Jogar a História – A Idade das Trevas e a Alta Idade Média

Como terceira parte nesta minha jornada em busca de jogos que nos ajudem a compreender a História, decidi dar o seguimento lógico à segunda parte que se focava em Roma e entrar de pés juntos no período que a sucedeu, a Idade Média.

A Idade Média é extensa e de certa forma bastante distinta entre o seu inicio e final, decidi dividi-la entre dois períodos, a Alta e Baixa Idade Média. Há bastantes jogos dentro deste período, assim até é uma decisão que me ajuda a focar em alguns períodos temporais específicos. Coloquei a fronteira entre os dois períodos nas cruzadas (que é uma divisão que se aceita) assim, para esta terceira parte, decidi escolher a Alta Idade Média, entre 476 e 1095, popularmente denominada de “idade das trevas” na Europa, se bem que esse seja um termo que dependa muito do ponto de vista.

Na Europa Ocidental durante esta época assistimos a uma continuidade dos processos de despovoamento e abandono urbano, causadas em parte pelas invasões bárbaras iniciadas no final da antiguidade que falei ao de leve no anterior artigo. Os povos bárbaros formam novos reinos, apoiando-se em parte na estrutura deixada pelo Império Romano do Ocidente. A oriente a parte sobrevivente do Império Romano, normalmente denominado (embora ainda se auto-intitulassem como Império Romano) por Império Bizantino adoptou o papel forçado de bastião da cristandade e dos valores greco-latinos da antiguidade. A ocidente os novos reinos cristãos criados a partir das tribos celtas e germânicas, ocuparam o vazio deixado por Roma e a sul as forças islâmicas viriam a ocupar o sul do mediterrâneo e o próximo oriente. O Califado Omíada cresceu de forma vertiginosa em poucas décadas e acabou por ser, a par de Bizâncio, a luz dentro da escuridão durante este período pós clássico no campo da ciência, filosofia e das artes. No extremo oriente, também a China vivia um período de prosperidade onde a cultura e ciência floresciam a um ritmo que a Europa nem sequer sonharia ser possível e era casa de mais de 80 milhões de pessoas.

Este é um período da história extremamente interessante, povoado por fantásticos acontecimentos e personalidades como Muhammed que fundou o islamismo e uniu os povos árabes, o Imperador Justino que tentou, em vão, recuperar as antigas fronteiras Romanas, Carlos Magno que elevou os Francos a principal potência europeia e originou a fundação do Sacro Império Romano-Germânico ou Carlos Martel que mudou a história europeia ao vencer a força islâmica de Al Ghafiqi na batalha de Tours.

São acontecimentos importantes, mas como é óbvio pouco retratados em jogos. Aliás, até se compreende a baixa atracção que esta época provoca de forma geral porque, surpreendentemente, não há tantos registos históricos como se pode pensar, aliás esta é uma época caracterizada por uma relativa escassez de registos e outros escritos, causada pelas deteriorações culturais e económicas que ocorreram após o declínio do Império Romano e a ascensão do cristianismo no ocidente. O hábito romano de registar e escrever perdeu-se com o tempo e com as novas mentalidades, o latim foi desaparecendo e sofrendo mutações linguísticas e a cultura germânica tomou parte da Europa. Não é por acaso que em inglês se refira a esta época The Dark Ages, o iluminismo e brilhantismo da antiguidade desaparecera, dando lugar a uma cultura onde muito do que havia sido construído e criado perdeu-se com o tempo.

Bom, mas voltando aos jogos, mesmo sendo menos popular que a baixa idade média (que falarei posteriormente), este meio milénio tem algumas boas representações “videojogáveis” que são muito pertinentes para este artigo, infelizmente, como devem imaginar o foco da industria é obviamente ocidental, portanto jogos que se foquem no mundo islâmico é escasso, pior ainda se quisermos conhecer a China ou Índia, as duas maiores potências mundiais.

