Dune – Duna [1984]

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Entramos na década de 80 com o primeiro de quatro filmes. Dune, é a adaptação do muito amado romance de ficção cientifica de Frank Herbert, supostamente “infilmável” dizia-se na altura. E de facto Dune sofreu uma penosa transformação de literatura para cinema, o projecto passou de mãos em mão, de projecto para projecto e por vários estúdios. Uma das tentativas mais reconhecidas e empolgantes foi a do chileno Jodorowski (podem recordar o documentário sobre a sua pré produção, que vos falei no ano passado) que iria ser uma coisa completamente surreal. Ridley Scott também se chegou a envolver nisto, mas coube a David Lynch pegar o touro pelos cornos, uma pega que acabou por o traumatizar.

Já tinha visto Dune em tempos de adolescente numa daquelas sessões da RTP2, não tinha ido muito à bola com ele, se bem me recordo achei-o demasiado frio e distante. É um sentimento que persiste agora vendo-o de novo, no entanto consegui retirar muito mais sumo do que inicialmente estaria à espera. Dizia-se que seria tumblr_mylmktILZG1rkcnt3o1_r2_400 impossível adaptar Dune porque tudo em Dune é… diferente do habitual. Nem irei falar do livro que, mesmo nunca o tendo lido (e tenho de o fazer eventualmente) sei o suficiente para reconhecer que embora superficialmente seja uma história coming of age do herói que se absorve por uma cultura nativa exótica para derrotar as forças imperialistas num cenário sci-fi (Lawrence da Arabia no espaço), no fundo é uma complexa dissecagem antropológica das culturas deste universo, quase caindo num realismo documental histórico (mesmo sendo no futuro :P).

É óbvio que tanta complexidade se torna impossível encolher em duas horas de filme, e mesmo sem ler o livro é mais do que evidente que falta aqui muita, muita coisa. O próprio ritmo do filme sofre com isso com enormes saltos e inconsistências narrativas. Nesse campo, esta versão de Dune tem muitos problemas, e acho que muita da frieza que sinto ao ver Dune passa por isso mesmo. Momentos de tremenda convulsão emocional simplesmente não transparece para o espectador (mesmo com a intensidade das boas interpretações) porque não houve, nem poderia haver em tão pouco tempo, qualquer ligação ou razão emocional para tal. O que é pena porque Dune tem as suas virtudes.

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Acho que o melhor adjectivo para o descrever é inconstante. Dune é lindíssimo mas ao mesmo tempo carregado de maus efeitos visuais. A beleza dos cenários e guarda roupa contrasta fortemente com os efeitos em blue screen que envergonham qualquer filme pós Star Wars. O elenco é bom (Kyle Maclachlan cresce de forma admirável ao longo do filme) e tenta transmitir emoção e intensidade, mas são enganados por um argumento que se perde no meio de tanta complexidade.

Uma pessoa acaba o filme sem saber bem o que pensar, a musica dos Toto e Brian Eno é excelente e ajudam a criar todo aquele misticismo exótico neo-oriental da visão de Herbert, o que aliado ao surrealismo de Lynch (muito comedido, mas nalgumas partes nota-se que tentou puxar um pouquinho o limite), e às prestações de alguns actores que quase sussurram (grande parte das falas são pensamentos sussurrados) como que se um sonho se tratasse, dão muita personalidade a Dune, mas uma pessoa fica com aquela sensação que passaram duas horas de uma quase desorganização anárquica, posta em ordem por um pequeno e frágil fio condutor.

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