The Witcher 3: Wild Hunt [2015]

w3

Para ler sobre as expansões “scrollem” até ao final da pagina.

Escrevo-vos meras horas depois de terminar um jogo que me ocupou 150 horas durante um período de dois meses e meio. São muitas horas… muito tempo. Muito tempo focado num mundo ao qual sempre imaginei, nos meus sonhos, poder vir a pisar.

Vocês conhecem o meu fascínio pela série The Witcher, desde os livros até aos jogos que são dos meus favoritos. Quando imaginava um jogo perfeito, num mundo utópico, era isto que eu via, sim, sinto-me um sortudo e um privilegiado por ter acabado de jogar o jogo dos meus sonhos… quem se pode dar ao luxo de dizer isto assim à boca cheia e com orgulho? Desconfio que pouca gente.

ciri

Então mas o que torna The Witcher 3: Wild Hunt especial? Ou melhor, o que o torna mais especial que os seus predecessores? Eles também são fantásticas experiências, suportadas por um universo rico e fascinante saido dos livros do Sapkowski, portanto não é surpresa nenhuma o cenário tecido por uma emaranhada teia  de tramas politicas, questões sociais mascaradas por fábulas medievais e aromatizadas por uma exuberante mitologia eslava e germânica, nem tão pouco o design das quests, num labirinto interligado entre histórias principais e secundárias, que graciosamente se complementam numa só linha lógica. Tudo isso são pedras basilares de The Witcher e The Witcher 2: Assassins of Kings, ou seja, não é nada de novo.

É o facto de ser mundo aberto? De permitir uma maior exploração? Foi uma aposta ganha, isso é certo, e encaixa que nem uma luva nos genes da história de Geralt e companhia. Mas a verdade é que não é nenhum aspecto técnico ou de design que o tornam especial.

É algo que não dá para medir, valorizar ou quantificar. É algo pessoal, é Geralt e a sua viagem, não a física porque ele viaja, e muito, mas a sua viagem sentimental e emocional. The Witcher 3 não é sobre impérios conquistadores, guerras violentas, miséria humana, golpes de estado, profecias, nem mesmo sobre caçar monstros. Sim, tudo isso está lá e é usado para tecer esta manta de retalhos que são os reinos do norte e a sua história, mas é a demanda de Geralt que lhe dá o calor e a textura.

Esta é a história dum homem que procura o seu papel no mundo duma forma que não deveria. Seguindo o seu coração. É a história dum pai que procura uma filha perdida, dum homem que procura um amor esquecido, dum colega que fortalece amizades fortes e  improváveis. Por detrás duma fachada inexpressiva, áspera e inquebrável duma rocha, que desde sempre foi obrigado a ser, esconde-se um homem genuíno, emotivo e guiado por um intenso sentimento de altruísmo. Descobrir essas quebras na pedra, esse humanismo por entre as fendas da máscara foi das melhores experiências que tive e que de certa forma estavam ausentes dos anteriores jogos, quando Geralt, na verdade ainda não era Geralt, mas sim um embrião de ideias e memórias resultantes da sua amnésia. Para quem leu os livros, reencontrar o verdadeiro Geral da Rivia foi como reencontrar um velho amigo, perdido e esquecido pelo tempo.

Eu deveria falar de cenas técnicas, até porque, salvo alguns problemas, The Witcher 3 também exalta nesse campo, mas, vou vos ser muito honesto, não tenho pachorra para falar disso. Há aí tanto artigo, reviews, previews, vídeos e tudo mais que falam ao pormenor do sistema de mundo aberto, dos mapas, dos gráficos, das animações, dos downgrades, dos bugs e tudo mais. Até porque muitos dos aspectos principais e que elevam The Witcher 3 para um patamar de excelência já vinham dos anteriores jogos. Eu prefiro falar do que é importante para mim, do que tornou a minha experiência única da vossa, e que infelizmente, ou felizmente (?) não são coisas objectivas.

G+Y

Há pouca coisa melhor do que as aventuras mundanas e sem destino de The Witcher 3, daquelas viagens sem objectivo em que rumamos por onde o vento nos leva. Cavalgar a trote no Roach ao final do dia, enquanto no horizonte um espesso manto de nuvens cinzentas se aproximam. Chegar a uma povoação perdida, numa planície devastada pela guerra com o vento a uivar por entre as árvores. Explorar as redondezas em busca de qualquer ser monstruoso que amedronta os habitantes, à medida que o pôr do sol e as nuvens carregadas pairam finalmente sobre Geralt, espalhando a escuridão como se dum negro manto se tratasse. Procurar pistas e traços que conduzam ao monstro e à recompensa monetária, apenas iluminado por uma débil e frágil iluminação proveniente duma tocha. Quando a chuva começa a cair sobre os seus ombros, uma feroz batalha entre homem e besta desencadeia-se. Geralt vence, como sempre, com maior ou menor dificuldade, porque é esta a sua história. Um solitário sem moeda, um vagabundo sem casa que o destino assim designou.

E essa atmosfera inigualável só é possível por causa dum mundo vivo, um mundo realista que nem tem tanto haver com a sua dimensão (que sim, é enorme!) mas mais pela… como posso dizer… é um mundo que faz sentido. Tudo, desde traços geográficos, naturais e humanos está montado de forma realista. Os rios fluem de forma correcta da nascente à foz, nas suas margem encontram-se aldeias piscatórias onde cada um dos habitantes tem a sua rotina a pescar e a a vender peixe e tudo mais. Culturas crescem em terrenos férteis, aldeias em zonas inóspitas são menos prósperas que as instaladas em terrenos prolíficos, indústrias e manufacturas, como produção de mel em campos de apicultura, tingimento de roupa, extracção de madeira estão montadas junto a movimentadas vias de comunicação em redor de cidades de grande dimensão. Longas florestas, pântanos, montanhas estão posicionadas de forma realista, nunca caindo no típico erro que a Bethesda tanto gosta de criar, onde os seus mundos mais se assemelham a parques de diversões, onde o ênfase é colocado no divertimento do jogador e não no realismo.

