Twin Peaks [1990 – 1991]

Chegamos a meio da Maratona Lynch não com mais um filme, mas uma série. É Twin Peaks, claro!

Decidi dividir a série original com o regresso deste ano porque, na prática, são dois “monstros” distintos e merecem ser discutidos individualmente. Admito que é um pouco batota meter uma série no meio duma maratona de filmes, não só pela longa duração que 30 episódios (que sim, não os revi agora pela simples falta de tempo) encarregam, mas também porque não é uma criação do Lynch a 100% mas sim uma colaboração com o Mark Frost e só um punhado de episódios foram realizados por si.

Mas Twin Peaks é tanto de Lynch como qualquer dos seus filmes e isso nota-se na entrega e amor que ele deu a este novo universo que viria a revisitar por mais duas vezes no futuro. E que universo este! Uma mistura de novela melodramática com as bizarrices surreais típicas da sua filmografia, Twin Peaks e o mistério da morte de Laura Palmer apaixonou meio mundo no inicio da década de 90 e revolucionou não só a forma como se fazia TV, mas também a forma como o publico passou a ver e a exigir TV. 

Desde logo, Twin Peaks decidiu abandonar os espartilhos típicos das séries que se apoiavam na estrutura trazida do passado onde cada episódio era autónomo e independente de forma a não alienar novos espectadores (ainda não havia internet para ver episódios ao ritmo de cada pessoa) e adoptou uma estrutura retirada das chamadas soap operas ou telenovelas onde cada episódio era uma continuação directa do anterior, criando uma única linha narrativa e obrigando assim os espectadores a ligarem-se na TV a cada semana com receio de perder história.

Mas não foi só a estrutura que Twin Peaks “roubou” às telenovelas, cada episódio era recheado de exagerados melo-dramatismos e terminavam com twists escabrosos tão comuns nas soap operas de final de tarde, mas desenganem-se se acham que eram usados de cara séria, isto era acima de tudo uma paródia e uma desconstrução de todas as expectativas, Lynch e Frost pegam na novela melodramática que todos esperavam ver e oferecem um espectáculo surreal, experimental e tenebroso quando os espectadores se sentiam mais seguros e vulneráveis. Twin Peaks teve os momentos mais cheesy, cómicos, bizarros, sentimentais e assustadores da TV até então.

O meu primeiro contacto com Twin Peaks foi (deixa ver quando foi transmitido por cá… hum… logo em 1990? Cool.) com 7 anos, para ser sincero pouco me ficou da altura em termos narrativos, as recordações que guardo da altura era a minha família (e eu, claro) a ver os episódios, de ter medo da musica introdutória do Angelo Badalamenti e da cena final da série que me marcou e à minha irmã e tornou a experiência de lavar os dentes à noite… interessante. Entretanto já em em adolescente revi a série e apaixonei-me definitivamente.

Acho que a grande atracção que eu e muito gente tem por Twin Peaks, é o fascínio inerente a todos os filmes do David,  aquela mistura entre o real, mundano e inofensivo com os pequenos sinais de algo estranho e fora do normal que se mostra por entre as pequenas falhas na capa da normalidade e que a nos faz questionar. Aqui esse sentimento é muito mais contido que nos seus filmes (muito porque isto era transmitido em sinal aberto) mas ainda muito visível, não só nos habitantes bizarros da pequena cidade, mas também (e principalmente) em todo o ambiente negro e ominoso que pairava por toda a história e que de vez em quando decidia descer e marcar presença. Aquando do cancelamento da série, depois de más audiências provocadas pela interferência da ABC na segunda temporada, Lynch e Frost mergulharam a série de cabeça nesse oceano surreal, dando-nos as horas mais maravilhosas que a TV alguma vez teve o privilégio de transmitir.

O impacto de Twin Peaks na história da TV foi tremendo e abriu portas para novos projectos experimentais como The X-Files e mais tarde à revolução que vivemos hoje em dia, mas também afectou David Lynch, que mais uma vez se sentiu traído pelas interferências externas como havia sentido anos antes com Dune. Enfrentou os críticos com uma prequela no ano seguinte decidindo mergulhar ainda mais fundo nesse oceano surreal que havia mostrado na série e, a meu ver, foi o ponto de viragem nos seus projectos, preferindo sempre contar histórias à sua maneira sem sequer ter em conta elogios críticos e potenciais estatuetas.

Por falar na prequela, amanhã ou assim será dia de Twin Peaks: Fire Walk With Me.

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