Jogar a História – Roma Antiga

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Roma.

Roma é porventura a época histórica mais popular e fascinante dentro do imaginário popular, e compreende-se porquê. O impacto que teve e tem na nossa sociedade é tão vasto e tão palpável, mesmo nos dias de hoje, que é uma fonte inesgotável de fascínio e admiração. E é porque foi a primeira vez que uma sociedade, com todos os seus aspectos e particularidades, ficou tão bem documentada através de factos.

O mundo pré-Romano foi, obviamente, documentado, aliás, o que não falta é documentação depois da invenção da escrita, mesmo antes, os humanos arranjavam ferramentas para o fazer, mas Roma teve uma pequena grande particularidade: a sua longa duração. Foram 11 séculos de vida que permitiram uma constante preservação de documentação e uma diáspora do modo de vida romano. Tentem só imaginar, foi uma civilização, uma sociedade que durou mil anos, mil anos é um período tão vasto que se torna complicado sequer ter uma noção. Roma durou quase tanto tempo como o periodo entre a sua queda e os nossos dias! E isto se apenas falarmos sobre Roma em si, porque o Império Romano do Oriente, mais conhecido posteriormente como Imperio Bizântino, sobreviveu ainda mais 1000 anos!

A história romana fascina-me particularmente porque pela primeira vez os relatos se focavam mais em factos, ou pelos menos em quasi-factos e não tanto em mitos ou lendas. Mesmo na Grécia antiga, onde existe documentação histórica, reparamos que muita dessa informação está envolta numa mitologia que às vezes se torna complicado discernir o que é ou não factual, levando a que se perca muito do impacto histórico.

Bom, mas tal como fiz no 1º artigo em relação à 1ª Guerra Mundial, estou aqui para vermos que jogos nos poderão ajudar a compreender este periodo. Ao contrário da Grande Guerra este é um longuíssimo período, logo, deveríamos ter a tarefa mais facilitada, correcto? Sim e não. É verdade que há uma maior série de jogos que nos podem ajudar a compreender a Roma antiga, mas 11 séculos é obviamente um período longo demais para discutir num espaço tão curto. Assim, terei de passar muito ao de leve por todo este espaço de tempo.

Acho que o mais fácil será dividir os 1200 anos de história em quatro partes: Fundação, Republica, Império e queda de Roma. É fácil imaginar qual a época mais propicia a ser retratada em jogos (guerras, Império) e a menos (fundação) portanto tenham isso em conta.

Quando vos falei que a história de Roma tende a ser mais factual que fictícia, é claro que não é um caso absoluto, e para isso basta olhar para a sua fundação. Reza a lenda que em 753 a.C os irmãos Remo e Rómulo (filhos de Marte) fundaram a cidade depois de terem sido criados por uma loba… pois, claro. Na verdade a génesis de Roma está envolta em muitos mitos, o que torna complicado discernir a realidade da ficção.

Mas o importante a reter neste período, é a forma como a pequena cidade-estado cresceu ao ponto de se tornar numa força regional e eventualmente numa republica. E em relação a a isso não há muito por onde escolher, não é decididamente um periodo muito popular para ser retratado em jogos.

Age of Empires: The rise of Rome

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Podia aqui pôr o jogo original, mas a expansão foca-se precisamente em Roma, portanto acaba por ser mais indicado. Age of Empires é uma ferramenta interessante, não só para entender como Roma cresceu a partir das sociedade primitivas recolectoras, mas da sociedade em si.

A expansão ajuda a afastarmos-nos mais dum modelo generalizado das diversas civilizações e a focar apenas em Roma, o que é interessante, contudo não iremos aprender aprofundadamente a história de Roma, mas mais a estrutura de crescimento urbano da altura. A busca por materias primas, o crescimento sustentado, as árvores tecnológicas e as ferramentas que ajudaram uma cidade como Roma a crescer.

Age of Empires está obviamente longe de ser um poço de fidelidade histórica, mas é um óptimo primeiro passo para compreender e despoletar o interesse pela antiguidade. Se forem para o jogo base (que como não podia deixar de ser, recomendo) irão passar pela idade da pedra até à idade do ferro, se optarem então apenas pela expansão (que recomendo ainda mais, neste caso especifico) terão um cenário muito mais focado.

