La Vie d’Adèle – A Vida de Adèle [2013]

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Um aspecto negativo de ver tanto cinema é que chega a um ponto que uma pessoa começa a vê-los duma forma fria e demasiado técnica, mesmo bons filmes que são de certa forma marcantes às vezes não é fácil esquecer que estou obviamente a ver um filme. Um bom filme é certo, mas nada mais que um filme. Começo a agarrar-me a questões técnicas, ao trabalho de camera do realizador, ao design sonoro, à performance do actor e por aí fora. É claro que há excepções, cada vez mais raras (não por haver menos filmes marcantes, mas pelo meu crescente… falta-me o termo… desapego?) emmamas de tempos a tempos às vezes lá surge um que me faz ultrapassar isso, que me faz esquecer que estou a ver um filme, que desarma o meu olhar clínico que tanto gosta de analisar e desmontar a obra. La Vie d’Adèle é um deles.

Talvez mais conhecido pelo titulo inglês Blue is the Warmest Color, La Vie d’Adèle ganhou toda a sua notoriedade por  dois factores. Um positivo, a Palma d’Ouro de Cannes que premiou o realizador Abdellatif Kechiche e as protagonistas Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, e um negativo centrado numa pseudo-polémica envolta numa cena de sexo lésbico de sete minutos que supostamente era coisa do diabo. Da polémica não há nada a dizer, quanto menos atenção se der a “não-problemas” melhor, mas da Palma d’Ouro é importante destacar o feito de pela primeira vez terem dividido o prémio com as duas actrizes, o que é indicio de que há ali algo de muito especial com as duas francesas. Mas já lá vamos.

Conhecia o filme de nome, precisamente por causa da vitória em Cannes, mas devo admitir que fiquei um pouco de pé atrás por ser um “filme LGBT”. Calma, calma, já consigo ouvir os suspiros de desilusão, mas não me interpretem mal! Eu sou um incondicional apoiante dos direitos da comunidade LGBT e ajudarei a segurar a bandeira sempre que for necessário mas, e aqui possivelmente seja um preconceito meu já que o meu conhecimento de cinema LGBT é superficial, nem sempre é fácil este cinema nicho conseguir fugir das temáticas tão recorrentes duma luta destas, que obviamente roda muitas vezes à volta da discriminação. Nem sempre é fácil evitar cair numa inevitável paixão idealista.

Isto tudo para dizer que embora tivesse um óbvio interesse para ver o vencedor da Palma d’Ouro, tive sempre aquele receio pré-concebido de que iria ver mais uma história dum amor impossível rodeado de preconceitos e injustiças. Mas a verdade é que embora La Vie d’Adèle seja uma história de amor entre lésbicas, ele é acima de tudo uma história de amor e a homossexualidade é simplesmente um detalhe. É uma história sem géneros nem restrições que resultaria da mesma forma qualquer que fosse o tipo de relação. Esta abertura e este distanciamento acaba por criar mais impacto, porque retira o foco do facto delas serem homossexuais, o que criaria de certa forma uma divisão que tanto trabalho daria a deitar abaixo, em vez disso coloca-a num plano igualitário que deve e merece estar.

Foi o mar de elogios que um amigo meu despejou que me despertou o interesse, ele normalmente tem um gosto semelhante ao meu e decidi arriscar. Foi uma excelente decisão, devorei as três horas duma forma tão intensa que passaram num instante, mesmo que no final eu estivesse tão desgastado como que se tivesse passado anos fora da nossa realidade. A enorme qualidade do argumento consegue que cada cena, por mais superficial que pareça, tenha elevadíssimos níveis de interesse. É bem escrito e realizado duma forma minuciosa e intensa, Abdellatif Kechiche não tem medo de dar tempo e espaço às actrizes e aos locais por onde elas espalham magia.

adeleA história em si é relativamente simples se for vista duma forma superficial. É acima de tudo uma história de amor, uma história não convencional que sem qualquer receio mostra-nos o lado realista duma relação sem nunca se aproximar sequer de locais visitados por Hollywood e pelo cinema comercial. É um filme que nos mostra todas as etapas duma relação ao mesmo tempo que apresenta também uma história de crescimento e auto-descoberta duma rapariga que está a ter uma entrada atribulada, confusa e sofredora na vida adulta. Adèle é uma adolescente presa entre fragilidades de criança e impulsos de adulta e é nesse cruzamento que ela fará escolhas que a moldarão como mulher. O primeiro contacto com os cabelos azuis de Emma é o vulcão que irá desencadear todo o processo, numa intensa, quase obsessiva atracção (inicialmente física) que evolui mais tarde para uma ligação sentimental extremamente forte, contudo nem tudo são rosas porque a imaturidade e fragilidade de Adèle assombram-na constantemente.

Mas o impacto de La Vie d’Adèle não advém do facto de estarmos perante um excelente filme, mas da percepção de que passámos três horas com duas mulheres que tiveram a audácia de quererem, durante aqueles momentos, entrar  na nossa vida e de nos arrastar para junto delas, sem pedir licença. De partilharem coisas que não devem ser partilhadas e da realização de que não estamos preparados para sofrer ao lado delas. Da percepção de que entramos numa pequena cápsula do tempo que nos levou a viver anos com pessoas que se abriram duma forma assustadoramente genuína e autêntica, que partilham alegrias, tristezas e vivências tão intimas que nos sentimos culpados de nos ligar duma forma tão pura com pessoas tão genuínas. Da forma como desenterram memórias e sentimentos em nós, como que nos convidando a partilhar de forma reciproca e da breve noção do quão isso é assustadoramente desconfortável, da enorme catarse de quando nos entregamos da mesma forma que elas o fazem. Acho que não estou sozinho em afirmar que as paixões que aqueles momentos despertam nas pessoas não é por estarem a assistir um excelente filme, o que não falta são bons filmes, é essa ligação… emocional, uma ligação que só pôde ser criada por causa de duas actrizes completamente mergulhadas na essência da sua arte.

A performance de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux é dum brilhantismo tal que se torna difícil qualificar sem entrar em extremos e exageros. O nível de realismo que elas empregam é tão grande e duma tal dedicação que nunca senti que estava a assistir a brilhantes prestações, elas estão tão brilhantes que só via e sentia emoções reais, de pessoas reais. Ok parece que já estou a exagerar, mas é a mais pura das verdades! Normalmente quando vejo uma excelente prestação nunca consigo abandonar o meu… suspension of disbelief (qual é o equivalente em português?) penso sempre “que enorme prestação!”. Aqui nunca as consegui ver como actrizes, só no final do filme é que caí em mim “O que é que acabei de ver?!”. Os níveis de entrega são completos e assustadores, ainda para mais lendo os relatos do duríssimo processo de rodagem que  Abdellatif Kechiche as submeteu. São guerreiras completamente devotadas à sua arte e eu senti-me privilegiado por ter visto o fruto de tanto trabalho, dedicação e talento.

La Vie d’Adèle é uma pérola rara,uma pérola que brilha intensamente. Ver outros filmes depois de ter achado este tesouro é um exercício destinado à desilusão, e como Adele precisará de tempo para superar a dor, também eu vou precisar de tempo para esquecer estas três horas.

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