Zerkalo – O Espelho [1974]

O-Espelho

Tarkovski não era um realizador particularmente prolífico e levava o seu tempo entre filmes, no entanto, é fácil explicar a surpreendente diferença de apenas dois anos entre Solaris e O Espelho. Na verdade, O Espelho foi o projecto que Tarkovski trabalhou depois do sucesso de Andrei Rublev, contudo, a dificuldade em ser aceite pela maquina de censura Soviética (agora no período mais fechado de Brejnev) era tanta que a certo ponto preferiu fazer então Solaris. Quando O Espelho teve finalmente luz verde depois da estreia de Solaris, grande parte do trabalho já estava feito.tumblr_mmqqyaPQ8w1qddfmdo1_400

Para quem achou Andrei Rublev e especialmente Solaris demasiadamente vagos e poéticos, prepare-se, porque O Espelho eleva o cinema de Tarkovski para um outro plano. Este, que é porventura o seu filme mais bonito em termos visuais, é vago na sua estrutura porque centra-se precisamente no elemento mais vago e confuso do ser humano, os sonhos e as memórias. Sim, O Espelho é um apanhado de memorias e sonhos dum homem (na realidade é uma espécie de auto-biografia do Tarkovski) e é tudo contado de forma não linear entre três períodos de tempo, abordando, de forma mais ou menos profunda, algumas das temáticas favoritas do realizador, como o papel da infância e a guerra (mais uma vez) se bem que aqui ela é apresentada apenas como um backdrop. Porém, não se pode dizer que haja um fio condutor entre tudo isto, é um conjunto de memórias onde, como num puzzle, cabe ao espectador tentar juntar as pontas e descobrir a historia de vida do protagonista.

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Se for visto como poesia visual (o próprio filme é pautado por sequências onde o pai do Andrei declama poesia) e uma experiência artística, vale bem a pena. Tem algumas das melhores, mais bem montadas e filmadas cenas que já vi. São autênticos quadros vivos perfeitamente compostos e coordenados. Só por este aspecto é obrigatório ser descoberto. Mas O Espelho não se fica por aqui, isto porque, o trabalho interpretativo da Margarita Terekhova é magnifico, extraordinária actriz, merecedora de todos os louvores, a sua actuação é forte mas ao mesmo tempo muito contida e subtil.

Tremenda experiência visual, difícil de se ver para quem procura alguma coerência narrativa, mas também quem se mete em Tarkovski certamente não espera isso.

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