Portanto, vejam Age of Empires e a sua expansão The Rise of Rome como o primeiro degrau  nesta descoberta.

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E… não vejo muitos mais jogos que nos mostre a fundação de Roma e a sua expansão inicial até se tornar Republica. É a partir daí que o fascínio popular aumenta, e por arrasto também o número de jogos. De qualquer das formas, ainda não há muito a escolher sobre os primórdios da Republica (instaurada por volta de 509 AC) nem tão pouco sobre os conflitos iniciais de crescimento na península Italiana.

Um a um os diversos estados e reinos italianos vizinhos foram caindo sobre controlo de Roma, sendo que o momento mais marcante deu-se nas batalhas contra Tarento que contava com a ajuda de Pirro, rei de Épiro, um reino Grego, em 281 BC.

Europa Universalis: Rome

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E é com esta guerra (a guerra Pirrica) que se inicia Europa Universalis: Rome, porventura o jogo mais completo e fiel sobre o período republicano de Roma (termina com a instauração imperial). Sou fã de Europa Universalis, mas curiosamente o meu contacto com a sua versão romana é bastante parca em comparação, de qualquer das formas é fácil de entender a profundidade que Europa Universalis: Rome nos dá em relação a todos os aspectos de governação de Roma, como se espera dum qualquer Europa Universalis.

Embora seja menos complexo e profundo que os seus primos mais velhos, Europa Universalis: Rome dá-nos a conhecer o lado administrativo, económico, militar e diplomático da republica de Roma e fá-lo duma forma bastante acessível, bem mais que os jogos base da série. Para complementar, apresenta também outros elementos interessantes, como a parte mais pessoal centrado nas famílias, personalidades e relações interpessoais, bem ao estilo de Crusader Kings, o que é muito útil, já que nos abre uma janela para os elaborados jogos de interesses e lealdades que se viviam na altura e que levavam a golpes de estado, assassinatos e generais revoltosos. Se não forem astutos nestes jogos palacianos, terão entre mãos uma guerra civil.

É nos possível escolher uma série de facções, mas obviamente é Roma que nos interessa, facilmente compreenderão todos os momentos chave da altura onde se destaca a rivalidade com Cartago, o grande rival de Roma, mas também alguns aspectos mais relativos à máquina burocrática e ao já referido jogo de influências de Roma.

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Da rivalidade com Cartago nasceram as chamadas guerras púnicas. E o que foram as guerras Punicas? Muito basicamente, após Roma se estabelecer como senhora da península itálica e uma potência regional, encarou de frente com outra potência emergente, localizada do lado de lá do Mediterrâneo. Na actual Tunísia estava localizada uma rica cidade fenícia que, com o tempo, cresceu para se tornar numa força que ambicionava controlar o mediterrâneo. Eventualmente, como não podia deixar de ser, Roma e Cartago entraram em conflitos de interesses e o resultado foram as três guerras púnicas, um dos períodos mais inacreditáveis, espectaculares e memoráveis da história cujo ponto alto deu-se durante a invasão de Aníbal através dos Alpes. O desfecho foi a aniquilação de Cartago após a batalha de Zama onde Cipião “o Africano” saiu vencedor.

A expansão da republica de Roma através do mediterrâneo às custas de Cartago e dos reinos gregos parecia imparável e inevitavelmente levou a que as atenções se virassem também para o norte onde povos germânicos e celtas estavam estabelecidos. Esse processo de conquista tem como expoente máximo a personalidade mais importante dos 1200 anos de história romana e porventura um dos mais importantes de toda a história: Júlio César.

Todo este período em que Júlio César se estabelece como figura de proa da Republica, passando pelo seu assassinato, guerra civil até à implantação do Império através de Octávio Augusto é, a par das já referidas guerras Púnicas, o momento mais importante de toda a história Romana e elevou os seus intervenientes ao zénite da cultura popular ao longo de séculos, até aos dias de hoje. Aníbal e Asdrubal Barca, Cipião “o Africano”, Júlio César,  Octávio, Marco António e Cleópatra tornaram-se autênticas lendas e os acontecimentos, inspirações para muitas canções, livros, filmes e teatros. E jogos?

