Na srebrnym globie – O Globo de Prata [1988]

Uma das mais interessantes descobertas que fiz nos últimos anos foi um estranhissimo e meio perturbador filme de terror chamado Possession na maratona terror do ano passado se bem se lembram. Quando o vi nem sabia bem se tinha ou não gostado, mas fiquei seriamente obcecado por ele nos dias seguintes e hoje em dia posso dizer que é um filme que muito estimo.

Esta introdução serve para explicar o porquê de ter escolhido Na srebrnym globie, o ponto em comum é o realizador polaco Andrzej Zuławski que realizou ambos os filmes. Muito honestamente não conhecia este filme, nem mesmo de nome, mas enquanto o pesquisava comeceia ficar fascinado, nem tanto pelo filme em si mas toda a história que rodeia a sua produção.  Zuławski, na altura um promissor artista, viu-se obrigado a exilar para França pelo governo comunista Polaco, no entanto depois de granjear algum sucesso em França ele foi convidado a regressar ao seu pais natal. Desde logo decidiu filmar o seu projecto de sonho, adaptar a trilogia sci-fi Trylogia Księżycowa (Trilogia Lunar) do seu tio-avô Jerzy Zuławski, isto em 1976-77. A produção já avançava a todo a velocidade de cruzeiro com horas de filmagens em diversas localizaçºões pelo mundo quando um novo ministro da cultura decidiu que a mensagem do filme era “subversiva” o suficiente para cancelar o projecto e destruir tudo o que já tinha sido feito. Zuławski voltou a emigrar para França desiludido pela perda de tanto esforço artístico, no entanto, mal ele sabia que grande parte do material tinha sido guardado e escondido pelo elenco e pessoal da produção. Assim, 10 anos depois em 1988, Zuławski conseguiu montar o filme que tinha filmado antes e apresentar no festival de Cannes desse ano. As partes que tinham sido perdidas ou ainda não filmadas foram unidas por cenas do quotidiano de Varsóvia onde o próprio Zuławski narra o que era suposto estar a acontecer.

O que podia ter sido uma incomensurável tragédia e perda para o cinema, tornou-se assim numa das mais belas histórias de esforço e sacrifício artístico, porque Na srebrnym globie é um belíssimo filme que não merecia tornar-se num filme perdido. E quando digo belíssimo, reafirmo-o porque esta é uma verdadeira obra prima visual, tão à frente do seu tempo que uma pessoa até fica de boca aberta quando se apercebe que foi filmada em 1976. Não que os anos 70 não estejam preenchidos por filmes igualmente belos, mas Na srebrnym globie não parece, de todo, um filme do seu tempo, alias de tal forma que mesmo em 1988, quando finalmente viu a luz do dia, ele parece um filme contemporâneo.

A sua sensibilidade artística e visual, a forma como usa a tonalidade cromática como veiculo narrativo, a utilização dos jump cuts da Nouvelle Vague Francesa que é hoje tão popular (ao ponto da saturação) pela geração Youtube, a camera na primeira pessoa cuja presença física é reconhecida e interagida pelas personagens bem antes de Cannibal Holocaust a ter popularizado, a força dinâmica da camera que não ter problemas em correr pelos cenários mostrando a acção de ângulos pouco convencionais e até as pequenas amostras duma visão pós apocalíptica que Mad Max viria a popularizar. Quem me dera que tivesse estreado no final dos anos 70 como era suposto, só para ver o impacto que viria a ter no cinema.

Se técnica e artisticamente Na srebrnym globie é irrepreensível, o mesmo não posso dizer da sua narrativa. Quer dizer… a história é impecável e muito interessante, no entanto a forma como a conta é, vão-me perdoar, desnecessariamente vaga e pretensiosa, vulgo artsy. Eu sei que o Zuławski é assim, Possession também era um pouco, mas Na srebrnym globie é tão excessivo na sua linguagem poética e simbólica e os seus actores tão teatrais que, muito honestamente, durante a segunda parte do filme acabei por perder o fio à meada. Tarkovski também era um realizador poético, mas os seus filmes tão mais coesos e de fácil compreensão.

O que é pena, porque a história de Na srebrnym globie é muito interessante. Num futuro próximo a Terra tornou-se um planeta tão controlado e emocionalmente frio que um grupo de astronautas decide partir para outro planeta em busca de liberdade e felicidade. Com o passar do tempo e de gerações, o grupo forma uma pequena colónia de humanos (as pessoas nascidas lá envelhecem duas vezes mais rápido) que acabam por os ver como deuses criadores, especialmente o ultimo astronauta sobrevivente que vive constantemente numa luta interna e filosofica devido à incapacidade de ser feliz e de reconhecer o que significa ser livre.

Gerações mais tarde um novo astronauta aterra no planeta e é visto como um messias porque as profecias criadas pela colónia indicavam que um novo humano chegaria para os salvar. O que se segue é a incapacidade desse novo astronauta em desempenhar um papel que não é o seu mas que a sua amargura oriunda da sua vida na terra quer que seja. Ele acaba traido e crucificado numa analogia mais que evidente, não só com o cristianismo, mas com a religião em si.

Gostei muito da forma como desmonta as falacidades da religião e as lutas internas do ser humano entre a razão e emoção,mas, como já disse, acho que Zuławski exagerou na forma como o mostrou, o que é pena. No entanto nada disso invalida que Na srebrnym globie seja um excelente filme, sinto-me privilegiado por ter visto algo que era suposto não existir.

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