A Silhueta de Columbia

bioshock

Atenção! Este pequeno artigo está carregado de spoilers. Se ainda não jogaram Bioshock Infinite, por favor guardem esta página nos favoritos ou algo do género mas vão-se embora e não leiam nada do que se segue. Este é um jogo que vive quase exclusivamente da sua narrativa e seria uma enorme irresponsabilidade ler spoilers que possam vir a desvendar a história. Estão avisados.

Já sabem que gostei do Bioshock Infinite ao ponto de quase lhe ter dado nota máxima. O universo, mas especialmente a narrativa e todas as temáticas que a compõem estimularam o meu intelecto, coisa rara nesta industria, e fê-lo de tal forma que senti alguma esperança pelo futuro dos chamados jogos AAA (o mercado indie felizmente germina de criatividade). É um prazer ler, falar e discutir sobre o jogo e todos os seus significados, algo que hoje em dia é tão difícil fazer. E gostei tanto que me vi obrigado a escrever, escrever sobre qualquer coisa em relação ao jogo. Antes de o ter jogado quando bookertropeçava por entre as diversas previews, análises e artigos de opinião era frequente ler que o jogo na realidade era sobre a personagem da Elizabeth, que ela era a verdadeira protagonista e a estrela da aventura. Vejo-me obrigado a questionar, mas que jogo eles jogaram? Desconfio seriamente que o próprio pessoal da Irrational tenha escondido a importância do seu protagonista e centrado as atenções em Elizabeth precisamente para criar um efeito de surpresa no jogador. Lembro-me inclusive duma polémica que envolvia a capa do jogo em que muita gente ficou indignada por a suposta protagonista ter sido relegada para a parte de trás da caixa para dar lugar ao “genérico homem-branco-de-arma-em-punho”.

Mas não me interpretem mal, eu gostei da Elizabeth e acho-a uma personagem extremamente interessante, mas Bioshock Infinite É Booker DeWitt/Zachary Comstock. É ele o corpo do jogo, o resto move-se à sua volta da mesma forma que James Sunderland é Silent Hill 2 ou o Walker é Spec Ops: The Line. Ouvi também muita gente a dizer que a estrela do jogo é na realidade a exótica cidade de Columbia, orgulhosamente só por entre as nuvens, ou que as temáticas que a alicerçam como o racismo e a ideia da superioridade americana definem o jogo em si. Mais uma vez, nada mais errado, Columbia e a forma como está montada é uma materialização de todas as escolhas e decisões que o protagonista fez após o traumático  massacre de Wounded Knee.

Essa escolha (o seu baptizado) definiu não só o futuro do protagonista, mas de todos os acontecimentos de Bioshock Infinite. Quem já jogou (caso contrário que raio ainda estão aqui a fazer no meio dos spoilers? Eu disse para se irem embora!) conhece a história e a ideia das diferentes realidades e linhas temporais, não me vou alongar por ai, não é disso que quero falar. Quero-me apenas centrar na personagem em si e na forma como Booker DeWitt eleva o jogo para algo de especial. Esse momento em que a linha temporal se divide em duas, e consequentemente em milhões de diferentes realidades, vai definir todos os elementos que compõe o jogo, incluindo os aspectos de que tanta gente aplaudiu e gostou como Elizabeth/Anna e Columbia.

Quero falar primeiro sobre Columbia. O que é Columbia? À semelhança de Rapture é uma utopia criada por um homem, um bastião de valores que se viu obrigada a afastar-se da sociedade para prosperar. Se Rapture se alicerçava em valores fundados pelo objectivismo, onde o Homem é e deve ser sempre a figura central, Columbia é regida por valores opostos muito claros. Racismo, exploração, nacionalismo e religião. Tudo em Columbia é moldado à volta destes quatro pilares sagrados, são o ar que faz a cidade respirar, qualquer quebra dum destes valores significa a morte da utopia. A revolta dos Vox Populi derrubou estes valores e o resultado não foi uma mudança de regime ou de lideres, ou mesmo uma adaptação da cidade a novos valores, mas sim o fim definitivo do sonho de Comstock.

