. Longe vão as temáticas que referi antes, Max Payne 3 abandonou a influência das graphic novels, do policial e do noir e entrou num mundo cinemático de Michael Mann, Tony Scott e da nova vaga do cinema brasileiro de Fernando Meirelles e José Padilha. Longe vai a Noir York em substituição da Cidade de Deus, longe vão as tonalidades azuis e negras substituídas pelo branco e laranja, longe vão as temáticas nórdicas, longe vai Max Payne… Max Payne 3 não é um Max Payne. Porque razão mantém o mesmo nome? Porque não criar uma nova IP? Chamem ao jogo… sei lá… Hot Blood. Pronto! já têm uma nova IP, cheia de futuro e muito prometedora para futuras sequelas. A questão aqui não é a qualidade do novo setting, como é tradição na Rockstar está bem montado e há uma evidente qualidade, a questão é que (chamem-me velho do Restelo) não é um Max Payne. A Rockstar colocou alguns elementos dos jogos originais como o tema musical icónico e um par de missões em Nova Iorque mas o tiro acabou por sair pela culatra porque apenas espicaça a nostalgia do jogador. Lembram-se daquele aborto o Bomberman: Act Zero para a Xbox que basicamente dava novas roupagens ao clássico tornando-o todo moderno e tal. Foi ridicularizado porque ia contra a essência de Bomberman. Imaginem jogar Mario numa situação idêntica, ou qualquer outra série popular. Simplesmente não funciona e o mesmo se passa com Max Payne 3, pelo menos comigo.

Mas o twist da coisa é que Max Payne 3 é um jogo extremamente competente, muito ajudado pela habitual qualidade da Rockstar. A história sofre de alguns problemas, em especial no seu ritmo e na forma como salta constantemente de cenário, provavelmente tentando manter o interesse do jogador com short attention span, em detrimento duma historia coesa, mas mesmo não tendo qualquer temática da mitologia da série ela é interessante e foca-se noutras temáticas igualmente interessantes. O jogo é muito self aware e isso foi importantíssimo na forma como o aceitei. Os comentários que o jogo faz ao papel do Max neste novo mundo, uma relíquia do passado que mata ao serviço de quem mais paga, traça óbvios paralelismos com a própria franchise nos tempos modernos. O próprio Max, um estúpido gringo numa terra distante que mata tudo o que mexe, que falha e só carrega em botões cometendo decisões erradas traça paralelismos com o imaginario dos EUA no mundo e com a mentalidade americana.

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Mas há sempre um problema e que grande problema que a história tem. As malditas cutscenes são insuportáveis. A questão nem é a enorme quantidade, mas sim como uma grande parte delas é irrelevante! Muitas delas mostram o Max a percorrer um corredor ou a abrir uma porta… porque não posso eu fazer isso no jogo? Porque estão constantemente a intercalar poucos segundos de gameplay com cutscenes? Porquê? Mas a cereja no topo do bolo é o facto de a maior parte delas não dar para saltar! Aparentemente todos os loadings do jogo estão escondidos nas cutscenes, no primeiro playthrough a coisa até funciona porque queremos seguir a história, mas em posteriores visitas e nos desafios arcade a coisa torna-se num autentico pesadelo. Numa enorme frustração. A única forma de sair duma cutscene de minutos é esperar ou dar-lhe um valente Alt+F4 e reiniciar o jogo, é mais rápido assim! Ah e ainda nas cutscenes… que génio é que teve a ideia de colocar carradas e carradas de filtros em cima? Não é cool nem é artístico. É horrível. Já para nem falar das citações aleatórias que aparecem lá no meio, é pateta.

Felizmente o combate é bastante bom, na verdade manteve-se bastante fiel aos jogos da Remedy, tendo obviamente em conta as diferentes gerações. De forma geral a transição entre jogos é bastante suave neste campo, mesmo com um importante foco no combate com cover que acaba por estragar um pouco aquele lado arcada dos originais. Ao contrario de grande parte dos ports de consola para PC a mira é extremamente precisa e suave tornando relativamente fáceis os headshots. É no entanto pena que os encontros sejam bastante previsíveis, já que são quase todos à base de pequenas arenas intercaladas por corredores O bullet time continua presente como é óbvio e funciona mais ou menos como se esperaria, tornando muitos encontros em autênticos bailados mortais, especialmente quando pautados pela excelente banda sonora, é realmente muito boa, se bem que bastante distinta da dos jogos anteriores.

Por falar na sonoplastia, o voice acting é de forma geral de elevada qualidade (no entanto alguns sotaques brasileiros estão estranhos) em especial a do James McCaffrey que mais uma vez regressa como Max. O guião é diferente e por arrasto também a sua personagem difere da dos jogos da Remedy (como já referi antes) mas ninguém melhor que ele sabe como o Max deve soar, e nesse aspecto é perfeito. Em termos técnicos, Max Payne 3 é muito competente, especialmente na optimização e no modelo do Max, o cabelo e a barba estão incríveis, de longe a melhor barba da industria😀 Infelizmente o resto dos modelos variam muito de qualidade, sendo frequentemente de baixa qualidade, especialmente as mulheres.

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Para além da história irão encontrar também os desafios arcade onde o objectivo é completar os níveis no mais curto espaço de tempo, junto com leaderboards e tudo mais. Mas tudo isso vai por água abaixo por causa das já referidas cutscenes e especialmente por causa dos cheaters que povoam as leaderbords e tornam tudo completamente irrelevante.

Para os interessados Max Payne 3 também tem multiplayer. Como sabem não ligo a isso mas mesmo assim ainda andei cerca de uma hora à volta disto… mas é escusado. Simplesmente não sou suficientemente bom nem tenho a paciência e a vida para andar dias e dias e melhorar. Como tal a minha experiência passou basicamente por andar mais tempo à espera de fazer respawn do que a jogar. Não ajuda o facto de alguns mapas serem tão pequenos que os experientes ficam nos pontos de respawn à minha espera, e nem vou falar do horrível sistema de matchmaking que me coloca no meio de jogadores com níveis imensamente superiores ao meu. E sendo este um jogo que usa perks tipo Call of Duty andava eu a jogar contra pessoal cheio de perks e o caraças que os tornavam mais resistentes a morrer. Oh como odeio multiplayer….

Bom… fuck isto já vai para aqui uma parede do catano. Despeço-me então dizendo muito resumidamente o que tentei dizer nas carradas de parágrafos atrás. Bom shooter, mau Max Payne.

Positivo:
+ Gráficos e optimização
+ Combate gratificante
+ Banda sonora❤

Negativo:
Setting e ambiente descaracterizado
Cutscenes e loadings

Sai do templ… do PixelHunt com:

Comments
One Response to “Max Payne 3 [2012]”
  1. Numa só frase disseste tudo…

    “Bom shooter, mau Max Payne.”

    Irrita-me solenemente o pessoas que diz o contrário. Só existe uma razão para isso nunca jogaram os anteriores.

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