The Favourite – A Favorita [2018]

Yorgos Lanthimos têm-se vindo a afirmar como um dos meus novos realizadores favoritos e também um dos mais únicos, porque, verdade seja dita, mais ninguém faz filmes como ele. Os seus filmes figuram sempre mundos extremamente bizarros onde os comportamentos humanos caem dentro do chamado “uncanny valley” dramático, ou seja as pessoas comportam-se como pessoas, mas com estranhos traços e idiossincrasias onde o exagerado e o ridículo mascaram-se de forma normal, sem o ser. Gosto de descrever os seus filmes como se extraterrestres fizessem um filme sobre humanos, sem nos conhecerem realmente.

The Favourite é o seu mais recente filme, e mesmo sendo o mais “civilizado” por entre toda a bizarria da sua cinematografia, é, felizmente, mais uma janela para esse mundo fantástico. A premissa roda em volta da rainha britânica Ana e do jogo de interesses entre a sua conselheira Sarah Churchill, esposa do famoso duque de Marlborough e a camareira Abigail Masham, tudo figuras históricas, aqui moldadas, é claro, por liberdade artística. E ainda bem, porque The Favourite só se eleva precisamente porque mistura esse realismo histórico (e em termos visuais e estéticos é bastante realista) com o surrealismo de Yorgos. Se fosse um vulgar drama histórico nunca passaria de “apenas mais um”.

O melhor: A visão bizarra do Yorgos, as interpretações do trio, em especial Olivia Colman que já anda há anos nisto e teve agora finalmente uma oportunidade a sério para brilhar. A cinematografia com ângulos exagerados que de certa forma trás à tona simultâneamente elementos opostos de realismo e surrealismo. O maravilhoso argumento cheio de frases e diálogos que se tornarão clássicos e o habitual e genuíno humor negro dos filmes do Yorgos que nunca é forçado e barato. O realismo dos cenários e do ambiente, como as noites escuras iluminadas apenas com velas que são lindíssimas.

O Pior: Não sei, enquanto o via pareceu-me que o ultimo acto perdeu alguma da coesão do resto do filme, quase parecendo uma colagem de momentos, mas teria de o rever para tirar duvidas. De qualquer das formas não há nada que a meu ver seja um handicap ao filme.

Melhor cena: Há muitas que se tornarão icónicas no futuro, mas vou escolher a subjectiva e enigmática cena final que no cinema não entendi por completo, mas que em poucos minutos encapsula toda a mensagem do filme e caracteriza o papel e o destino das três personagens. Mesmo não a entendendo inicialmente, ela provocou uma estranha inquietação e hipnose em mim como se tivesse a ver o sonho incompreensível de alguém.

Veredicto: É um clássico instantâneo que, mesmo que não venha a vencer o Oscar de melhor filme, será seguramente visto, a longo prazo, como o filme de 2018. The Favourite é o neto excêntrico do Barry Lyndon (é fácil ver as semelhanças) e merece pertencer a tão distinguida e reservada linhagem real.

Originalmente de 2018, estreou em Portugal em 2019.

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