Agora – Ágora [2009]

391 DC – 415 DC

Terminamos a nossa primeira edição do 1 Pixel, 6 Filmes com o único filme deste século, e não, não o Gladiator. E faço-o com um filme subvalorizado que aborda temas interessantíssimos e pertinentes para os nossos dias numa época histórica muito pouco focada na cultura popular, que são os anos durante o processo de queda do Império Romano do ocidente. Mas mais importante ainda, este é o período onde o cristianismo e a religião politeísta greco-romana conviviam juntas num cenário muito complicado, porque uma delas estava em clara ascensão indo contra os tradicionais valores filosóficos do que sempre tinha sido a base da civilização Romana.

Eu sou fã de todo este período que engloba o final do Império ocidental e o inicio da alta idade média onde o Bizâncio tomou papel de destaque e é precisamente neste processo que Ágora se desenrola, centrando-se na vida da filósofa romana Hipátia de Alexandria. Não se sabe muito sobre Hipátia para além do que fazia (filósofa, matemática e astrónoma na escola ptolemaica de Alexandria no Egipto) e a sua morte (que não revelarei por ser um spoiler do filme). Muita da aura que a acompanha foi moldada pelos românticos do séc. XIX portanto, como podem imaginar, não é fácil ser historicamente factual, e com efeito há aqui bastante ficção, mais não seja para que o filme tenha algum conteúdo, o que se aceita.

Mas dos seis filmes que vi esta semana, Ágora é de longe, mas de muito longe, o mais realista e factual, nem tanto em relação aos acontecimentos em si, mas na representação do que era a cultura greco-romana do império romano do oriente neste período. Esqueçam o mármore brilhante e polido, Alexandria é uma cidade poeirenta, violenta e suja, as pessoas são desdentadas e vestem roupas usadas e gastas pelo uso e pela passagem do tempo. E isso é maravilhoso! Só lhe faltava ser falado em grego e latim para ser uma autêntica janela no tempo. Aliás, nesse aspecto deve ser mesmo dos filmes mais realistas que já se fizeram. Uma maravilha.

Mas se quiserem saber mais em relação a realismo histórico, por favor dêem uma vista de olhos na review histórica do History Buffs que foi quem me despertou o interesse pelo filme. É excelente:

Em termos históricos, como disse, encontra-se numa encruzilhada temporal importantíssima e de extrema relevância, não só de Roma em si, mas da humanidade. Este é um período em que o cristianismo estava num ascendente tal que as antigas religiões politeístas começavam a perder tanta relevância que chegaram a ser proibidas por Theodosios II. As massas eram tão pobres, miseráveis ou… escravos que a sua visão do futuro era praticamente um corredor escuro e sem grande esperança. Para estas pessoas a mensagem que o cristianismo passava era infindavelmente mais apelativa e, sem surpresas, a conversão foi tremendamente rápida, o que levou a que os próprios cidadãos romanos se tenham convertido para granjear o apoio das populações. Ágora mostra precisamente este confronto de ideias e o papel preponderante que o cristianismo (ainda rudimentar nesta altura) tomou em Alexandria e no Império, ao mesmo tempo que tece paralelismos com a queda de Roma (a cidade e o império ocidental cairia na transição entre actos no filme) personificada na maravilhosa cena de despedida entre Hipátia (Rachel Weisz em grande) e Orestes (Oscar Isaac antes da fama Star Wars) diante da estátua da loba de Roma.

Mas mostra também o futuro que esperava à Europa sobre o manto do cristianismo nos séculos seguintes, onde a arte e a ciência regrediriam para um estado de completo jugo religioso, mergulhando o continente num período de obscurantismo durante a alta idade média, popularmente conhecida como Idade das Trevas. E em Ágora Hipátia simboliza isso mesmo, ela recusa a conversão ao cristianismo, optando por manter-se fiel à sua própria consciência e à adoração do sol, da ciência e filosofia, espelhando a luta entre a luz e e a escuridão que assolava a Europa. Da mesma forma que a luz do império se apagava perante a escuridão religiosa, também Hipátia se desvaneceu.

Como filme, tenho de ser sincero, é que adorei! É um daqueles filmes que gosto de chamar “falso lento”, na medida em que aparenta ser lento, até porque não há sequências que acelerem o filme, mas a sua edição e composição narrativa é simplesmente perfeita o que lhe dá um ritmo irrepreensível. As duas horas passam a correr. É um filme que gosta de desafiar expectativas, gosta de pegar em elementos típicos do género e provoca o espectador a entrar num caminho cliché, no entanto nunca o faz! Não tem receios em contar a sua própria história, à sua maneira e ao seu ritmo. Dos filmes do Amenábar que vi, este é o que mais me pareceu seguro de si, não se apoiando em nenhuma bengala narrativa como os twists de The Others e Abre los Ojos, ou o sentimentalisto de Mar adentro. É um excelente e extremamente subvalorizado filme que tenho muita pena que quase ninguém conheça.

 

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