Mas qual a génesis destes  valores? A origem está precisamente no baptismo. Ao aceitar o baptismo, DeWitt transforma-se em Zachary Comstock e todos os sentimentos, vivências e traumas que recebeu da batalha de Wounded Knee vieram ao de cima, moldando uma nova personalidade, um homem fanáticamente religioso, ultra-nacionalista e racista. Quando anos mais tarde conhece a física Rosalind Lutece que lhe dá a possibilidade de construir uma “nova arca” entre as nuvens, não é de estranhar que esses valores germinados no campo de batalha tenham sido o modelo de Columbia.

baptism

Vamos observar Columbia duma forma física e estrutural, o que mais salta à vista? Todos os principais monumentos e localizações são nada mais nada menos que símbolos da vida de Comstock e fracturas da de Booker. Monument Island simboliza Anna/Elizabeth, a responsável pela conexão entre ambas as realidades. Em último caso simboliza a mortalidade de Comstock, mas também a perda e os “pecados” de Booker. As industrias do Finkton simbolizam naturalmente a opressão e a exploração que ajudaram a ascensão do poder de Comstock, o Hall of Heroes simboliza a divisão interna de Booker e é de extrema importância porque materializa a dualidade do protagonista. Emporia para além de albergar os cidadãos mais abastados de Columbia simboliza todos os segredos de Comstock, desde Rosalind e Robert Lutece, as quebras do espaço e tempo e respectivas mortes, passando pelo segredo do seu “cordeiro” Elizabeth e terminando na morte da sua mulher, obviamente da sua responsabilidade.

O culto da personalidade (o pilar religioso) veio por arrasto e é uma base fundamental na sobrevivência da cidade em termos sociais. Através da quebra do espaço e do tempo, Comstock conseguiu ver o futuro de comstockdiferentes realidades e assim proferir as famosas profecias com as quais a sua religião se sustenta. O resultado dessas experiências que permitiram a sustentação do culto foi uma deterioração física  do próprio Comstock, de tal forma que lhe acelerou o envelhecimento e o tornou estéril. Essas causas são o catalisador para Bioshock Infinite porque o obrigou a cruzar linhas temporais para encontrar uma filha de sangue, sua  filha na realidade em que recusou o baptismo. E ela é Anna, ou Elizabeth.

Se Columbia é um retrato de Comstock, Elizabeth é um espelho para Booker. A sua breve passagem por Monument Island onde encontra Elizabeth, a “rapariga que lhe pagará as dividas” é importantíssima porque lhe mostra (ainda que de forma inconsciente) tudo o que perdeu ao vender Anna vinte anos antes. A subida rumo à cabeça do enorme anjo que vigia Columbia é uma viagem que mostra a Booker tudo o que não viveu com a sua filha e o resultado das suas “dividas”. Elizabeth é importante para a história porque é a ferida aberta de Booker e o seu maior pecado. Ao vender a própria filha no auge da sua decadência física e moral, Booker falha como pai e como pessoa, a passagem de Anna pelo portal entre realidades naquele beco cinzento aos braços de Comstock, simboliza na perfeição esse mesmo falhanço, mostrando que o protagonista é na verdade um homem extremamente imperfeito que, como todos nós, também falha. É uma enorme lufada de ar fresco poder ver um protagonista que foge à perfeição tão típica dos heróis de ficção.

Elizabeth acabará por ser determinante para Booker porque é o catalisador da sua redenção, não só pela busca duma absolvição das suas “dividas”, mas pelo desejo de que a sua filha não se transforme na outra escolha que ele não fez no baptismo. O destino de Elizabeth é seguir os passos dos seus dois pais, falhar como Booker, e transformar-se num reflexo de Comstock. Booker redime-se e salva-a dum terrível destino que tinha sido escrito pelas suas próprias acções e erros. É um circulo narrativo delicioso e que para mim é umadas maiores qualidades do argumento escrito pelo Ken Levine.

Podia estar aqui a falar sobre uma série de diferentes temas de Bioshock Infinite, é um jogo com uma segurança narrativa tão grande onde tudo se interliga de forma tão graciosa e harmoniosa que é difícil ignorar os seus méritos artísticos. Vamos esquecer que isto é um jogo de acção onde matamos bonecos, Bioshock Infinite quer passar uma mensagem e essa mensagem é materializada num protagonista cuja importância deveria ser central na industria actual e que estranhamente vejo a ser ignorado por muita gente. Booker DeWitt e Zachary Comstock é uma das personagens mais fascinantes que já vi num jogo e espero que venha a ser reconhecido como tal no futuro.

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