Dune – Duna [1984]

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Maratona Lynch

Avançamos três anos para o terceiro filme do Lynch que é, de longe, o mais mal amado de toda a sua filmografia, até mesmo por ele próprio que várias vezes admitiu ser o seu pior filme e o que menos gosta por não ter tido a liberdade criativa que queria nem sequer o final cut.

Vi-o no ano passado durante a Maratona Sci-Fi 2016 portanto, está ainda fresquíssimo na minha memória e, admito, não o revi desta vez. Vou aproveitar este espaço para reflectir no que Dune significou para o inicio de carreira de David Lynch e como, de certa forma, permitiu que o resto da sua carreira tenha sido tão brilhante e com um controlo absoluto do realizador sobre as suas produções.

O enorme sucesso crítico de The Elephant Man, que havia sido nomeado para 8 Oscares, incluindo melhor filme e realizador, tornou Lynch no novo menino querido de Hollywood que, como habitual, tem um especial fascínio por novos talentos e oferecer-lhes grandes projectos. Lynch, nesta fase,viu-se rodeado de vários projectos de enorme envergadura como por exemplo Return of the Jedi que acabou por recusar para realizar um outro grande peso pesado da ficção cientifica, este Dune. No entanto, como também é habitual nestes casos, os novos talentos ainda não possuem o peso suficiente para fazer frente aos grandes estúdios e acabam por perder as redeas dos seus filmes.

Foi o que aconteceu aqui e, tal como escrevi há um ano, Dune é um desastre controlado cheio de boas ideias e má execução que espelha bem todos os problemas que o David teve durante a produção, contudo, não deixa de ser um facto que Dune acabou por ter uma enorme importância na sua carreira porque a partir daqui ele teria sempre controlo total nos seus filmes e, penso que nunca mais viria a adaptar um livro ou história não criada por ele próprio.

Mais algumas das suas ligações futuras iniciaram-se aqui como a com Dino deLaurentis que viria a produzir Blue Velvet e claro as parcerias com Kyle Maclachlan e Dean Stockwell que viriam a ter participações em futuros filmes.

Não é tão mau como alguns o pintam, é verdade que tem alguns problemas e é a obra menor de toda a sua filmografia, mas posso dizer que gosto e os seus pontos altos são bastante bons. Só é pena que também tem a capacidade de se afundar com a mesma intensidade.

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Texto original em Maratona Terror 2013

Entramos na década de 80 com o primeiro de quatro filmes. Dune, é a adaptação do muito amado romance de ficção cientifica de Frank Herbert, supostamente “infilmável” dizia-se na altura. E de facto Dune sofreu uma penosa transformação de literatura para cinema, o projecto passou de mãos em mão, de projecto para projecto e por vários estúdios. Uma das tentativas mais reconhecidas e empolgantes foi a do chileno Jodorowski (podem recordar o documentário sobre a sua pré produção, que vos falei no ano passado) que iria ser uma coisa completamente surreal. Ridley Scott também se chegou a envolver nisto, mas coube a David Lynch pegar o touro pelos cornos, uma pega que acabou por o traumatizar.

Já tinha visto Dune em tempos de adolescente numa daquelas sessões da RTP2, não tinha ido muito à bola com ele, se bem me recordo achei-o demasiado frio e distante. É um sentimento que persiste agora vendo-o de novo, no entanto consegui retirar muito mais sumo do que inicialmente estaria à espera. Dizia-se que seria tumblr_mylmktILZG1rkcnt3o1_r2_400 impossível adaptar Dune porque tudo em Dune é… diferente do habitual. Nem irei falar do livro que, mesmo nunca o tendo lido (e tenho de o fazer eventualmente) sei o suficiente para reconhecer que embora superficialmente seja uma história coming of age do herói que se absorve por uma cultura nativa exótica para derrotar as forças imperialistas num cenário sci-fi (Lawrence da Arabia no espaço), no fundo é uma complexa dissecagem antropológica das culturas deste universo, quase caindo num realismo documental histórico (mesmo sendo no futuro :P).

É óbvio que tanta complexidade se torna impossível encolher em duas horas de filme, e mesmo sem ler o livro é mais do que evidente que falta aqui muita, muita coisa. O próprio ritmo do filme sofre com isso com enormes saltos e inconsistências narrativas. Nesse campo, esta versão de Dune tem muitos problemas, e acho que muita da frieza que sinto ao ver Dune passa por isso mesmo. Momentos de tremenda convulsão emocional simplesmente não transparece para o espectador (mesmo com a intensidade das boas interpretações) porque não houve, nem poderia haver em tão pouco tempo, qualquer ligação ou razão emocional para tal. O que é pena porque Dune tem as suas virtudes.

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Acho que o melhor adjectivo para o descrever é inconstante. Dune é lindíssimo mas ao mesmo tempo carregado de maus efeitos visuais. A beleza dos cenários e guarda roupa contrasta fortemente com os efeitos em blue screen que envergonham qualquer filme pós Star Wars. O elenco é bom (Kyle Maclachlan cresce de forma admirável ao longo do filme) e tenta transmitir emoção e intensidade, mas são enganados por um argumento que se perde no meio de tanta complexidade.

Uma pessoa acaba o filme sem saber bem o que pensar, a musica dos Toto e Brian Eno é excelente e ajudam a criar todo aquele misticismo exótico neo-oriental da visão de Herbert, o que aliado ao surrealismo de Lynch (muito comedido, mas nalgumas partes nota-se que tentou puxar um pouquinho o limite), e às prestações de alguns actores que quase sussurram (grande parte das falas são pensamentos sussurrados) como que se um sonho se tratasse, dão muita personalidade a Dune, mas uma pessoa fica com aquela sensação que passaram duas horas de uma quase desorganização anárquica, posta em ordem por um pequeno e frágil fio condutor.

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