Lost Highway – Estrada Perdida [1997]

Entramos numa nova fase da filmografia de David Lynch que gosto de chamar a fase Los Angeles (The Straight Story à parte), um período ainda mais negro e etéreo onde os sonhos e a mistura entre realidade e ficção se misturam. Lost Highway é a primeira das duas partes que Mulholland Drive complementa, e é importante vê-los como irmãos porque ambos os filmes partilham muitas, muitas semelhanças de tal forma que vejo este Lost Highway como um protótipo de Mulholland Drive.

Lost Highway reflecte na perfeição a sua origem, em diversas entrevistas David Lynch menciona que a ideia do filme surgiu numa mistura de sonhos e ideias perdidas que acabaram coladas e misturadas entre si, e é isso mesmo que acabamos por ver. Uma colagem de ideias nem sempre bem estruturadas e desenvolvidas que, de certa forma, espelham a experiência dum sonho ou de uma alucinação. Ok, mas isso é uma marca da sua filmografia, qual é a diferença aqui? Honestamente acho que o filme se perde um pouco precisamente por ser baseado num argumento retalhado saído inteiramente da cabeça do Lynch sem ter algo por onde se guiar.

O resultado é uma experiência visualmente sofisticada e com um enorme sentido estético, mas que tem dificuldade em passar a ideia de que é mais do que simples estilo sobre substância, o que é pena porque se conseguirmos vê-lo para além dessa fachada estilística (e ajuda ler, e muito, sobre a sua narrativa metafórica) conseguimos ver que Lost Highway tem mais peças de puzzle escondidas que não vemos inicialmente. Muita dessa culpa, a meu ver, é do próprio filme que adora pavonear-se na frieza da sua estética e sonoridade onde Smashing Pumpkins, David Bowie e Rammstein se misturam com casacos de cabedal fino, cabelos platinados, muito gel e arquitectura minimalista do virar do milénio.

Vou ser muito sincero, não entendi grande parte do filme, mesmo sendo já relativamente experiente e conhecedor dos filmes do Lynch, e muito disso, admito, veio de mim e da minha dificuldade em sair do caminho falsamente linear que o filme nos dá. Quando entendemos certos factos e mensagens, as coisas encaixam com tal facilidade que, a meu ver, revela que muitas das coisas sem sentido aparente (e que o próprio Lynch admite que não é suposto ter) só precisam daquela ultima peça para aguentar em pé.

Um Bill Pullman bem mais negro do que nos habituámos a ver e uma hipnótica Patricia Arquette estreiam-se em filmes do Lynch logo como protagonistas e…. não sei, não os achei especialmente marcantes e acabam por serem tão frios e distantes quanto o próprio filme, o que se calhar explica o facto de não mais terem colaborado com ele, não sei, mas de qualquer das formas encaixam muito bem com o ambiente do filme. De resto, foi engraçado reencontrar Jack Nance que, corrijam-me se estiver errado, acho que é o único dos habitues no filme.

De qualquer das formas e mesmo tendo sido um dos seus filmes que menos gostei, Lost Highway é uma experiência e pêras que merece ser descoberta.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: