Hereditary – Hereditário [2018]

Decidi esperar deliberadamente alguns dias e um segundo visionamento até me aventurar a escrever qualquer coisa sobre este Hereditary, deixei passar aquele hype que às vezes nos tolda o juízo e nos impossibilita de ver os defeitos.

O cinema de terror vive hoje em dia um dos seus melhores períodos, rivalizando com as épocas douradas dos anos 30, 70 ou 80 e os seus melhores representantes, que começam a ser agrupados num movimento intitulado de “Post-Horror“, são obras que fazem mover o cinema de género em frente. O último grande exemplo é este Hereditary que vem vindo a assombrar-me desde que o vi, alias já o esperava há uns bons meses, depois da prometedora recepção que teve no festival de Sundance, dos excelentes trailers e do facto de ser uma aposta da A24 que hoje em dia é de longe a melhor produtora americana. 

Quem me conhece sabe do tipo de terror que gosto (e do que desgosto). Terror atmosférico, lento e paciente é muito mais duradouro e persistente que um conjunto de jump scares e set pieces previsíveis. Hereditary usa essas particularidades para montar uma história perturbadora que funciona em múltiplos níveis, seja ela uma de decadência familiar, dos efeitos de doença mental ou terror sobrenatural. E essa polivalência, aliada à forma como o estreante Ari Aster monta o terror em termos técnicos, elevam Hereditary para algo mais que um bom filme de terror ou uma compilação de clichés e lugares comuns.

Dentro da sua originalidade e imprevisibilidade é fácil ver as suas inspirações, seja Rosemary’s Baby, Don’t Look Now ou The Shining, mas nunca senti, vez alguma, estar a ver um filme sem ideias a copiar sucessos prévios, bem pelo contrário, Hereditary emprega e inventa uma linguagem cinemática de terror que bebe muito mais inspiração num Kubrick (com as tais inspirações de The Shinning) do que propriamente nos clássicos tradicionais do terror. É no entanto de louvar e aplaudir a forma como, sem receios em alienar parte do seu publico, abraça com a segurança de quem conhece o seu género, o lado mais pulp e “vulgar” do seu lado sobrenatural.

Hereditary é um slow burner e prepara com mestria o espectador durante a primeira hora (abrilhantada com a melhor sequência dos últimos anos) ao mergulha-lo numa constante tensão e terror sem nunca ser óbvio e evidente. O primeiro choque surge bem cedo, e a partir dai é um constante crescendo que explode por completo na inacreditável meia hora final que é do mais tenso e assustador que um veterano de terror como eu viveu em idade adulta. Contudo, não é menos verdade que no meu segundo visionamento o ultimo terço do filme perde um pouco de foco e cuidado, especialmente na sua edição (parece-me ter havido ali muito corte e costura, algumas cenas não encaixam bem) e na exposição narrativa que desbobina demasiada informação que era óbvia.

Mas, mesmo com os pontos menos positivos, o que interessa é que passada uma semana, o filme ainda me assombra o pensamento, e que mais pode um filme de terror pedir?

E o que dizer da Toni Collette? Incrível!

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