Hellblade: Senua’s Sacrifice [2017]

Carregada de determinação, perseverança e tenacidade, Senua desembainha da sua espada pintada num intenso brilho azul, tão azul quanto o seu olhar. À sua frente, mergulhada numa ténue e pestanejante luminosidade, a deusa Hela encontra-se ladeada por figuras negras envoltas numa névoa escura como a noite. Esta música começa a tocar, Senua avança sem hesitação por entre corpos inimigos que, como um bailado mortal, a tentam parar. A música aumenta de intensidade. Dou por mim a relembrar tudo o que Senua já teve de passar, de tudo o que a tenta e tentou parar. A sua espada silva o ar em sua volta, corpos caem ao seu lado como que em câmera lenta. A música volta a subir de intensidade. Hela olha Senua nos olhos por entre as sombras do negrume da névoa. Senua continua a avançar Estou completamente arrepiado.

Este momento, durante a ultima sequência de Hellblade: Senua’s Sacrifice foi daqueles que fizeram um clique cá dentro, um daqueles cliques que me dizem que estava a jogar algo especial. Aquele momento em que me esqueço de que estou a jogar e crio uma ligação, não uma daquelas mecânicas de quando ficamos absorvidos por um jogo, mas emocional que, infelizmente, ainda são tão raras em jogos.

Hellblade: Senua’s Sacrifice foi uma tremenda experiência que vou demorar a esquecer e digo já que vai levar nota máxima, é apenas o 12º jogo a sair com nota máxima aqui no PixelHunt e isso acaba por ser um reflexo do impacto que teve em mim. E o que o torna digno de entrar no restrito clube de jogos de 5 estrelas? É certamente fácil encontrar falhas e limitações em termos de gameplay ou profundidade das suas mecânicas. Se são daqueles que prezam apenas essa vertente mecânica e fria acho que podem ficar por aqui e esquecer Hellblade. Quem dá ênfase a tudo o resto, podem continuar a ler.

Estive mesmo quase, quase a não comprar o jogo. Já há alguns meses que vinha ouvindo falar dele, o tipo de jogo e a suas temáticas pareciam mesmo a minha onda mas, o dinheiro é pouco e tive de fazer algumas concessões na hora de escolher o que comprar no final de ano. À ultima hora lá decidi comprar e acabou por ser a melhor decisão “videojogável” que tive em 2017.

Hellblade: Senua’s Sacrifice ganhou bastante notoriedade este ano por causa de alguns aspectos interessantes. O facto de ser uma produção independente dum estúdio (Ninja Theory) habituado a orçamentos AAA. O meio termo que encontraram é um prova de que a industria é e pode ser mais do que um jogo de extremos entre orçamentos milionários e produções independentes dum par de gatos pingados que precisam de pagar as contas da luz. Hellblade foi um sucesso e isso é uma luz no horizonte no que ao futuro da industria diz respeito.

Mas o principal ponto de interesse e que o fez ser falado na imprensa e por entre os jogadores mais atentos é o seu tema central e a forma como o explora. Hellblade: Senua’s Sacrifice é uma aventura protagonizada por uma rapariga celta da tribo dos Pictos no século VIII (os meu lado nerd de História começa a esfregar as mãos) que sofre de psicose.

Psicose é um quadro psicopatológo no qual se verifica certa “perda de contato com a realidade”, sendo esta entendida como séries de saberes, constructos e símbolos compartilhados e validados socialmente. Nos períodos de crises mais intensas podem ocorrer alucinações ou delírios, desorganização psíquica que inclua pensamento desorganizado e/ou paranoide, acentuada inquietude psicomotora, sensações de angústia intensa e opressão, e insônia severa. Tal é frequentemente acompanhado por uma falta de “crítica” que se traduz numa incapacidade de reconhecer o carácter estranho ou bizarro do comportamento. Desta forma surgem também, nos momentos de crise, dificuldades de interacção social e em cumprir normalmente as atividades de vida diária.

A forma como o jogo aborda a doença mental, em especial a psicose, é corajosa e importante, não só por abrir o meio a novas e pertinentes discussões, mas essencialmente pela forma como introduz quem joga a essa mesma realidade, quer sejam ou não afectados por ela na realidade. Os inúmeros relatos de pessoas (como o Sidcourse) que atestam o realismo e o respeito como Hellblade retrata o que é viver com psicose é o que basta para me encher o coração de calor pelo papel positivo e de ajuda que este meio pode ter na na nossa sociedade que, como sabemos, vê os videojogos com tanto desdém.

Mas do ponto de vista puramente mecânico o que mais impressiona na caracterização da psicose não é a história ou a narrativa das dificuldades de Senua, mas sim como o gameplay, as mecânicas e o sound design são usados como forma de mergulhar o jogador na realidade de Senua, criando um tremendo desconforto emocional no jogador que já estaria, à partida, vulnerável com a narrativa e as temáticas inerentes a um jogo de terror como este. E que terror! Nem falo do terror mental inerente à temática, mas como puro jogo de terror, Hellblade é fantástico e toca em muitos dos pontos clássicos do bom terror.

E claro, Senua. É uma personagem tão bem escrita e desenvolvida. É tão bom sentir que ainda há espaço para personagens realistas que consigam fugir às trapalhadas típicas da industria mainstream e é uma lufada de ar fresco poder escapar aos clichés dos “escolhidos-que-salvam-o-mundo-duma-ameaça-sobrenatural-no-meio-de-tiros-e-violência”. Hellblade (e grande parte da industria independente) é um farol no meio da escuridão.

De certa forma Hellblade fez-me lembrar uma outra obra prima que tentou abordar a doença mental, neste caso o stress pós traumático, Spec-Ops the Line. Na altura cometi o erro de dar demasiada importância à parte mecânica, refreando todo o impacto emocional que teve em mim, e arrependi-me de não lhe dar a toda a relevânica que merecia. Não irei cometer o mesmo erro com Hellblade que sairá daqui com a mesma nota que deveria ter dado a Spec-Ops. Cinco merecidas estrelas.

Tempo de Jogo: 10 Horas

Positivo:
+ Temáticas
+ Atmosfera
+ Senua
Face tech
Sound design.

Negativo:
– Combate.

 

Sai do templ… do Pixelhunt com:

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