Não há muitos que se foquem em particular nas guerras púnicas ou nas guerras de Júlio César e de Octávio, mas há jogos que mostram a história militar de Roma de forma geral. E bons jogos.

Total War: Rome 2

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Já agora que vou falar de Total War: Rome 2, descubram, por favor o velhinho Centurion que assim muito basicamente é um Total War dos primordios. Podem-no jogar seguindo este link. É porreirinho.

É certo e sabido que o Rome: Total War original é superior, portanto podem ler isto como sendo em relação a ambos os Rome, é válido e relevante em ambos os casos.

Centurion

Centurion: Defender of Rome

Todos conhecem a série Total War, escusa apresentações. É o jogo de estrategia histórica mais popular de sempre e Roma é uma das temáticas favoritas do pessoal da Creative Assembly. Muito sucintamente a série Total War: Rome permite-nos tomar controlo de qualquer facção da época, um pouco à semelhança de Europa Universalis: Rome, contudo aqui o foco afasta-se da parte burocratica e diplomatica para se focar quase exclusivamente na militar, sendo que o grande ponto de interesse são as magnificas batalhas em que podemos controlar as legiões em tempo real.

É certo que o rigor histórico e o realismo não é o melhor (há mods que o fazem) mas é bem acima da média se formos realistas. É necessário algum conhecimento tactico e estratégico (nada de hardcore) para ganhar algumas batalhas, e que espectaculares que são!

É um jogo obrigatório para conhecer a maquina militar de Roma e a sua expansão desde a peninsula de Roma até todo o mediterrâneo.

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Mas Roma não é só agressão e militarismo. Sim, as diversas guerras ficaram marcadas na história e o fascínio que despertam em nós é inigualável. Mas a maior herança Romana não veio da parte militar, mas sim no seu lado administrativo e cultural. O nosso dia a dia foi moldado por Roma precisamente por causa da sua estrutura organizativa, é certo que a maquina militar permitiu exportar esses valores para todos os cantos do mundo conhecido, mas Roma durou 1200 anos porque tinha uma estrutura extremamente sólida.

Para conhecer a cultura Romana, os seus valores mas especialmente a fabulosa organização há jogos interessantes.

Caesar 3

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Jogo mítico, o melhor da série e o único city builder que às vezes ainda luta com o Sim City 4 como o meu favorito. Falei brevemente dele há umas semanas, e referi que consegue conjugar na perfeição a acessibilidade e o desafio inerente a um city builder minimamente profundo nas suas mecânicas.

Mas não vou falar do jogo em si, mas do que nos pode ensinar. Roma era uma civilização urbana, na medida em que as suas cidades estavam montadas de forma a que a burocracia e a gestão social fluísse da melhor forma possível. Caesar III mostra a forma como o abastecimento de agua através de reservatórios e aquedutos, o entretenimento, higiene, alimentação, manufacturas e tudo o mais eram tão centrais numa qualquer cidade romana, especialmente a Roma em si.

O jogador começa num terreno vazio e terá de construir de raiz uma cidade através de sistemas que atraiam pessoas e as façam felizes para que não a abandonem. É uma visão minimalista, mas no fundo é essa a essência dum city builder. Não há melhor jogo que vos mostre o papel da urbanização e da organização social e arquitectonica como Caesar III fará.

Já agora, também pertinente para esta temática é o clássico The Settlers III, centrado precisamente em Roma que, embora não tenha grande rigor histórico, ajuda a compreender o papel de todo o processo industrial, mas especialmente como as estradas e as vias de comunicação foram tão essenciais para a prosperidade Romana.

Ryse

ryse

Não há muito por onde escolher caso queiram uma visão mais pessoal e no terreno de como era viver no período Romano. Tenho algumas dificuldades em aconselhar Ryse porque mistura muita ficção e poucos factos, mas se o usarmos só e apenas como uma ferramenta visual e ambiental acho que é um jogo válido e relevante.

Rome: Pathway to Power

Rome: Pathway to Power

É fácil de ver que é bem bonito e tem altos valores de produção, e ainda bem, porque em tudo o resto é mais Hollywood que história. No entanto é interessante para ter uma noção de como era pisar o terreno na antiguidade e até cruzarão caminhos com algumas personalidades históricas como Nero.