Age of Empires II: The Age of Kings

Falei-vos de Age of Empires 2II há uns meses no Lembram-se? e também da sua prequela aquando do episódio dedicado a Roma, portanto é fácil ter uma ideia da sua relevância. Acima de tudo é importante para ter uma certa ideia de como os povos evoluíram através das diferentes características como a agricultura, mineração, comercio, militarização e por aí fora. É certo que Age of Empires 2 foca-se essencialmente na baixa idade média, portanto um pouco à frente do período que estamos a falar hoje, no entanto, o primeiro terço da árvore tecnológica é focado precisamente na alta idade média e é muito interessante ver a evolução das diferentes civilizações com o passar das diferentes eras.

À semelhança do que vos disse sobre o primeiro Age of Empires, vejam esta sequela como uma suave porta de entrada e uma introdução para esta época, por esse prisma este é um excelente primeiro passo para começar a compreender este período histórico.

Age of Empires (ou um qualquer Civilization que nunca menciono nestes artigos por ser tão abrangente) é perfeito para ter uma noção básica e introdutória do período em questão, mas se quisermos aprofundar conhecimentos teremos de ir mais fundo!

No anterior episódio sobre Roma falei sobre as grandes invasões e migrações dos povos do norte que eventualmente despoletaram toda uma linha de dominós que levaram à eventual queda de Roma e do Império do ocidente. Atilla: Total War e Rome: Total War – Barbarian Invasion servem para mostrar esse movimento, mas há melhores exemplos, menos óbvios e mais desconhecidos.

Great Invasions

Tenho de admitir que não conhecia Great Invasions antes da minha pesquisa por jogos desta altura, o que é estranho, porque esta é uma obra de Philippe Thibaut um dos criadores do Europa Universalis original, de tabuleiro. E é fácil tecer paralelismos entre os dois jogos já que ambos partilham inúmeras semelhanças, desde logo os objectivos gerais que passam por gerir as finanças, diplomacia, religião e a parte  militar do país ou tribo que escolherem, sim, porque muitas das facções nem são bem países ou reinos em si, mas mais uma aglomeração de pessoas etnicamente comuns.

O interessante em Great Invasions, que não encontramos nos jogos tradicionais da Paradox, é a possibilidade de gerir migrações populacionais que foram tão importantes nesta época, para além de possibilitar o controlo em simultâneo de 10 diferentes facções o que é… novo, acho que nunca vi um jogo deste tipo a optar por esse caminho

Os jogos da AGEod são caracterizados por realismo histórico e são movidos por eventos reais, portanto podem estar descansados que aqui a experiência é realista e pede ao jogador um relativo conhecimento histórico para ser capaz de reagir a todas a mutações que surgiram durante este período (Great Invasions cobre precisamente o período deste artigo).

Roma caiu, mas o Império Romano continua vivo a oriente. É certo que mais grego do que latino, mas Constantinopla e o Império Bizantino ainda são Roma e de certa forma desempenharam o papel de iluminar a Europa durante estes séculos. Durante toda a Alta Idade Média até às cursadas, o Império Bizantino era a maior potência europeia, não é por acaso que sobreviveu um milénio no meio de tempos tão tumultuosos.

Não há, infelizmente, muitos jogos que se foquem exclusivamente no Império Bizantino (volto a enfatizar, porque nunca é de mais, que esse termo não existia na altura, continuava a ser Império Romano) e os que se focam são normalmente jogos de estratégia onde eles são apenas uma das facções (continuo a sonhar com um jogo de aventura e mistério passado em Constantinopla).

Total War: Attila – The Last Roman

Vou fazer batota e falar, mais uma vez de Total War: Attila (fi-lo no episódio de Roma) isto porque, não há muitos jogos que retratem os séculos imediatamente pós queda de Roma. Rome: Total WarBarbarian Invasion e Medieval II: Total War: Kingdoms mostram, e aconselho, mas Total War: Attila vai mais além, caso joguem as suas principais expansões Viking Forefathers, Longbeards, The Last Roman, Empires of the Sand e Age of Charlemagne.

