Solaris [2002]

Aquando da minha maratona Tarkovski, enquanto revia Solaris, não me saia da cabeça que ainda não tinha visto a versão do Steven Soderbergh e que era porreiro inclui-la numa futura edição da Maratona Sci-Fi. E cá estamos.

Desde já é pertinente avisar que esta versão não é suposto ser um remake do filme do Tarkovski, mas uma nova adaptação do livro do polaco Stanisław Lem, portanto podem esperar algumas diferenças substanciais, nem tanto na história em si, mas em algumas decisões visuais e de ritmo. O que salta logo à vista mal começamos a vê-lo é o quão pequena é esta versão de Solaris. E quando digo pequena, é pequena ao ponto de não ir além da hora e meia! Hora e meia! O filme do Tarkovki são quase três horas.

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Solaris 2002

A sua curta duração acaba por transformar toda a percepção que temos do filme. Kris Kelvin chega à estação espacial sobre Solaris logo aos 9 minutos (aos 40 na versão original) e tudo o resto acaba por acontecer e se suceder neste ritmo muito mais dinâmico e activo, o que… pode ser visto como uma mais valia. Ou não, depende do ponto de vista. Para um espectador sem o estado de espírito e disposição para se entregar a um filme, Solaris do Soderbergh é um filme muito mais amigável e convidativo, no entanto, para quem não tiver receios em se deixar levar pela hipnose de Tarkovski, essa diferença no ritmo acaba por afastar ambos os filmes para pólos opostos.

Solaris do Tarkovski é lento e pausado, pede a atenção total do espectador, recompensando-o a longo prazo, colocando-o num estado de hipnose, como se dum sonho etéreo se tratasse. Se estiver no estado de espírito certo o espectador vai absorver aquele ambiente como uma esponja acabando por se transportar para aquela estação espacial. É um compromisso entre espectador e filme, uma simbiose que naturalmente está completamente ausente da versão de 2002. Soderbergh prefere contar a sua história duma forma muito mais streamlined e tradicional.

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Solaris 1972

Curioso que Tarkovski tem fama de ser um autor frio, mas comparando os dois filmes é incrível o quão fria e clínica é a versão de Soderbergh. Até nas escolhas visuais e cromáticas, Solaris de 2002 é angular, pulvilhada por tons azuis escuros e o planeta é um misto de roxo e lilás. É tudo muito frio, apenas nos sonhos e pensamentos do protagonista as tonalidades sofrem uma alteração. Solaris de 1972 não podia ser mais oposto. Todo o filme apresenta uma tonalidade castanha alaranjada como se vivesse num pôr do sol perpetuo, a luz é constante, é quente e suado transformando o filme numa quase permanente alucinação. São diferentes abordagens, ambas completamente válidas que cabe ao espectador decidir qual acha mais eficaz.

Muito honestamente acho Solaris de 2002 uma adaptação interessante e com os seus méritos, decide contar a mesma história com uma visão diferente o que acaba por a tornar minimamente relevante, mesmo sabendo que nunca sairá da enorme e carregada sombra do clássico do Tarkovski. Mas não deixa de ser curioso como sendo quase hora e meia mais curto, o tempo tenha custado mais a passar aqui do que no original.

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