Podem também dar uma vista de olhos no velhinho Rome: Pathway to Power, uma aventura isométrica em que controlamos a vida dum escravo que ao longo dos anos sobe na escada social até se tornar imperador. É bastante interessante para compreender como estava estruturada e dividida a sociedade romana.

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Esta estrutura sólida da civilização Romana levou aos já referidos séculos de prosperidade, no entanto nada é eterno e até Roma se viu num inevitável processo de decadência que invariavelmente a levou a cair.

Muita da responsabilidade dessa decadência adveio do natural processo de estagnação social que uma sociedade destas acaba por cair. A sociedade civil começou a perder interesse em questões de cidadania em troca da luxuria e gratificação que rodeava os espectáculos de massas, o poder que antes residia no senado passou a estar centralizado no imperador o que levava a que demasiado estava em risco quando se tinha o azar de ter um mau imperador (e houve muitos) e tudo se foi acumulando ao longo dos séculos até um ponto em que o papel do imperador se tornou fugaz ao ponto de eles não durarem muito tempo.

Tudo isto funcionou como combustível no fogo que a história tinha reservado para Roma. As alterações climática que se viveram durante o século V, que obrigou os povos nómadas da Eurasia a procurar regiões menos inóspitas, originaram as chamadas grandes migrações rumo à Europa (já que o oriente estava bloqueado pela muralha da China). Essas grandes migrações de milhões de pessoas que os Romanos chamavam de bárbaros criaram um enorme aperto nas fronteiras romanas, especialmente depois da invasão de Atila, líder dos Hunos que de certa forma empurrou esses povos contra as fronteiras romanas.

Ao contrário da ideia geral que se tem destes povos, o seu objectivo não passava tanto pela destruição de Roma, mas mais pela assimilação romana. Eles invejavam o estilo de vida romano e queriam um pedaço do bolo. No entanto, como seria de esperar, uma colisão entre duas civilizações tão distintas não poderia correr bem.

Total War: Attila

attila

Antes de mais é pertinente falar também da expansão de Rome: Total War, Barbarian Invasion. Muito basicamente mostra-nos o mesmo que vos falei sobre Total War: Rome 2, contudo, e à semelhança de Total War: Atilla, mostra-nos de forma mais pormenorizada o lado bárbaro e todo o processo que as migrações tiveram no império Romano.

Bom, mas vamos falar de Total: Attila. Vou ser honesto, ainda não o joguei, é muito recente e não tenho dinheiro😥 mas não é difícil imaginar quais os sues pontos fortes neste tema. Imaginem a já referida expansão Barbarian Invasion no motor de jogo de Total War: Rome 2 e o resultado não deverá andar muito longe.

Barbarian Invasion e calculo que Atilla também, é engraçado por dois pontos. A forma como nos mostra o lado bárbaro, como a sua extrema mobilidade e a progressão nómada pelo mapa, mas também o lado Romano que está num estado tal de desorganização e instabilidade que é um castigo conseguir manter o “monstro” em pé. É muito fácil compreender como os acontecimentos da altura levaram à queda do Império e como era difícil tal não vir a acontecer.

Total War: Atilla foca-se precisamente no líder dos Hunos e no papel que teve no inicio do fim e acaba por fechar com chave de ouro esta busca por jogos temáticos da altura.

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Com a queda de Roma termina a antiguidade e inicia-se a idade média, uma época igualmente fascinante, mas curiosamente mais envolta nas sombras e em dúvidas. De certa forma este período obscuro na história é a melhor prova de como Roma teve um papel tão preponderante nos séculos anteriores, é fascinante como largos períodos de Roma estão mais bem documentados e factuais que a chamada alta idade média, onde muito se perdeu.

Mesmo após a queda de Roma, a ideia de Roma perdurou ao longo dos séculos através da sua metade oriental mais tarde denominada de Império Bizantino, mas também no imaginário popular dos povos europeus, desde a idade média até aos dias de hoje.

Tal como disse na abertura deste artigo, é fácil perceber porque Roma transmite um peculiar fascínio, de certa forma todos nós temos sangue romano a correr nas nossas veias, mas mais que isso, é inegável que a nossa civilização está bem assente sobre velhos mas duradouros pilares romanos.

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