As expansões permitem focarmos não tanto na sobrevivência e queda do Império Romano do Ocidente, mas sim conhecer o pós Roma. Conhecerão os povos nórdicos (hoje em dia mais conhecidos como Vikings) que desde a Escandinávia atacavam a costa da Europa, o avanço islâmico no norte de África e médio oriente, as guerras de Justino, o reinado de Carlos Magno entre outros. Já aqui falei, e muito, do que a série Total War nos pode ensinar por isso não me irei repetir, o que interessa destacar em Atilla para este período é mesmo, volto a enfatizar, o pós Roma e nem tanto a queda em si.

E a expansão que decidi escolher para este período é precisamente o The Last Roman. Para ser muito sincero foi o único jogo que encontrei que focasse o Império Romano do Oriente (ou Império Bizantino) durante esta época. Centrado no reinado do Imperador Justino (ou Justiniano), da sua esposa Teodora e do seu general Belasarius, este é um período da história extremamente fascinante que não consigo fazer jus nestes parcos parágrafos, aconselho-vos a ver os episódios que o pessoal do Extra History fez sobre isto.

Esta expansão permite-nos também observar as políticas deste período, desde a organização dos povos ditos bárbaros em reinos organizados, onde os Francos liderados por Carlos Magno agarraram no legado de Roma a ocidente sob tutela do Papa, enquanto que a oriente o Império Bizantino funcionava como ultimo bastião dos valores Romanos.  

A Idade Média, em especial a alta, não era composta por um conjunto de estados e países como normalmente associamos hoje em dia (uma ideia que só se começou a formar após o tratado de Vestfália no século XVII) em vez disso eram compostas na sua maioria por terras controladas por casas e dinastias. E uma das casas reais mais importantes, influentes e poderosas da época, em especial na Europa Ocidental e central era a dos Carolíngios que controlavam o reino dos Francos (futuramente França) e mais tarde as actuais Alemanha e Itália. A grande cabeça de cartaz dos Carolíngios, que chegou a ser coroado como Imperador Romano pelo papa numa desesperada jogada de fervor nostálgico (dá para ter uma ideia de como a ideia Romana ainda era tão prevalecente no consciente popular) foi Carlos Magno, ou Charlemagne.

Carlos Magno juntou em si o maior território pós Império Romano que a Europa alguma vez veria até… Napoleão, talvez. Durante o seu reinado foi criado o Sacro Império Romano-Germânico numa tentativa (fútil) de reestabelecer o ideal Romano (que ainda persistia em Constantinopla) e que durou mais de mil anos. O seu reinado de 46 anos anos ajudou a Europa a restabelecer-se depois dos tumultos deixados pela queda do império Romano e a criar uma nova identidade europeia baseada no cristianismo papal e uma filosofia centrada no feudalismo e legitimidade nobre e da realeza.

Crusader Kings 2: Charlemagne

 E que melhor jogo para ensinar isso do que Crusader Kings 2? Não há.

Uma das cabeças de cartaz dos jogos de estratégia da Paradox (nos anteriores episódios falei-vos de Europa Universalis: Rome e Victoria 2) Crusader Kings 2 dá-nos a possibilidade de controlar um país e todas as suas diferente características (politicas, militares, económicas e comerciais) não como um chefe de estado omnipresente como habitual, mas sim como o líder duma casa dinástica, ou seja como um simples membro da família real. O mais fascinante na ideia é que não deveria funcionar mas, incrivelmente, consegue ser uma tremenda experiência onde o role-play acaba por ser uma parte integrante de tudo isto.

