2046 [2004]

2046-poster

“Ermm… tipo… sabes que isto não é sci-fi correcto?” Bom, admito que não sabia, na verdade escolhi-o mais como desculpa para descobrir a filmografia do Wong Kar-wai que sempre me despertou interesse e só conhecia o medianito My Blueberry Nights. Como me disseram que tinha elementos de ficção cientifica, fui em frente.

E de facto esses elementos estão lá, uma das narrativas passa-se num futuro distópico onde um homem regressa dum local enigmático e idílico chamado 2046. Pouco se sabe desse local para além de que recupera memórias e amores perdidos, nunca ninguém regressou de lá, excepto o protagonista que na viagem se apaixona por um andróide que não lhe retribui o mesmo amor. É um mundo futurista onde as emoções são controladas, no entanto, este é apenas um dos lados de 2046.

2046 tem diversas linhas temporais, na verdade o tempo é algo relativo porque a acção não flui de forma cronológica e sentimos sempre que o tempo é extremamente volátil. Isto acaba por dar a 2046 uma aura meio etérea como se estivéssemos a sonhar ou naquele estado em que estamos quase adormecer, é difícil explicar mas a atmosfera é espectacular. Bom, mas já me estou a adiantar, disse que o lado futurista de 2046 era apenas um dos lados do filme, isto porque a acção principal decorre durante a década de 60 numa Hong Kong muito noir e estilizada. A fotografia é honestamente das melhores que alguma vez vi e isso ajuda e muito a criar um ambiente que gosto de chamar de “clássico sujo”. Faz lembrar os clássicos noir mas envolto numa camada de realismo estilizado que muito me agradou.

Bom, mas é essa linha narrativa que conduz todo o filme, até porque a linha futurista nada mais é que um livro escrito pelo protagonista durante os anos 60 como espelho da sua própria vida, uma vida marcada por um amor perdido e uma série de relações amorosas esporádicas que seguimos ao longo de todo o filme. O lado poético não ajuda a tornar clara a sua narrativa e exige ao espectador que saia da sua zona de conforto para a compreender, o que é sempre bom, mas o filme raramente consegue colocar de lado um certo pretensiosismo que, às vezes, prejudica-o e torna-o mais enigmático do que precisaria ser. Pelo que tenho pesquisado este é um filme que se liga a outros dois da filmografia do Wong Kar-wai, nomeadamente o  Days of Being Wild e o  In the Mood for Love, filmes que agora entraram no meu radar.

Fiquei de certa forma desiludido pelos elementos sci-fi serem residuais, mas acabei por gostar da outra parte que não esperava encontrar. Admito que grande parte do prazer que senti deveu-se mais aos maravilhosos visuais do que propriamente à sua narrativa poética, mas foi bom tê-lo descoberto. Ah! uma palavra de apreço para as excelentes interpretações, a todos eles a minha vénia.

Não é um filme para todos e certamente afastará quem não for com o espírito certo, mas é um festival para os olhos, muito sensual e que requer entrega do espectador. Não posso dizer que tenha adorado mas gostei.🙂 O mês está a acabar e ainda me faltam dois filmes!!😮 Ainda hoje verei o espanhol Los Cronocrímenes.

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