Andrei Rublyov – Andrei Rublev [1966]

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Em qualquer meio artístico há sempre aquela altura, especialmente no inicio de carreira, quando ainda se está a tentar criar um nome e uma visão, de compor aquela obra prima marcará para a prosperidade. É o Citizen Kane para o Orson Welles ou o Godfather para o Coppola, para Tarkovski esse momento chega com a sua segunda longa metragem.

Andrei Rublev é um esforço tão grande, magistral e superlativo que quebrou quaisquer barreiras e expectativas que se poderia ter dele. Sabendo de antemão e com a perspectiva de meio século é fácil ver o brilhantismo de Andrei Rublev, mas quando penso nas coisas e imagino no quão surpreendente deve ter sido na altura ainda me cria um espanto genuíno. É certo que os seus anteriores projectos já mostravam o seu tremendo potencial, mas honestamente nada a esta escala. Andrei Rublev é de tal forma bom que, de certa forma, tornou complicada a tarefa do Andrei de se vir a superar no futuro (e que de certa forma conseguiu, se bem que é questionável se Andrei Rublev seja o seu melhor filme).

Devo dizer que vi a versão longa da Criterion, portanto umas valentes 3h20 que, aviso já, não são fáceis se não forem na disposição correcta. Andrei Rublev é acima de tudo poesia visual, é lento e nem sempre focado no que o espectador está habituado, portanto fica o aviso. Eu próprio, mesmo tendo adorado o filme, tive que o dividir em dois dias, e vou ser sincero, não foi… divertido ou algo do género. À semelhança do mundo medieval que retrata, este é um filme frio, cru, sujo e extremamente realista, o seu intuito não é dar a mão ao espectador, mas sim leva-lo numa experiência artística.

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Por falar no seu ambiente e atmosfera medieval, Andrei Rublev é porventura o retrato medieval mais realista que já vi. Esqueçam as habituais demonstrações cliches da época medieval, aqui tudo é extremamente realista e depressivo.

O seu protagonista (que dá titulo ao filme, um famoso pintor medieval russo) à semelhança do filme em si, não segue as habituais linhas do que se espera dum herói, isto porque Andrei não é um… herói. Nunca o vemos a pintar, a meio do filme faz votos de silêncio e deixamos de o ouvir falar, muitos dos episódios (o filme é uma série de episódios que retratam o principado da Moscóvia no séc. XV) não são centrados em si e apenas aparece de forma secundaria. De certa forma Tarkovski projecta-se a si mesmo em Andrei (e em Boriska que protagoniza o ultimo episódio) de forma a transmitir as dificuldades inerentes ao processo criativo dum artista. Andrei procura inspiração e luta contra demónios internos que o dividem entre o seu lado artístico e religioso. Boriska (interpretado pelo miúdo de A Infância de Ivan, excelente performance mais uma vez) um artesão de sinos de bronze, é obrigado a superar-se na construção dum sino que nem mesmo ele acredita ser capaz. Ele é autoritário e a pressão da sua arte consome-o de tal forma que no final, quando o consegue construir, esvai-se em lágrimas.

Se é verdade que Tarkovski quer passar uma mensagem com o filme em termos narrativos, mais importante ainda, é a forma como o faz visualmente. O seu cinema, nesse aspecto, é muito pouco literário, a base da sua visão e a forma como conta as suas histórias é através, acima de tudo, da parte visual. Tarkovski abraça sem receios as particularidades do meio optando por, ao contrario do que é norma, abandonar a base narrativa literária. É um cinema que funciona, especialmente em termos poéticos, mas que torna os seus filmes objectos fechados para quem não está preparado para se esforçar a descobrir. E Andrei Rublev é um perfeito exemplo disso mesmo.

740full-andrei-rublev-screenshotComo já referi, a sua estrutura é composta por uma série de episódios sem grande relação entre elas e onde nada de muito extraordinário acontece. São episódios da vida medieval russa onde, com maior ou menor intensidade, Andrei é afectado. A grande excepção deverá ser o episódio onde os tártaros da Horda Dourada (nunca são referidos, mas historicamente seriam eles) atacam a cidade de Vladimir, perto de Moscovo. É ai que o filme explode e onde Tarkovski liberta-se em termos artísticos e visuais, com incrível fotografia, trabalho de camera, planos sequência, enorme escala com milhares de figurantes cuidadosamente coordenados e brutalidade (incluindo brutalidade animal que infelizmente foi usada e muito lamento). Este é o ponto de viragem no filme, com uma explosão criativa de Tarkovski e também de Andrei que cai nos braços da religião e faz votos de silencio.

Andrei Rublev acabou por ser mais difícil do que estava à espera, mas curiosamente muito mais “impactante” do que esperaria. É um filme que ficou gravado e, mesmo que inconscientemente, não me sai da cabeça. Acho que é um sinal de que me afectou positivamente. Um bom filme não tem que ser obrigatoriamente divertido ou convidativo ao espectador, mas pode e deve ser uma experiência que nos ligue com o que se passa na tela, e uma representação da frieza e brutalidade da idade media é uma experiência dura e penosa que só com a perseverança do espectador consegue ser desfrutada.

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