Professores de História que estejam a ler isto, não há melhor ferramenta para ensinar as diferenças entre títulos nobiliárquicos e todos os termos dai associados. Sim, ouvirão os vossos pupilos a perguntar se “o duque é vassalo ou líder de jure das terras do conde” com todo o entusiasmo que só Crusader Kings 2 pode dar. 😀

Knights of Honor

O nome Crusader Kings pode induzir em erro e passar a ideia de que se foca apenas nas cruzadas (que não serão tema deste 3º episódio do Jogar a História). De facto o jogo original foca-se nesse período, mas aqui estou apenas a falar duma das suas expansões (e há muitas) intitulada de Charlemagne que, como devem imaginar, centra-se no reinado do rei dos Francos que vestiu o manto de Imperador Romano três séculos após a queda de Roma. É um bom jogo para complementar o que falei sobre Total War: Attila – The Last Roman porque, de certa forma, mostra a tentativa de preservar a ideia Romana, neste caso no ocidente.

Ainda na mesma onda aconselho também Knights of Honor que engloba na perfeição os anos deste artigo, vejam como uma mistura dum jogo da Paradox e da Creative Assembly, na medida em que casa na perfeição as partes de estratégia e táctica.

Mas história não é apenas a Europa, nem deve ser porque embora grande parte do continente estivesse mergulhado num relativo obscurantismo o mesmo não era verdade fora dela.

O Islamismo conheceu um rapidíssima expansão desde as suas origens na península arábica no séc. VI. Em poucos séculos quase todo o médio oriente, norte de África e partes da Europa já eram controladas pela nova religião que, contrariamente ao cristianismo abraçava o iluminismo e o conhecimento que as culturas greco-romanas deixaram. Bagdad, Alexandria e Córdoba tornaram-se os grandes centros do conhecimento e desenvolvimento cientifico e artístico que a Europa jamais sonharia igualar nos séculos seguintes, além do já mencionado Império Bizantino.

Também na China, durante tantos séculos na vanguarda cientifica, vivia uma época dourada após a implementação das dinastias imperiais. O período entre a dinastia Han, os três Reinos e a posterior dinastia Tang tornaram o gigante asiático na maior potência global.

Infelizmente, quer no caso Chinês quer no Islâmico ou até mesmo com a Índia, há muito poucos jogos que possamos dizer que se  foquem neles, é uma consequência duma industria quase completamente dominada pelo Ocidente que, como sabemos é fascinada pela história europeia e está mergulhada num preconceito, especialmente em relação a tudo o que é islâmico.

De qualquer das formas, jogos que já falei aqui hoje como Crusader Kings 2 (para a China precisarão da expansão Jade Dragon, Sword of Islam para os muçulmanos) e Atilla Total: War abordam indirectamente ambas as culturas, mais não seja por serem facções jogáveis. São culturas com Histórias fascinantes, mas infelizmente não há muito por onde pegar em termos de jogos. O que é pena.

Uma das culturas deste período que mais fascina o pessoal hoje em dia é de longe os Nórdicos da Escandinávia, vulgarmente conhecidos como Vikings. Tenham cuidado ao usar o termo Viking porque eles não eram um povo ou uma cultura. O nome era usado apenas aos exploradores que faziam os temíveis raids e conquistas por toda a Europa. Duma forma crua, os Vikings eram Nórdicos, mas nem todos os Nórdicos eram Vikings.

Curiosamente os Nórdicos pré cristãos não eram muito adeptos de registar e documentar a sua cultura, assim, hoje em dia é relativamente raro encontrarmos muitos registos sobre os Vikings, a esmagadora maioria provem dos povos que eles atacavam, portanto, é fácil ver que a maioria dos registos e a consequente fama que temos deles não seja a mais pacifica e imparcial.

É fácil imaginar que um povo que desperta tanto fascínio em nós hoje em dia esteja retratado em inúmeros jogos, é verdade, está, contudo não é menos verdade que a esmagadora maioria deles estão carregados de elementos sobrenaturais e mitológicos, não fosse a mitologia nórdica tão popular hoje em dia (enquanto vos escrevo passa na TV um anuncio de Thor: Ragnarock).

