Ben-Hur [1959]

26 DC – 30 DC

Ben-Hur, um dos maiores clássicos da história do cinema, recordista de Oscares a par de Titanic e Return of the King e possivelmente a cabeça de cartaz da época dourada de Hollywood. E já agora, pertinente tendo em conta a época da Páscoa que passámos há dias.

E porque escolhi Ben-Hur? Para além da vontade de o rever, ele mostra algumas facetas que queria destacar, uma delas é a presença duma das figuras mais importantes, não só de Roma mas da história que é, claro, Jesus de Nazaré que viria a mudar (para melhor e pior) os destinos do império já que o cristianismo espalhou-se como fogo em poucos séculos. Haveria melhores exemplos se me quisesse focar exclusivamente nele, mas o tema é Roma, portanto não queria tirar o foco dai.

Outro prisma importante que queria mostrar é o papel da escravatura e das tensões étnicas no império, o héroi Judah Ben-Hur é vendido como escravo após traição do amigo Messala fruto das tensões raciais e étnicas que Roma vivia nos territórios recém anexados. Finalmente, o papel importantíssimo que eram os espectáculos populares, como as corridas de quadrigas que com o passar do tempo tonariam-se fulcrais para a política do império, especialmente mais tarde em Constantinopla e no Império Bizantino.

Ben-Hur é o típico épico de Hollywood clássico onde podem esperar tudo o que se tornou sinónimo disso mesmo, ou seja, milhares de figurantes, cenários extravagantes e megalómanos e uma grandiosidade plástica. Quase todos os filmes históricos deste período sofrem do mal de retratar Roma de forma limpa e brilhante, é um mal comum que uma pessoa aprende a ignorar. Mas há outros aspectos de Ben-Hur difíceis de ignorar, para o bem e para o mal. Este é um filme religioso, não há volta a dar, levarão com uma evangelização forçada típica dum filme conservador centrado em Jesus o que acaba por se reflectir em todo um sentimentalismo forçado e superficial dai inerente, contudo não é menos verdade que por muitos momentos estive colado no ecrã e com nós na garganta, especialmente quando Judah reencontra a sua mãe no vale dos leprosos. É daquelas estranhas contradições em que sabemos que estamos a ser manipulados, mas deixamos nos levar por essa manipulação.

Mas tudo em Ben-Hur é eclipsado pelo seu momento mais alto, a corrida de quadrigas que é só e apenas uma das melhores set pieces jamais filmadas em cinema. E digo-o sem qualquer depreciação nostálgica naquela do “tendo em conta o ano em que foi feito até é bom”. Não, é genuinamente fantástica e rivaliza com qualquer outra sequência de acção posterior, mesmo meio século depois. A composição, os cenários, a intensidade, a ausência de musica, a estrutura, o realismo, a edição que não tem medo de mostrar a acção de forma clara, orgulhosa do que esta a acontecer. Tudo isto torna a corrida em Ben-Hur um dos momentos mais altos da história do cinema e desafio-vos a mostrar uma outra set piece tão perfeita quanto esta.

É um pouco difícil ter a noção do impacto de Ben-Hur no cinema porque de certa forma é a cabeça de cartaz dum género que se tornou desactualizado, ultrapassado e cansado na mente popular actual, mas este foi o apogeu que sinalizou o inicio da queda na sua popularidade. De certa forma as pessoas começaram a pensar “não dá para ser mais épico que isto, porquê tentar mais?” e é um perfeito paralelo com Cleopatra (de que falei ontem) que sairia três anos mais tarde e que abriu as portas para a queda do género.

É difícil falar de realismo histórico quando quase tudo se apoia em alicerces clássicos de Hollywood que, claro, assentam em ficção e muito pouca factualidade, especialmente em pormenores, mas isso não é uma falha de Ben-Hur, era como era e este é apenas um produto do seu tempo. Portanto todo o look limpo e brilhante da antiguidade clássica é obviamente uma fabricação moderna de Hollywood. Mas em termos de narrativa Ben-Hur faz algum esforço (e isto deve-se ao romance em si, esta é apenas uma de muitas adaptações) em colocar a ficção dentro de algum realismo histórico, contudo, tendo em conta de que parte se centra na Judeia do tempo de Jesus, como devem imaginar, há aqui toneladas de ficção Bíblica que não deve ser levada completamente a sério. Em termos históricos Ben-Hur vem na sequência de Cleopatra que termina com Octávio Imperador e aqui encontramos Tiberius (sucessor de Octávio Augusto) como líder romano.

Bom, isto já vai longo. Como filme Ben-Hur é longo e exuberante mas no meio de tanta pompa consegue mostrar muito coração, mesmo que o faça de forma demasiado sentimentalista. Mas aquela corrida… tão boa!

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