Blue Velvet – Veludo Azul [1986]

BLUE VELVET - American Poster 2

Este texto foi originalmente escrito a convite do Moviewagon a respeito dum ciclo dedicado ao David Lynch.

Uma das maiores belezas de ver bom cinema é aquela sensação de que durante duas horas estivemos numa diferente realidade a viver emoções distintas das do nosso dia a dia. Infelizmente nem todos os bons filmes conseguem transmitir isso, no entanto há alguns autores que construíram uma carreira nisso mesmo e David Lynch será porventura um dos maiores exemplos dessa fascinante e vibrante janela para diferentes realidades.

No seu caso essa realidade sempre foi alicerçada na sua fixação pelo grotesco, mas um grotesco subtil e mascarado pelo vulgar e comum, o que leva àqueles maravilhosos momentos em que o nosso cérebro fica alerta com algo que ele acha que não está certo. Vocês sabem, aquelas alturas em que da completa normalidade da situação surge algo tão surreal que quebra por completo a segurança donde estávamos instalados. São esses pesadelos surreais que Lynch exalta e se sente como peixe na água. Se Eraserhead era um exemplo perfeito disso em todo o seu esplendor (porventura até menos subtil do que é normal nele) os seus filmes posteriores, Elephant Man e Dune mostraram um lado um pouco mais conservador.

Mas, chegado ao seu quarto filme em 1986, David Lynch apresentou-nos o filme que, na minha opinião, melhor caracteriza o seu estilo. Blue Velvet é a perfeita simbiose entre a normalidade e o grotesco. Desde logo o setting suburbano cria um sentimento de segurança que desde cedo se revela falso. Quando Jeff (Kyle MacLachlan já a mostrar alguns sinais do peculiar e memorável agente Cooper de Twin Peaks) encontra uma orelha no chão é óbvio que nem tudo é o que parece, e rapidamente a luz, flores e boa disposição sofrem uma profunda transformação. O longo zoom que Lynch faz na orelha dá inicio a uma viagem, uma viagem ao lado mais negro e grotesco do pequeno subúrbio.

Contudo, mesmo com os diversos sinais que mostram isso mesmo, o “choque” só se revela na sua plenitude quando Jeff, depois das suas investigações, vê pela primeira vez Frank. Se Frank não é um dos vilões mais memoráveis, então anda lá perto. Dennis Hooper é tão over the top e mistura de forma tão perfeita a comédia e o terror que é difícil nos prepararmos para as suas cenas. A sua introdução é tipicamente “Lynchiana”, um ritual e uma explosão de surrealismo onde Isabella Rosselini é sujeita a uma humilhação que a revela como uma actriz corajosa. Só no universo de Lynch é que a frase “baby wants to fuck” dita por um maníaco de mascara de oxigénio na mão consegue transmitir genuíno terror e desconforto.

O resto do filme é uma constante espiral de descida de Jeff ao submundo da pequena cidade que em muito faz lembrar posteriores projectos de Lynch. Contudo não esperem um ambiente depressivo ou algo do género, o humor negro é parte integrante do seu estilo e Blue Velvet não é excepção. Este é um filme que sabe olhar de forma cómica para o obscuro e isso de certa forma ajuda a tornar os momentos mais… estranhos, em momentos de maior impacto. Como no final dum pesadelo, o filme regressa ao seu lado claro e alegre, simbolizado pelo zoom out da orelha de Jeff, como que se dum acordar se tratasse. O final feliz é tão plástico e perfeito que nunca nos sentimos realmente fora do típico ambiente etéreo do David Lynch.

Blue Velvet não é porventura o seu melhor filme, mas é possivelmente o mais importante da sua filmografia, um filme que aperfeiçoou, assentou e moldou o estilo e visão do Lynch que todos conhecemos e adoramos. Foi o filme que pegou num diamante em bruto e moldou-o para a prosperidade.

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