Expeditions: Viking

Acho que em termos de realismo histórico e cultural é difícil não falar no recente Expeditions: Viking, não por ser 100% factual, mas pela francamente pobre escolha. Sequela do igualmente interessante Expeditions: Conquistador (que vos falarei noutro episódio) este é um jogo que se foca na exploração e combate por turnos duma expedição Viking que procura melhores pastos fora da terra natal (num dos famosos raids que se estendiam do norte até ao Mediterrâneo).

Hellblade: Senua’s Sacrifice

O rigor histórico que os developers usaram para retratar a cultura nórdica é digna de nota, desde a forma como viviam, comiam, lutavam e interagiam entre si, e só por aí é relevante para quem se interessa, não só pela povo em si, mas pelo período de uma forma geral, isto porque muita da forma de vida dos Vikings era a mesma de parte da Europa.

Se quiserem uma pequena dose de mitologia no vosso jogo histórico (e eu sou muito liberal nisso, aconselhei o horrível Ryse: Son of Rome no anterior artigo) então não vão mais longe que Hellblade: Senua’s Sacrifice, um excelente pequeno jogo centrado na cultura  Celta e Nórdica que é óptima para terem uma perspectiva mais “no terreno” de alguns aspectos deste período. É um bom jogo que se foca na doença mental da protagonista, com muito respeito e realismo. Aconselho.

Das coisas que mais gosto de explorar e estudar na História, são as pessoas e como elas viviam, trabalhavam, divertiam-se mas acima de tudo sobreviviam. Estes eram tempos muito difíceis para uma pessoa simples e a vida era mesmo um luta pela sobrevivência, na maior parte. Ser um aldeão era um verdadeiro desafio de sobrevivência com doenças, guerras e exploração, uma autêntica miséria que, curiosamente, foi uma das grandes razões da prosperidade das religiões abraâmicas que prometiam o paraíso após a morte. A expectativa de ter algo para além da miséria da vida terrestre era tanta, que as pessoas adoravam a ideia de que a nossa passagem na terra era apenas temporária. 

Acho fascinante tentar imaginar como seria interagir com pessoas do passado, mas infelizmente isso quase nunca é bem retratado em videojogos, preferindo adoptar uma caracterização muito mais genérica e romântica das coisas. Mas há alguns exemplos que tentam mostrar um maior realismo das coisas. Poucos, mas há.

Banished

Uma das maiores ideias erradas que as pessoas têm da idade media, que sejamos sinceros foi moldada por uma visão romântica ao longo dos séculos, é a vida das pessoas comuns que era… bom, horrível. A imagem romântica e idílica moldada nos séculos seguintes veio tapar um pouco a dificuldade que era sobreviver naquele tempo e consequentemente não é tarefa fácil encontrar jogos que retratem isso mesmo. Temos, no entanto, Banished que, nesse aspecto, é uma tremenda lufada de ar fresco.

O grande ponto de interesse de Banished e que o torna tão único em relação a tantos outros city builders históricos é a vertente de sobrevivência que o elevam de um simples jogo de estratégia para algo realmente único. Uma aldeia medieval era na sua essencial uma família que se via obrigada a viver em comunidade para sobreviver à fome, ao frio e doenças. Banished emula precisamente isso, cada aldeão é uma peça fulcral na comunidade e simples tarefas como plantar uma colheita a tempo do inverno ou manter animais da quinta vivos para cultura podem significar a morte de pessoas e famílias inteiras.

É um dos jogos mais educacionais de toda esta lista e que merece ser jogado e ensinado a quem acha que a vida medieval era o que se vê nos filmes.

Mount & Blade II: Bannerlord

Mais uma batota? Quase, na medida em que Mount & Blade II: Bannerlords ainda não viu a luz do dia, mas deverá estar para breve. Na verdade poderia e deveria, se calhar, falar do jogo original que está aí para todos jogarem e deverá partilhar as mesmas mecânicas e atenção ao detalhe desta sequela. Mas Mount & Blade II: Bannerlords retrata precisamente a alta idade média recuando em 200 anos o período retratado no original. Conhecendo todo o rigor histórico e atenção ao detalhe que o pessoal da TaleWorlds Entertainment coloca nos seus jogos, é pertinente falar dele.