Este é um tema que queria escrever e aprofundar no futuro, muito inspirado pela teoria da “terra da batata” que o Dániel Vavra (da série Mafia, agora no Warhorse Studios a fazer o promissor Kingdom Come: Delivarance), The Witcher 3 às vezes cai um pouco nesta “lógica da batata” nas ilhas de Skellige, mas na sua esmagadora maioria é um mundo realista e com sentido.

world

Foram 150 horas… 150 não, juntem também as centenas de horas dos anteriores jogos e dos livros… foram dias e dias numa viagem que terminou com um forte trago agridoce, num misto entre alegria e tristeza, espelhando os acontecimentos no jogo (não se preocupem, não entrarei por spoilers aqui). Lembram-se, no final do The Lord of the Rings: Return of the King, quando os hobbits se sentam na taberna depois de épica viagem que fizeram, quando se instala aquele sentimento de que… já não fazem bem parte daquele mundo? Da retrospectiva da mudança que fizeram, da experiência que viveram? Sempre me emocionei nessa cena, e o mesmo aconteceu em The Witcher 3. É um sentimento estranho, um vazio… caloroso, tão difícil de explicar, mas tão forte.

The Witcher 3 é uma viagem de todas a formas que possam imaginar. Da viagem física e emocional que já referi, junta-se a pessoal, a realização de que este é um ponto de viragem, de que dificilmente voltarei a viver o mesmo. A ideia de que a partir de agora tudo sofrerá em comparação. Eu sei que estou a hiperbolizar, é óbvio que eventualmente algo melhor aparecerá e comerei de bom grado o meu chapéu, mas é isto que sinto agora. De certa forma é como se The Witcher 3 tivesse um impacto negativo em mim, porque não sei se conseguirei ver os videojogos com os mesmos olhos porque, muito sinceramente, quase tudo o resto me parece tão insignificante que não consigo extrair qualquer… gozo ou divertimento, superficial ou intelectual.

Não queria muito entrar em sentimentalismos bacocos mas… também qual é a piada de fechar esse lado mais sentimental? Qual o objectivo de olhar para uma obra destas num espírito puramente técnico e frio quando passei mais de dois meses dedicado a um mundo que entrou, de braços abertos, no meu coração… Este é o jogo dos meus sonhos, o zénite, o apex, a cadeira de Zeus no Olimpo… depois disto será sempre a descer.

C’um caraças… o que se passa comigo?

Mas pronto, a minha ideia é voltar a escrever sobre isto no futuro, quando tiver mais a frio e consiga falar sobre outros dos muitos aspectos e temáticas de The Witcher 3: Wild Hunt. Eu sei que tudo isto é ridículo, mas tentem compreender que passou pouquíssimo tempo desde que o acabei, acho que é perfeitamente natural exacerbar e hiperbolizar os meus sentimentos deste que é… vou dizer… o meu jogo favorito de sempre.

Positivo:
+ Missões secundárias
+ Escrita.
+ Ambiente e atmosfera.
+ E muito, muito mais….

Negativo:
Bugs, downgrades e essas cenas.

Tempo de Jogo: 150 Horas

Sai do templ… do Pixelhunt com:

————————————-

Hearts of Stone: Quando uma expansão tem a duração media de 15/20 horas, portanto mais do que a maioria dos jogos singleplayer do mercado, torna-se complicado falar e vê-la como um mero DLC. Chamem-lhe o que quiserem, DLC ou expansão, a verdade é que esse conteúdo pós lançamento é sinonimo nos dias de hoje de baixa qualidade e preço elevado.

O que diferencia Hearts of Stone da norma? O mesmo que diferencia o jogo base dos seus concorrentes. É a qualidade da escrita, o design das quests, a atenção ao detalhe, a quantidade de conteúdo de qualidade e a imersão no mundo. Hearts of Stone é mais The Witcher 3 com tudo de bom que dai vem. A sua história é de tal forma trabalhada e extensa que poderia muito bem ser a narrativa principal de qualquer jogo do mercado, as personagens secundárias tão bem caracterizadas que poderiam protagonizar qualquer jogo e as quests tão diversificadas e imaginativas que tornam a experiência extremamente refrescante. Para terem uma ideia, a CD Projekt Red não teve quaisquer receios de montar uma sequência onde passamos quase 1 hora num casamento, sim, um casamento. Sem combate, sem tretas da praxe, apenas na galhofa porque o mundo de The Witcher é, para além da seriedade política, muito humor, negro e subtil, sátira e uma estranha simplicidade despretensiosa digna dos contos de fadas. Uma simplicidade tal que às vezes os acontecimentos principais giram em volta do tintol e da dança num qualquer casamento.

Neste aspecto, o tom de Hearts of Stone assemelha-se mais ao The Witcher original do que à sua sequela e ao jogo base. É uma mudança bem vinda que, embora The Witcher 3 a tivesse a espaços, fazia falta. De resto, podem esperar alguns elementos novos (o mapa foi ligeiramente expandido) novas lutas interessantes e o regresso de algumas caras conhecidas de outros jogos (Shani!).

É uma excelente expansão e fecha com chave de ouro este ano, que foi glorioso para todos os fãs de The Witcher.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: