Silence – Silêncio [2016]

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Fui um pouco apanhado de surpresa no final do ano passado quando rebentou o trailer de Silence, o novo projecto do Scorsese, e fui porque não fazia ideia sequer da sua existência.

E o trailer foi como que um soco no estômago de tão bom que era, o tema cativou-me e tornou-se quase imediatamente um dos meus filmes mais esperados para 2017. Dois jesuítas portugueses durante o séc. XVI partem para o Japão feudal em plena perseguição religiosa para procurar um outro jesuíta que, segundo se sabe, renunciou à sua fé. Perfeito, you had me at jesuitas portugueses.

O que segue é uma viagem não só pelo Japão medieval e pela história, mas também pela fé. Os dilemas e a descoberta interna do padre Rodrigues (Andrew Garfield num papelão originalmente destinado para Gael Garcia Bernal) é o ponto central do filme, a forma como a inocência ideológica de Rodrigues é tão facilmente abalada pela brutal realidade do que o rodeia é, para mim, um espelho quer da fragilidade do próprio dogma religioso, mas, contraditoriamente, também um reflexo da força da fé. É essa dualidade, bem marcada ao longo do filme, que torna Silence algo mais do que um simples filme religioso ou a mera propaganda cristã que tanta gente tentou (sem sucesso) vender.

Como Ateu nunca me senti ofendido nem nunca senti que o filme me tivesse a tentar evangelizar e isto penso que se deva muito ao material de origem, o livro homónimo de Shusaku Endo, que pelo que leio é realmente muito bom (devia aproveitar para ler agora que ando de metro) e evita entrar por esses caminhos. Scorsese, como brilhante artesão que é, teve a mestria de traduzir o livro sem cair nessas armadilhas evangelizadoras que tanta gente invariavelmente cai quando se vê em mãos com temáticas fortemente religiosas (aliás como Scorsese tão bem também evitou com The Last Temptation of Christ).

Houve muita coisa que me impressionou em Silence e não falo das cenas de tortura, mas dos aldeões, tão desesperados por se agarrarem a algo, neste caso à fé cristã (que entretanto sofrera inúmeras mutações fruto do reduzido contacto com… cristãos) que se vêm amparados por duas figuras também elas extremamente fragilizadas pela inocência dogmática e dilemas religiosos (por parte de Rodrigues que “deixa” de ouvir a voz de deus). Não quero entrar muito na história em si, até porque isto dava para muito texto, mas a tragédia destes aldeões tocou-me profundamente.

E é com essa parte emocional que Silence realmente me conquistou, semanas depois ainda pensava no filme de vez em quando, dava por mim a estudar sobre os Jesuitas, Portugal no extremo oriente e por aí fora. Esta é uma história que sonhava poder ter investigado, elaborado e ter o talento de a ter escrito, mas que cheguei atrasado.

Silence é só um dos meus filmes favoritos dos últimos anos e uma óptima forma de começar 2017.

Originalmente de 2016, estreou em Portugal em 2017

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