Mas, rigor histórico num setting fictício? Pois, é verdade que este é um mundo de fictício, chamado de Calraria, mas os paralelismos com a nossa história são demasiado evidentes, para além de que, mais cedo ou mais tarde, haverá mods que mudarão nomes para reflectir a nossa história.

Mas o importante em Mount & Blade é a forma realista como retrata o mundo medieval, o combate, as roupas, o ambiente, as ferramentas, ou seja, é puro turismo histórico e uma perfeita ferramenta para ter uma noção de como seria navegar, caminhar e viver na alta idade média.

Para terminar, gosto sempre de falar do mundo em si, da forma como o ambiente e a atmosfera afectavam o modo de vida medieval, a mentalidade, as filosofias e a forma de pensar. O período pós-Romano foi uma época de perda e nostalgia para grande parte da Europa, mas também abriu portas para um novo caminho, novas formas de pensar e agir que, goste-se ou não, moldaram o nosso presente.

RPGs são possivelmente o melhor género de jogos para mostrar isso mesmo, os jogos em baixo são mundos vivos que pedem ao jogador que se deixe emergir e, de duas formas completamente opostas (já vão ver) acho que retratam muito bem o que eram as chamadas “Dark Ages“.

The Age of Decadence

Outra batota, e esta bem mais“grave” que vou tentar não repetir no futuro, isto porque The Age of Decadence é um jogo de fantasia, e fantasia está proibida de entrar aqui. A cena é que joguei-o recentemente e é perfeito na forma como mostra um mundo deixado órfão de séculos dum estilo de vida que com o passar dos séculos se tornou quase lendário.

Os paralelismos com o período pós queda do Império Romano não é acidente, porque os próprios criadores pegaram em Roma como inspiração. The Age of Decadence mostra um mundo dividido e enfraquecido após a queda dum império milenar e a forma como esse império foi sendo esquecido pelo tempo e pela geografia da mesma forma que a Europa da idade média se esqueceu dos valores Roma, elevando-a para um imaginário quase mitológico, com diversas personalidades a tentarem ressuscitar essa passada glória iluminista através de novos impérios como o Sacro Império Romano-Germânico. Não gosto de trazer fantasia para o meio de discussões históricas, mas o que The Age of Decadence faz com o seu mundo e a forma como emerge o jogador nesse sentimento de nostalgia e perda por tempos passados é, honestamente, digno que se “estudar”.

The Great Whale Road

Voltando para uma toada historicamente realista. o recente The Great Whale Road que com The Age of Decadence partilha a estrutura de RPG com combate por turnos, representa realisticamente o mar do norte do séc. VII possibilitando ver as lutas de conquista e sobrevivência na perspectiva dos Dinamarqueses (vulgarmente conhecidos como Vikings) os Francos e os Frísios.

O grande ponto de interesse prende-se na forma como divide a jogabilidade entre o Verão e o Inverno, onde é planeada a campanha do Verão seguinte no qual os mantimentos deverão ser recolhidos para sobreviver o inverno seguinte. E esse era um papel tremendamente importante na Europa medieval, o ano era dividido em duas épocas e a sobrevivência durante os tempos difíceis do inverno dependiam duma boa colheita no verão.

E chegamos assim ao fim de mais um Jogar a História, este terceiro episódio deu-me bastante gozo porque, embora não existam muitos jogos por onde escolher, os que escolhi são todos bastante bons e no caso dos que não conhecia, gostei muito de os descobrir.

Para quarto episódio ainda não sei bem em que período me focar, tenho algumas ideias mas vai acabar por depender do estado de espírito que estiver. Entretanto, num futuro próximo não percam mais uma edição do 1 Pixel, 6 Filmes que se focará precisamente na Alta Idade Média e servirá para complementar este artigo.

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